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quinta-feira, abril 14, 2005

ALFREDO PIMENTA 

Nasceu Alfredo Pimenta, em Guimarães, a 3 de Dezembro de 1882 e faleceu em 1950, no dia 15 de Outubro.
Tinha onze anos, quando comecei a frequentar o Museu de Arqueologia e a Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, onde era bibliotecário Rodrigo Pimenta, irmão de Alfredo Pimenta. Foi a partir daí que li as obras deste escritor, com quem mantive amizade durante muitos anos, e uma correspondência, às vezes polémica, quanto a problemas de arte, ou satisfazendo as minhas dúvidas de jovem. Pela vida fora a minha admiração por Alfredo Pimenta mantinha-se. Ia lendo as suas crónicas sobre História, Filosofia e Literatura, na «Voz» e no «Diário de Notícias». A irreverância das suas polémicas ainda mais me aproximou da sua obra, jovem que era, e irreverente, apanágio de juventude, sinal mesmo na gente de idade madura de que ainda não se esqueceu, para se vender na vida. Foi o que aconteceu com Alfredo Pimenta, atacado por quantos ele desmascarava, repetindo o labéu de «vira-casacas», coisa que ele nunca foi, pois a sua orientação mental não mudou para o favorecer, antes pelo contrário: foi republicano no tempo da Monarquia, monárquico quando se proclamou a República.
Poeta, crítico literário, polemista e historiador, Alfredo Pimenta foi um escritor que deixou uma imensa obra. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, cedo advogou e largou o mester. Foi o primeiro director do Arquivo Municipal de Guimarães, que hoje tem o seu nome, e era director da Torre do Tombo, quando faleceu. A seu pedido, está sepultado na pequenina capela de Nossa Senhora da Madre de Deus, na freguesia de São Mamede de Aldão, nos subúrbios de Guimarães, em frente à sua casa, onde passava temporadas e escreveu alguns dos seus livros. Foi académico fundador da Academia Portuguesa de História, pertencia à Associação dos Arqueólogos Portugueses, ao Instituto Português de Arqueologia, História e Etnologia e outras instituições de cultura em Portugal e no estrangeiro.
Da sua bibliografia, com um campo extraordinário, desde o ensaio e crítica literária e histórica aos estudos filosóficos, só aqui serão focadas suas obras principais, pois seria necessário muito espaço para transcrevê-las. Em Filosofia publica "Factos Sociais (problemas de hoje) — ensaios de filosofia crítica", "Estudos Filosóficos e Críticos", "A Evolução de um Pensamento", "Novos Estudos Filosóficos e Críticos" e um terceiro livro de "Estudos Filosóficos e Críticos", já em edição póstuma.
Em História, os "Elementos da História de Portugal", "D. João III", "Fontes Medievais da História de Portugal", e uma série de estudos históricos publicados em várias revistas.
Sobre literatura, política, crítica e polémica deixou escritos, dum alto valor cultural, sempre na defesa dum Portugal português, que grande influência tiveram na nossa informação mental.
No prefácio da sua "História de Portugal" escrevera: «Os estudantes não são todos iguais. Oferecem-nos uma escala que vai dos melhores aos piores: dos mais inteligentes e mais ousados até aos obtusos e mais lentos. Entendo que os livros devem ser feitos para os primeiros, e não para os outros. Estes limitar-se-ão ao que podem, guiados pelos professores; aqueles aproveitarão tudo o que se lhes fornecer, e com isto a cultura portuguesa só terá a lucrar. Não devemos sacrificar as inteligências superiores às mediocridades inertes.»
A sua História de Portugal mereceu críticas de apoio dos grandes nomes da cultura portuguesa, do jesuíta padre Domingos Maurício, do franciscano Leonardo de Castro, do professor doutor Joaquim de Carvalho, do professor Ricardo Jorge, general João de Almeida, doutor Paulo Durão, S. J., professor Armando Cortesão, do cardeal Cerejeira, entre muitos outros.
«Em História», escreveu Alfredo Pimenta, «no capítulo de apreciação dos acontecimentos, todas as verdades devem ser nacionais; na apreciação dos factos, o critério da verdade não pode deixar de ser um só — o do interesse nacional. Nestas condições, como historiador, longe de procurar esquecer-me de que sou português, faço, ao contrário, tudo para ter bem presente no meu espírito, essa qualidade.» Palavras que agora tanto precisamos de meditar... ao olharmos o que se escreve, descaradamente, mentindo, à nossa volta.
Como intelectual, os seus volumes de estudos filosóficos e críticos são escritos que a juventude tem de estudar, para uma formação completa do seu saber, rumo que sempre norteou a obra deste escritor.
Na «Tribuna dLivre» do jornal «A Voz» ou nos folhetins do «Diário de Notícias», sobre «Cultura Portuguesa, Cultura Estrangeira», os escritos de Alfredo Pimenta tiveram grande influência na formação do espírito da juventude da minha geração.
Com a publicação da obra póstumo Terceiro Livro de Estudos Filosóficos e Críticos atinge o número 170 a opera omnia, os escritos de Alfredo Pimenta.
Nas "Palavras à Juventude", incita a mocidade de Portugal a defender-se de «todos os manipanços interesseiros e pérfidos», para não serem tolhidos por inquietações e dúvidas, e não lhes embaracem superstições ou receios, porque a tempo e horas, ouviram e seguiram o que lhe ensinaram: «a crer em Deus, a crer na Pátria, a crer no Rei. E quem crê em Deus, na Pátria e no Rei, sabe o que quer e para onde vai».
Na revista coimbrã «Mensagem», de Amândio César, Caetano Beirão, Meira Ramos, Pina Martins, (Duarte de Montalegre) onde colaborei com desenhos e artigos de arte, e, em polémica, defendendo mestre Dordio Gomes, com um estudo sobre a sua obra de pintor e grande mestre de novas gerações de artistas, escreveu Alfredo Pimenta nas "Cartas Monárquicas": «Falar à gente nova, aos rapazes de vinte anos que, de consciência pura, e de espírito ansioso de se definir e determinar, me procuram é dos maiores prazeres intelectuais que me podem ser oferecidos. Neste babelismo de linguagem, nesta cavalgada louca, saiu a mais lastimável confusão.» Palavras, palavras ocas e duma falsidade que o tempo desmascará, na boca dos homens ou impressas, invadiram o mundo. A última mensagem de Alfredo Pimenta, o seu testamento foi, como sempre, «em defesa da portugalidade».
António Lino
(In «Correio da Manhã» de 27.01.1987)

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