domingo, junho 12, 2005
EM DEFESA DA PORTUGALIDADE
Um fechado grupo de amigos meus da vizinha cidade de Braga criou-se o hábito de, todos os anos, se reunir à minha volta, em jantar íntimo, no propósito confessado de me afirmar a sua solidariedade com as minhas opiniões, os meus sentimentos e as minhas atitudes. A esse grupo fixo, melhor diria, a essa constelação simpática, costumam aderir, todos os anos, uns tantos amigos dispersos, variáveis em número, mas irmanados no sentimento que os inspira.
Hostil, por natureza e por madura reflexão do meu espírito, a banquetes consagratórios de porta aberta a todos os que, mediante o preço da tabela, queiram entrar, sentar-se, comer e beber, sempre senti o gosto nestes pequenos e discretos jantarzinhos regionais, quase familiares — umas vezes, em Braga, outras vezes, em Famalicão, não muito arredados da Thebaida onde venho recuperar forças e retemperar os nervos.
Decidira, este ano, pedir a esses meus amigos que se dispensassem da fadiga de se deslocarem para se sentarem, mais uma vez, à minha volta, no jantar tradicional.
Não é que me pese a espada dos combates, ou me cegue a poeira que os prélios levantam, ou me intimide a fúria dos arautos do Sol vermelho que pretendem erguer a nova Cidade sobre os alicerces amassados em sangue e lama — no sangue das vítimas e na lama dos ódios.
Não é tampouco que me tenha sido enxertado o veneno da Renúncia, ou ande tentado a adormecer a minha voz, sob o ópio da Abdicação.
Não. A causa é outra.
A saúde não é muita — basta olhar-se para mim; a disposição de espírito ainda é menos — basta conviver comigo. E o espectáculo que o mundo me oferece começa a tecer sombria penumbra de cepticismo em redor da minha inteligência caldeada em uma luta de quase meio século, e com que forjei o meu nome, e à custa da qual criei, a par de dedicações luminosas, ódios canibalescos que não respeitam nem a idade, nem a sinceridade, nem o sacrifício que representa uma vida pobre e livre.
Assim, sem me deixar tocar do veneno da Renúncia ou vencer do ópio da Abdicação — já me está a apetecer o silêncio, o sossego, o esquecimento...
Será que eu pressinta, sem querer confessá-lo, que se aproxima claramente a hora em que o braço cai, inerte, a voz emudece, de extinta, e a audácia quebra, de inútil?
Será porque da semente lançada à terra não saíram os fortes castanheiros de amplas copas, e duras carvalhas de duros ramos, ou as flores esbeltas de doces perfumes e amorosas cores — não pela esterilidade natural da terra, mas pela fraqueza da semente, e pela insuficiência ou inabilidade do semeador que eu sou?
Será porque as coisas não correram como eu sonhara e queria, tão depressa como eu queria e sonhara, e no sentido do Interesse superior da nossa terra?
Seja como fôr, a verdade é que já me está a apetecer o silêncio, o sossego, o esquecimento...
Em vez da minha pena, feita gládio de ásperas lutas, e da minha voz, feita pregoeira da Justiça e da Verdade, outras penas e outras vozes começam de se ver e ouvir — mais novas, e, portanto, de mais longo e mais fecundo futuro.
É possível que ande nessas penas e nessas vozes, algo da minha pena e da minha voz. E se assim não é, não mo digam, e deixem-me essa vaidade de Sol a declinar, e essa ilusão de velho lutador, para que me não magoe e arrefeça a certeza de que foi inteiramente estéril a minha passagem na vida.
Mas o que é certo é que me está a apetecer o silêncio, o sossego, o esquecimento...
Eis porque decidira pedir aos meus amigos de todos os anos que, este ano, se limitassem às visitas amenas à Madre de Deus.
O silêncio, o sossego, o esquecimento...
Mas se eu ponho, é Deus quem dispõe.
E Ele dispôs que eu reconhecesse que devia ainda aproveitar este novo ensejo que os meus amigos me ofereciam, de propagar, mais uma vez, certas verdades, e, mais uma vez, a afirmar a minha presença.
E cá estou. E cá estamos. E desta vez, tendo comigo os meus bons amigos de Guimarães.
Percorrendo rapidamente as fisionomias que me encaram, sinto que há ausências amargas. Deixem-me ter um pensamento de ternura e comovida saudade para aquele espírito gentil, alma doce e mística de poeta das cores, Fausto Gonçalves, que, ainda no ano passado, no Bom Jesus, se sentou ao meu lado direito, encantando-me com a graça dos seus dizeres, e comovendo-me com o carinho generoso das suas palavras.
Vejo tanta gente à minha volta, que facilmente compreendo que nem todos sejam inteiramente como eu sou, isto é, que nem todos comunguem em todos os meus credos, que nem todos me acompanhem em todas as minhas atitudes, nem todos sancionem todas as minhas posições.
Mas se eu quisesse ajustar-me ao modo de ser, aos sentimentos e opiniões de cada um, transfigurar-me-ia, deixava de ser quem sou, e em vez da personalidade homogénea, íntegra e independente que me caracteriza e se oferece à Crítica, passaria a ser cocktail policromático, fonte de contradições — o Absurdo. E estou convencido de que é precisamente por ser como sou, — inflexível, de uma só peça, tão claro como o dia, nas minhas atitudes, tão transparente como a água da minha fonte, nas minhas doutrinas, tão lógico como as deduções matemáticas, nos meus actos, que vejo, aqui, hoje, a agasalhar-me, todas estas amizades, em que não faltarão as incondicionais, como, ontem, há seis anos, na noite de 31 de Outubro, na Sala Salazar, na Universidade do Porto, vi a rodear-me, a festejar-me, a dar-me vinte anos de vida, o mais ardente, o mais belo, o mais impressionante entusiasmo da gente moça e da gente da minha idade!
Ao entrar nesta sala, portanto, não tive que deixar à porta, com os agasalhos e a badina, por mais pequeno que fosse, nenhum dos elementos que constituem o meu ser intelectual ou moral.
Estou, aqui, completo, tal como sou, lá fora, nos meus livros, nos meus discursos, nos meus estudos, nos meus artigos de doutrina ou de polémica, sem que qualquer sombra de disfarce ou de equívoco, sem qualquer esfumamento de aresta ou saliência, sem qualquer vestígio de restrição ou cobardia.
Estou, aqui, completo, com os meus pecados que são inegáveis e inúmeros, com as minhas virtudes que serão, quero crê-lo, ilusórias e filhas da generosidade dos outros. Porque nós somos muito mais, para o mundo e para a História, como os outros nos fazem, do que propriamente como nós somos. Só somos bem o que somos, para Deus que nos vê à luz do seus Juízo absoluto, e não através do Amor que retoca ou do Ódio que caricatura...
Pelo seu lado, os que me escutam, esses, na escala da sua variedade, têm um elo comum — e só isso explica que estejam aqui. Todos eles se determinam pelo mesmo sentimento que os agrupa a todos e os une todos a mim — o do reconhecimento da minha sinceridade, do meu desinteresse, da firmeza das minhas convicções e da independência dos meus juízos. É esse sentimento comum que os retém, aqui, nesta noite...
É que desse sentimento até os adversários (não falo dos inimigos contumazes que a paixão dementa!) até os adversários podem participar.
Um deles, e um dos mais ilustres, o professor e crítico Lopes de Oliveira, escreveu, dirigindo-se a mim, estas palavras: «O que nos salva do naufrágio moral em que se perdem tantos dos nossos companheiros, a plenitude da nossa boa fé, é a integridade perfeita da intenção superior com que iniciamos e continuamos a carreira que não sabemos bem onde nos levará, mas na qual cada passo é ordenado pela convicção». (1)
E daí — quem sabe? — é talvez por eu ser como sou e quem sou, na integridade do meu pensamento e do meu feitio, que me querem e me estimam os que me escutam e cercam, e tantos param no seu caminho, a ouvir-me...
Tendo deixado pegadas do meu nome em dezenas de livros que são os marcos miliários da minha obra caleidoscópica, não preciso de perguntar a nenhum dos que estão aqui, o que, nessa obra, os trouxe aqui.
Não foram os Poemas, nem os estudos históricos; não foram os trabalhos de investigação erudita, nem os estudos de revisão histórica; não foram as polémicas literárias ou filosóficas, ou as críticas teológicas. Pode haver alguma coisa de tudo isto; mas o que principalmente vêem em mim é o que lá fora faz de mim alvo dos aplausos delirantes, ou de pedradas furiosas: o doutrinador político e social, o expositor da Monarquia e do Nacionalismo integral, do Autoritarismo contra-revolucionário, do Tradicionalismo católico e ocidental — numa palavra, o doutrinador de Portugalidade.
Repito e insisto: de Portugalidade.
Nem da Latinidade — termo que nada significa, por amplo de mais; nem da Hispanidade, que nos absorve e confunde; nem da Lusitanidade, que nos abastarda. Não somos latinos, nem somos hispanos, nem somos lusitanos, somos portugueses!
A Latinidade é uma categoria histórica, sem base concreta; a Hispanidade tem Castela por centro; a Lusitanidade tem por lar a Lusitânia que não é toda nossa.
Só a Portugalidade é inteiramente nossa, característica e tipicamente nossa.
Portugalenses, portugaleses, portugueses, assim nos chamamos e nos chamaram, ao nascer; assim nos chamamos e nos chamaram, durante séculos, até que a pedantaria dos humanistas nos crismou de — lusitanos.
Portugueses nascemos, portugueses devemos morrer. Doutrinador de Portugalidade — eis o sector da minha multiforme actividade intelectual, que, como íman fatídico, atrai as dedicações luminosas que me cercam, aqui, e lá fora, e encandeia os ódios e os rancores que me seguem a sombra...
Porque doutrinador de Portugalidade — católico, não católico progressivo, à maneira de Maritain e os seus sequazes portugueses, mas católico português, como sempre foram os portugueses católicos que nunca se envergonharam de o ser, e nunca se esconderam sacrílega e comodamente atrás do termo equívoco, confuso e neutro de cristão, como nunca aceitaram que lhes estendessem a mão os inimigos da sua Fé.
Sou católico, intemeratamente fiel ao Credo fixado na Profissão fidei tridentina, em 13 de Novembro de 1534; católico conscientemente informado no Syllabus; católico português, empregando todos os meus esforços para que a Nação regresse à sua missão de Fidelíssima, mas não tocada dum Fidelismo progressivo, e anarquizante das consciências.
Porque doutrinador de Portugalidade — monárquico, porque foi a Monarquia que fez Portugal, mas a Monarquia pura, a Monarquia tradicional, a que vem de 1128, se afirma em Ourique, se consolida em Aljubarrota, rasga o caminho marítimo da Índia, cria o Império, sucumbe, devagar, em Alcácer, e ressuscita em 1640, para cair, apunhalada pelas costas, em 1834, em Évora-Monte.
Porque doutrinador de Portugalidade — monárquico, mas da Monarquia que fez a Nação, e não da que começou a desfazê-la; da Monarquia em que o Rei é a síntese viva do Povo, da Monarquia que ama o Povo, que se confunde com o próprio Povo — mas o Povo verdadeiro, e não o Povo dos Partidos, o Povo pulverizado em indivíduos que são números; a Monarquia que é o próprio Povo, o Povo trabalhador, — camponês, soldado, marinheiro, artífice, doutor, padre, letrado, sábio, artista, funcionário, e não o Povo vadio e tunante das conjuras, das alfurjas, dos apetites das facções, dos grupos e dos clubes políticos, dos demagogos e arruaceiros.
Porque doutrinador da Portugalidade — inimigo da Democracia que, entrando as nossas fronteiras nas mochilas das hordas napoleónicas representativas da Revolução Francesa, nos veio dementar, e se instalou no Poder em 1820, e tomou conta definitivamente do Estado, sob a máscara de Monarquia, em 1834, com o Senhor D. Pedro, Imperador do Brasil, e sem máscara, em 5 de Outubro de 1910, por obra e graça da Carbonária de Lisboa.
Porque doutrinador de Portugalidade — inimigo do Liberalismo político que matou as liberdades profissionais ou corporativas, e as regalias municipais — preanunciando o Standardismo comunista.
Porque doutrinador de Portugalidade — adversário do Parlamentarismo que é a falsificação do Supremo Interesse Nacional.
Porque doutrinador de Portugalidade — amigo do Povo, cheio de carinhos para as suas desditas, cheio de entusiasmo fervoroso para as suas glórias, ríspido, às vezes, para os seus desmandos, mas sempre zeloso das suas virtudes, e, consequentemente, inimigo declarado e implacável dos exploradores das suas paixões e dos seus instintos, dos que, sistematicamente, fazem dele degrau para as suas ambições mais depravadas, e para a satisfação dos seus interesses mais inconfessáveis.
Porque doutrinador de Portugalidade — defensor do Povo contra os Mitos que o fascinam e pervertem, contra as nuvens que o embriagam e corrompem, contra as Miragens que o seduzem e estrangulam.
Porque doutrinador de Portugalidade — nacionalista integral, pondo acima de tudo, e de todas as considerações, o Interesse legítimo, o Prestígio honesto, a grandeza eterna, e a honra Imaculada da Pátria — e por isso mesmo católico e monárquico.
E é ainda porque doutrinador de Portugalidade, que páro, a escutar e a interpretar as vozes que vêm de lá de fora e da distância — pela repercussão que possam ter nos destinos da minha Pátria.
Há um coro de clamores trágicos, de gritos aflitivos, de ralhos tempestuosos, de acusações coléricas, e despeitadas, que enchem o mundo de lés a lés, como oceano em hora de marés vivas.
No meio desse coro de raivas e angústias, eu sou um dos que podem erguer com autoridade, a voz, e aos que gritam, e ralham, e acusam e se desesperam, assustados, inquietos, aterrados, não sabendo já para onde fugir, perguntar-lhes:
Então?! Quem tinha razão?!
As sereias que cantavam as árias trémulas da conversão da Rússia, da urbanização do Comunismo, do aburguesamento dos Soviets, da bondade de Estaline, da dissolução do Komintern, ou eu, e os que como eu, defendiam a unidade da Europa diante da catástrofe que viamos formar-se e aproximar-se?
Quem tinha razão? Os que, como eu, preconizavam a concentração das forças de toda a Europa - desde Portugal à Grécia, desde a Grâ-Bretanha à Suécia, desde a Bélgica à Itália, desde a Finlândia à Bulgária, contra a invasão moscovita, ou os que arregimentavam todas as forças do mundo, temporais e espirituais, desde o Capitalismo judaico à Maçonaria internacional, desde os bas-fonds das Urbes até os sectores políticos obedientes a Maritain, Mauriac, e à clique da Aube e do Temps Présent, para que se defendesse e salvasse a Rússia?
Quem tinha razão? Os que, como eu, lastimaram a vitória russa de Estalinegrado, ou os que embandeiraram em arco e deitaram morteiros, em saudação a ela?
Quem tinha razão? Os que como eu, proclamavam a unidade espiritual da Europa, pela conjugação da Águia germânica e da Loba romana, diante da Barbária soviética, ou os que iam, em romagem votiva, a Moscovo, depositar nas mãos de Estaline espadas de honra?
Quem tinha razão? Os que, como eu, defendiam a tese de que devia levantar-se nas fronteiras russas a floresta de ferro que contivesse a onda apocalíptica, e salvasse a Europa do seu alastramento, ou os que acusavam a Espanha de não ser amiga, por ter na frente russa a Divisão Azul, e trouxeram a Rússia até ao meio da Europa, e a deixaram instalar-se, sendo manifesto que sovietizaria tudo quanto ocupasse?
Quem tinha razão? Ó Povo português que te deixaste embalar pelo canto das sereias democráticas, e acreditaste que a paz que elas te prometiam era a aurora, anunciadora do Sol da Vida?
A Ventura? Aí tens uma Europa faminta, a pedir esmola, a esperar que lhe deitem a côdea que a ajude a morrer mais depressa.
O Sol da Vida? Aí o tens, feito do sangue de milhões de vítimas, desde os fuzilados, os enforcados e assassinados, até os que sucumbem de inanição e horror.
Desceu sobre a maior parte da Europa, a pedra fria do túmulo. E a pequena parte que ainda vive, oásis escasso em cemitério sem limites, essa... está de oratório!
A Paz! A Paz que a Vitória forjou e fez tocar os sinos, e estralejar girândolas de foguetes, reduziu o mundo a uma espessa e intérmina legião de escravos, guardada por dois molossos que se odeiam: no Ocidente, um, de bomba atómica na mão; no Oriente, o outro, cínico, com o veto a funcionar ininterruptamente.
Foi esta a Paz que a Vitória nos trouxe. A Europa, quase toda em ruínas, morre de fome. E a Paz ciranda de conferência em conferência, de Londres para Washington, de Moscovo para Paris, as malas pejadas de planos, muitos planos, extensos planos, inconcebíveis planos, e, rodeada de comissões, muitas comissões, incansáveis comissões que elaboram planos, comparam planos, destroem planos — para se descobrir, afinal, oh! maravilha das maravilhas! que para matar a fome à Europa, para enriquecer a Europa, a melhor forma ainda é desmantelar-lhe centenas de fábricas!
Só de uma assentada, e na última fornada, a Paz decretou o desmantelamento de setecentas e cinquenta fábricas!
Se a hora não fora de tragédia tenebrosa, seria caso de se morrer de tédio ou de mofa, ante o espectáculo que nos oferece a máquina geradora da Paz que está a trabalhar a toda a força, na América, e é essa chafarica da UNO, sucessora correcta e aumentada daqueloutra chafarica de Genebra que Deus tenha e mantenha nas profundas dos infernos.
Tudo aquilo, nessa máquina geradora da paz, é comédia mais ou menos gangsteriana, ou vampismo holywoodesco, que está a pedir, isso, sim, em dia de sessão plenária, bomba atómica certeira.
Autêntica Assembleia democrática, em que se juntou o mais admirável escol das nulidades! Pior do que isso, só a imbecilidade genial do sr. Einstein, fiando a salvação do mundo, de um parlamento universal, eleito directamente pelas massas!
Pois foi esta a Paz que a Vitória nos trouxe.
Quem tinha razão, Povo Português? Os que, como eu, te diziam que te acautelasses das serenatas do D. Juan democrático, e do fado do Hilário da Liberdade, ou os que te aconselhavam que te deixasses cair nos braços postiços das Vénus de Milo trabalhadas em Moscovo, e em Yalta, em Teheran ou a bordo do Potomack?
Quem tinha razão?
«Mas você enganou-se», dir-se-à, e já mo disseram — «você enganou-se, quando previa a queda fulminante da situação portuguesa, arrastada pela Vitória».
Enganei-me? Ainda bem que me enganei! Não me tivesse eu enganado, não estariamos nós, hoje, aqui...
Mas francamente, aqui para nós que ninguém nos ouve — na verdade, na verdade, enganei-me tanto como parece?
Comícios anti-comunistas do Campo Pequeno, onde estais vós?
Campanhas anti-comunistas do Rádio Club Português, onde estais vós?
Mocidade portuguesa masculina, onde estão as tuas manifestações viris e audazes, braço erguido, na saudação que primitivamente te ensinaram?
Legião portuguesa, onde estão as tuas paradas sensacionais, face aos teus chefes a acolher-te, braço estendido, em saudação que todos conhecíamos e entendíamos?
Isto me basta para fundamentar a minha pergunta: na verdade, enganei-me de todo?
O Homem é o mesmo? Graças a Deus, é. E que Deus o conserve e no-lo conserve. Mas o ar nacional é o mesmo? O rumo nacional é o mesmo? A tranquilidade nacional é a mesma?
Desçamos mais fundo: o Homem, sendo o mesmo, é a mesma a sua posição?
Exigem direitos de cidade, a MUD senil e a MUD juvenil. Exigiu-os, tê-los-ia exigido qualquer delas, antes de 1945? Frutos da Vitória...
O panorama internacional é confuso, cada vez mais confuso, e ameaçador. Todos falam, e ninguém os entende ou acredita!
A tentar impedir que essa confusão nos atinja, afogue e nos subverta — Salazar!
Na grande arena do mundo, na sua parte ocidental, movem-se os que o Mediocrismo caracteriza, e são vedetas da Democracia — desde os Trumans aos Edens, desde os Marshalls aos Blums, desde os De Gasperis aos Bidaults, desde os Atlees aos Churchills, desde os Ramadiers aos Spaaks, passando pelos Gaulles, todos sob a batuta dos primeiros; na sua parte oriental, o Neo-Czar de todas as Rússias, que soube meter nos bolsos do seu capote de generalíssimo, a Polónia, os Países bálticos, a Finlândia, a Roménia, a Bulgária, a Checoslováquia, a Jugoslávia, a Hungria, a Albânia, a Áustria e metade da Alemanha — tudo isto nas barbas embasbacadas dos camaradas da Vitória!
No seu avanço para ocidente, o Neo-Czar de todas as Rússias só parou onde quis, quando quis, e como quis — e não porque outrem lhe embargasse o passo.
O Neo-Czar de todas as Rússias é já, potencialmente, o Senhor do Mundo; não tarda muito que o seja em acto.
Quem lhe faz frente? O bloco ocidental é impotente. Se o não fosse, já teria convidado o Neo-Czar de todas as Rússias a regressar ao ponto de partida, ou o teria forçado a isso.
O bloco ocidental discursa, fala pelos cotovelos, amua, faz beicinho, abre a boca de varado, — e o Neo-Czar de todas as Rússia vai consolidando as suas posições, e russificando as regiões e Estados que ocupa, desde a Finlândia à Roménia, desde a Polónia a Berlim, desde Viena a Trieste.
E quando entender que soou a hora de fazer voltar as suas tropas à terra natal, deixará atrás de si Estados vassalos, comunizados, deseuropeizados, perdidos para a civilização ocidental...
Se, antes disso, não for a guerra - a guerra que lhe dará o Ocidente da Europa, desde Berlim a Lisboa...
Entre os títeres que representam o bloco ocidental, e o Neo-Czar — um Homem, com H grande, que não é americano, nem russo, nem inglês, nem escandinavo, nem francês, nem abexim; um Homem que não dispõe de exércitos nem de esquadras, de bombas atómicas ou de vetos; um Homem que não anda turisticamente pelas salas das conferências, nem é chamado aos conclaves dos medíocres, porque os confundiria a todos. Esse homem é português, e dispõe tão só da sua Inteligência culta, da dialéctica honesta das suas razões sinceras, da profundeza e da substância das suas doutrinas sãs — chama-se Salazar.
À demência de uns, à inferioridade mental de outros, à ciganice destes, ao cinismo daqueles, só ele seria capaz de opôr a verticalidade insuperável dos seus princípios, a inflexibilidade da sua ética, a serenidade impecável da sua austeridade, tudo o que, há perto de vinte anos, constitui o capital seguro da sua política.
Que falta a este Homem, para ser, na hora doente em que vivemos, guia previdente, conselheiro sensato, e Juíz severo? Para ser grande, não precisa de ser comparado aos Grandes reinantes. Compará-lo a eles é ofuscá-los, sumi-los, reduzi-los à sua natural insuficiência.
O que falta é apenas isto: ser governante de um Estado poderoso que, para se fazer ouvir e obedecer, tenha atrás de si, a apoiá-lo, as bocas dos canhões e as baionetas dos Exércitos.
No mundo materialista que é o nosso mundo, o que vale é a Força bruta — a força das Armas, ou a força dos Dollars.
Salazar fala em nome de um Estado que possui apenas uma História.
Representa uma Ideia, em um momento em que só os maquiavelismos pragmáticos valem; representa o Espírito, quando só a Matéria pesa; representa a Lealdade, quando só a Hipocrisia se impõe; representa a mão estendida e aberta, quando o punho cerrado se respeita e adora.
Há quase vinte anos, um Povo, caído na mais terrível das insolvências, entregou-se nas suas mãos. Esse homem pediu confiança, e, só com ela, ergueu esse Povo, e fez desse Povo atribulado, escarnecido, desprezado, o único Povo da Europa que não precisa de esperar a esmola do pão que come, e que seria feliz se não fossem as desgraças dos outros.
Porque não se entrega o mundo, com fé, a esse Homem, em vez de andar atrás dos grandes pigmeus e dos seus planos mirabolantes que encalham aqui, e encalham acolá, e são manifestamente, indiscutivelmente, idiotas?
Digo isto sem sombra de cortesanismo ou de lisonja. Depois de mim, logo depois de mim, o primeiro que está certo de que sou incapaz de uma e outra coisa, é Salazar!
Não quis a Providência restituir-nos o Rei. Deus sabe com que mágoa o verifico!
Mas há perto de vinte anos que está à frente dos nossos destinos, para seu próprio sacrifício, e o nosso orgulho e o nosso bem, a Inteligência culta e o carácter nobre de Salazar.
Só Deus sabe com que satisfação o reconheço!
Vinte anos contínuos, se se fizer a história verdadeira do mundo civilizado, e desta Paz de rancores e de inépcias, há-de confessar-se que só um Homem existiu que poderia evitar que essa Paz fosse rancorosa e inepta: Salazar. Não o ouviram, não o chamaram, que é da natureza das coisas que os medíocres e os sub-medíocres fechem os ouvidos às palavras clarividentes dos espíritos cultos, e fechem os olhos aos exemplos das consciências sinceras e rectas.
E o mundo vai de degrau em degrau descendo à amargura das vilezas, para daí cair no inferno do Comunismo que o espera...
E nós? Nesta Paz de rancores e inépcias, que seria de nós?
Nós estamos de oratório. Os fados hão-de cumprir-se. Sofreremos os Dictados que nos impuserem. Indefectivelmente fiéis, assim o espero, à nossa Civilização católica, monárquica e portuguesa, aguardaremos a onda maldita que avança implacável.
Não! Nós não somos solidários com a Vitória que instalou o Comunismo na quase totalidade dos Estados da Europa, e o infiltra habilmente nos restantes.
Não somos solidários com a Vitória que trouxe a Rússia soviética, triunfante e dominadora, quase até às portas da Península hispânica.
Não somos solidários com a Vitória que trouxe uma Paz em que se estão a temperar afanosamente as armas que hão-de destruir o que escapou ao cataclismo de 1939-45.
Não somos solidários com a Vitória, que esperneava em crises de histerismo ridículo, e de horror hipócrita, ante a cruz gamada, mas agita, agora, sobre as nossas pobres cabeças, a bandeira vermelha da cruz da Foice e do Martelo.
Nós não somos solidários com a Vitória que se diz cristã, mas se recusa a confessar-se católica; e que se diz defensora dos Direitos da Pessoa Humana, mas calca os direitos mais sagrados dos homens.
E se alguém se sente com ânimo para ser solidário com tal Vitória, ou se não sente com forças para a repudiar, um homem há que contra tudo e contra todos, constantemente, e, hoje mais do que nunca, a execra: sou eu!
Perante a onda que avança, e acaba de dar um passo enérgico em frente, ao constituir, na conferência de Varsóvia de há dias, a Agência Internacional de Informações dos partidos comunistas, o Kominform, ou seja, o novo Komintern, perante a onda que avança, que devemos fazer?
Há muito que não o escondo.
De pé, olhos bem abertos, face ao Inimigo, unidos em bloco firme, os dentes cerrados, resistir, combater até à morte, na defesa do Património sagrado que herdamos, para, ao menos, salvarmos a honra do nosso nome.
Descer as pontes da fortaleza — jamais!
Doutrinador de Portugalidade, — dirijo-me, daqui, a todos quantos sentem a grandeza do nome de Portugal, e lhes marco o dever de reagir, na medida das forças de cada um.
Não lhes aponto a Vitória, a nossa Vitória — porque não creio nela — pois fizemos tudo para que ela nos voltasse as costas... Fizemos é um modo de dizer. Fizeram...
Aponto-lhes o Martírio heróico, o Sacrifício incomparável, o finis Europae, a que aludiu, outro dia o Osservatore Romano, porque esse será o nosso destino.
Mas tenhamos, nós outros, os que vimos e previmos, os que avisamos e prevenimos, a consciência tranquila, porque nem por obras, nem por palavras, nem por intenções, ajudamos a Rússia a vencer, e nos tornamos, com que orgulho o afirmo (!) merecedores de que nos colocassem no peito medalhas de reconhecimento, os que contribuiram para a vitória da Rússia.
Não! Nós nunca fomos aliados de Moscovo... Orgulhamo-nos disso.
Quando no céu magnífico da nossa Península, se cruzarem os mastodontes da morte, deixando cair na terra as bombas atómicas que hão-de pulverizar as nossas cidades, as nossas vilas, as nossas aldeias, os nossos lares, reduzindo a montões de cadáveres irreconhecíveis, os milhões de homens que a habitam, gritemos todos, enquanto pudermos:
— Portugal! Portugal! Portugal!
Alfredo Pimenta
Guimarães, 11.10.1947
Nota:
1 — in Rema Sempre, pág. 102.
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Hostil, por natureza e por madura reflexão do meu espírito, a banquetes consagratórios de porta aberta a todos os que, mediante o preço da tabela, queiram entrar, sentar-se, comer e beber, sempre senti o gosto nestes pequenos e discretos jantarzinhos regionais, quase familiares — umas vezes, em Braga, outras vezes, em Famalicão, não muito arredados da Thebaida onde venho recuperar forças e retemperar os nervos.
Decidira, este ano, pedir a esses meus amigos que se dispensassem da fadiga de se deslocarem para se sentarem, mais uma vez, à minha volta, no jantar tradicional.
Não é que me pese a espada dos combates, ou me cegue a poeira que os prélios levantam, ou me intimide a fúria dos arautos do Sol vermelho que pretendem erguer a nova Cidade sobre os alicerces amassados em sangue e lama — no sangue das vítimas e na lama dos ódios.
Não é tampouco que me tenha sido enxertado o veneno da Renúncia, ou ande tentado a adormecer a minha voz, sob o ópio da Abdicação.
Não. A causa é outra.
A saúde não é muita — basta olhar-se para mim; a disposição de espírito ainda é menos — basta conviver comigo. E o espectáculo que o mundo me oferece começa a tecer sombria penumbra de cepticismo em redor da minha inteligência caldeada em uma luta de quase meio século, e com que forjei o meu nome, e à custa da qual criei, a par de dedicações luminosas, ódios canibalescos que não respeitam nem a idade, nem a sinceridade, nem o sacrifício que representa uma vida pobre e livre.
Assim, sem me deixar tocar do veneno da Renúncia ou vencer do ópio da Abdicação — já me está a apetecer o silêncio, o sossego, o esquecimento...
Será que eu pressinta, sem querer confessá-lo, que se aproxima claramente a hora em que o braço cai, inerte, a voz emudece, de extinta, e a audácia quebra, de inútil?
Será porque da semente lançada à terra não saíram os fortes castanheiros de amplas copas, e duras carvalhas de duros ramos, ou as flores esbeltas de doces perfumes e amorosas cores — não pela esterilidade natural da terra, mas pela fraqueza da semente, e pela insuficiência ou inabilidade do semeador que eu sou?
Será porque as coisas não correram como eu sonhara e queria, tão depressa como eu queria e sonhara, e no sentido do Interesse superior da nossa terra?
Seja como fôr, a verdade é que já me está a apetecer o silêncio, o sossego, o esquecimento...
Em vez da minha pena, feita gládio de ásperas lutas, e da minha voz, feita pregoeira da Justiça e da Verdade, outras penas e outras vozes começam de se ver e ouvir — mais novas, e, portanto, de mais longo e mais fecundo futuro.
É possível que ande nessas penas e nessas vozes, algo da minha pena e da minha voz. E se assim não é, não mo digam, e deixem-me essa vaidade de Sol a declinar, e essa ilusão de velho lutador, para que me não magoe e arrefeça a certeza de que foi inteiramente estéril a minha passagem na vida.
Mas o que é certo é que me está a apetecer o silêncio, o sossego, o esquecimento...
Eis porque decidira pedir aos meus amigos de todos os anos que, este ano, se limitassem às visitas amenas à Madre de Deus.
O silêncio, o sossego, o esquecimento...
Mas se eu ponho, é Deus quem dispõe.
E Ele dispôs que eu reconhecesse que devia ainda aproveitar este novo ensejo que os meus amigos me ofereciam, de propagar, mais uma vez, certas verdades, e, mais uma vez, a afirmar a minha presença.
E cá estou. E cá estamos. E desta vez, tendo comigo os meus bons amigos de Guimarães.
Percorrendo rapidamente as fisionomias que me encaram, sinto que há ausências amargas. Deixem-me ter um pensamento de ternura e comovida saudade para aquele espírito gentil, alma doce e mística de poeta das cores, Fausto Gonçalves, que, ainda no ano passado, no Bom Jesus, se sentou ao meu lado direito, encantando-me com a graça dos seus dizeres, e comovendo-me com o carinho generoso das suas palavras.
Vejo tanta gente à minha volta, que facilmente compreendo que nem todos sejam inteiramente como eu sou, isto é, que nem todos comunguem em todos os meus credos, que nem todos me acompanhem em todas as minhas atitudes, nem todos sancionem todas as minhas posições.
Mas se eu quisesse ajustar-me ao modo de ser, aos sentimentos e opiniões de cada um, transfigurar-me-ia, deixava de ser quem sou, e em vez da personalidade homogénea, íntegra e independente que me caracteriza e se oferece à Crítica, passaria a ser cocktail policromático, fonte de contradições — o Absurdo. E estou convencido de que é precisamente por ser como sou, — inflexível, de uma só peça, tão claro como o dia, nas minhas atitudes, tão transparente como a água da minha fonte, nas minhas doutrinas, tão lógico como as deduções matemáticas, nos meus actos, que vejo, aqui, hoje, a agasalhar-me, todas estas amizades, em que não faltarão as incondicionais, como, ontem, há seis anos, na noite de 31 de Outubro, na Sala Salazar, na Universidade do Porto, vi a rodear-me, a festejar-me, a dar-me vinte anos de vida, o mais ardente, o mais belo, o mais impressionante entusiasmo da gente moça e da gente da minha idade!
Ao entrar nesta sala, portanto, não tive que deixar à porta, com os agasalhos e a badina, por mais pequeno que fosse, nenhum dos elementos que constituem o meu ser intelectual ou moral.
Estou, aqui, completo, tal como sou, lá fora, nos meus livros, nos meus discursos, nos meus estudos, nos meus artigos de doutrina ou de polémica, sem que qualquer sombra de disfarce ou de equívoco, sem qualquer esfumamento de aresta ou saliência, sem qualquer vestígio de restrição ou cobardia.
Estou, aqui, completo, com os meus pecados que são inegáveis e inúmeros, com as minhas virtudes que serão, quero crê-lo, ilusórias e filhas da generosidade dos outros. Porque nós somos muito mais, para o mundo e para a História, como os outros nos fazem, do que propriamente como nós somos. Só somos bem o que somos, para Deus que nos vê à luz do seus Juízo absoluto, e não através do Amor que retoca ou do Ódio que caricatura...
Pelo seu lado, os que me escutam, esses, na escala da sua variedade, têm um elo comum — e só isso explica que estejam aqui. Todos eles se determinam pelo mesmo sentimento que os agrupa a todos e os une todos a mim — o do reconhecimento da minha sinceridade, do meu desinteresse, da firmeza das minhas convicções e da independência dos meus juízos. É esse sentimento comum que os retém, aqui, nesta noite...
É que desse sentimento até os adversários (não falo dos inimigos contumazes que a paixão dementa!) até os adversários podem participar.
Um deles, e um dos mais ilustres, o professor e crítico Lopes de Oliveira, escreveu, dirigindo-se a mim, estas palavras: «O que nos salva do naufrágio moral em que se perdem tantos dos nossos companheiros, a plenitude da nossa boa fé, é a integridade perfeita da intenção superior com que iniciamos e continuamos a carreira que não sabemos bem onde nos levará, mas na qual cada passo é ordenado pela convicção». (1)
E daí — quem sabe? — é talvez por eu ser como sou e quem sou, na integridade do meu pensamento e do meu feitio, que me querem e me estimam os que me escutam e cercam, e tantos param no seu caminho, a ouvir-me...
Tendo deixado pegadas do meu nome em dezenas de livros que são os marcos miliários da minha obra caleidoscópica, não preciso de perguntar a nenhum dos que estão aqui, o que, nessa obra, os trouxe aqui.
Não foram os Poemas, nem os estudos históricos; não foram os trabalhos de investigação erudita, nem os estudos de revisão histórica; não foram as polémicas literárias ou filosóficas, ou as críticas teológicas. Pode haver alguma coisa de tudo isto; mas o que principalmente vêem em mim é o que lá fora faz de mim alvo dos aplausos delirantes, ou de pedradas furiosas: o doutrinador político e social, o expositor da Monarquia e do Nacionalismo integral, do Autoritarismo contra-revolucionário, do Tradicionalismo católico e ocidental — numa palavra, o doutrinador de Portugalidade.
Repito e insisto: de Portugalidade.
Nem da Latinidade — termo que nada significa, por amplo de mais; nem da Hispanidade, que nos absorve e confunde; nem da Lusitanidade, que nos abastarda. Não somos latinos, nem somos hispanos, nem somos lusitanos, somos portugueses!
A Latinidade é uma categoria histórica, sem base concreta; a Hispanidade tem Castela por centro; a Lusitanidade tem por lar a Lusitânia que não é toda nossa.
Só a Portugalidade é inteiramente nossa, característica e tipicamente nossa.
Portugalenses, portugaleses, portugueses, assim nos chamamos e nos chamaram, ao nascer; assim nos chamamos e nos chamaram, durante séculos, até que a pedantaria dos humanistas nos crismou de — lusitanos.
Portugueses nascemos, portugueses devemos morrer. Doutrinador de Portugalidade — eis o sector da minha multiforme actividade intelectual, que, como íman fatídico, atrai as dedicações luminosas que me cercam, aqui, e lá fora, e encandeia os ódios e os rancores que me seguem a sombra...
Porque doutrinador de Portugalidade — católico, não católico progressivo, à maneira de Maritain e os seus sequazes portugueses, mas católico português, como sempre foram os portugueses católicos que nunca se envergonharam de o ser, e nunca se esconderam sacrílega e comodamente atrás do termo equívoco, confuso e neutro de cristão, como nunca aceitaram que lhes estendessem a mão os inimigos da sua Fé.
Sou católico, intemeratamente fiel ao Credo fixado na Profissão fidei tridentina, em 13 de Novembro de 1534; católico conscientemente informado no Syllabus; católico português, empregando todos os meus esforços para que a Nação regresse à sua missão de Fidelíssima, mas não tocada dum Fidelismo progressivo, e anarquizante das consciências.
Porque doutrinador de Portugalidade — monárquico, porque foi a Monarquia que fez Portugal, mas a Monarquia pura, a Monarquia tradicional, a que vem de 1128, se afirma em Ourique, se consolida em Aljubarrota, rasga o caminho marítimo da Índia, cria o Império, sucumbe, devagar, em Alcácer, e ressuscita em 1640, para cair, apunhalada pelas costas, em 1834, em Évora-Monte.
Porque doutrinador de Portugalidade — monárquico, mas da Monarquia que fez a Nação, e não da que começou a desfazê-la; da Monarquia em que o Rei é a síntese viva do Povo, da Monarquia que ama o Povo, que se confunde com o próprio Povo — mas o Povo verdadeiro, e não o Povo dos Partidos, o Povo pulverizado em indivíduos que são números; a Monarquia que é o próprio Povo, o Povo trabalhador, — camponês, soldado, marinheiro, artífice, doutor, padre, letrado, sábio, artista, funcionário, e não o Povo vadio e tunante das conjuras, das alfurjas, dos apetites das facções, dos grupos e dos clubes políticos, dos demagogos e arruaceiros.
Porque doutrinador da Portugalidade — inimigo da Democracia que, entrando as nossas fronteiras nas mochilas das hordas napoleónicas representativas da Revolução Francesa, nos veio dementar, e se instalou no Poder em 1820, e tomou conta definitivamente do Estado, sob a máscara de Monarquia, em 1834, com o Senhor D. Pedro, Imperador do Brasil, e sem máscara, em 5 de Outubro de 1910, por obra e graça da Carbonária de Lisboa.
Porque doutrinador de Portugalidade — inimigo do Liberalismo político que matou as liberdades profissionais ou corporativas, e as regalias municipais — preanunciando o Standardismo comunista.
Porque doutrinador de Portugalidade — adversário do Parlamentarismo que é a falsificação do Supremo Interesse Nacional.
Porque doutrinador de Portugalidade — amigo do Povo, cheio de carinhos para as suas desditas, cheio de entusiasmo fervoroso para as suas glórias, ríspido, às vezes, para os seus desmandos, mas sempre zeloso das suas virtudes, e, consequentemente, inimigo declarado e implacável dos exploradores das suas paixões e dos seus instintos, dos que, sistematicamente, fazem dele degrau para as suas ambições mais depravadas, e para a satisfação dos seus interesses mais inconfessáveis.
Porque doutrinador de Portugalidade — defensor do Povo contra os Mitos que o fascinam e pervertem, contra as nuvens que o embriagam e corrompem, contra as Miragens que o seduzem e estrangulam.
Porque doutrinador de Portugalidade — nacionalista integral, pondo acima de tudo, e de todas as considerações, o Interesse legítimo, o Prestígio honesto, a grandeza eterna, e a honra Imaculada da Pátria — e por isso mesmo católico e monárquico.
E é ainda porque doutrinador de Portugalidade, que páro, a escutar e a interpretar as vozes que vêm de lá de fora e da distância — pela repercussão que possam ter nos destinos da minha Pátria.
Há um coro de clamores trágicos, de gritos aflitivos, de ralhos tempestuosos, de acusações coléricas, e despeitadas, que enchem o mundo de lés a lés, como oceano em hora de marés vivas.
No meio desse coro de raivas e angústias, eu sou um dos que podem erguer com autoridade, a voz, e aos que gritam, e ralham, e acusam e se desesperam, assustados, inquietos, aterrados, não sabendo já para onde fugir, perguntar-lhes:
Então?! Quem tinha razão?!
As sereias que cantavam as árias trémulas da conversão da Rússia, da urbanização do Comunismo, do aburguesamento dos Soviets, da bondade de Estaline, da dissolução do Komintern, ou eu, e os que como eu, defendiam a unidade da Europa diante da catástrofe que viamos formar-se e aproximar-se?
Quem tinha razão? Os que, como eu, preconizavam a concentração das forças de toda a Europa - desde Portugal à Grécia, desde a Grâ-Bretanha à Suécia, desde a Bélgica à Itália, desde a Finlândia à Bulgária, contra a invasão moscovita, ou os que arregimentavam todas as forças do mundo, temporais e espirituais, desde o Capitalismo judaico à Maçonaria internacional, desde os bas-fonds das Urbes até os sectores políticos obedientes a Maritain, Mauriac, e à clique da Aube e do Temps Présent, para que se defendesse e salvasse a Rússia?
Quem tinha razão? Os que, como eu, lastimaram a vitória russa de Estalinegrado, ou os que embandeiraram em arco e deitaram morteiros, em saudação a ela?
Quem tinha razão? Os que como eu, proclamavam a unidade espiritual da Europa, pela conjugação da Águia germânica e da Loba romana, diante da Barbária soviética, ou os que iam, em romagem votiva, a Moscovo, depositar nas mãos de Estaline espadas de honra?
Quem tinha razão? Os que, como eu, defendiam a tese de que devia levantar-se nas fronteiras russas a floresta de ferro que contivesse a onda apocalíptica, e salvasse a Europa do seu alastramento, ou os que acusavam a Espanha de não ser amiga, por ter na frente russa a Divisão Azul, e trouxeram a Rússia até ao meio da Europa, e a deixaram instalar-se, sendo manifesto que sovietizaria tudo quanto ocupasse?
Quem tinha razão? Ó Povo português que te deixaste embalar pelo canto das sereias democráticas, e acreditaste que a paz que elas te prometiam era a aurora, anunciadora do Sol da Vida?
A Ventura? Aí tens uma Europa faminta, a pedir esmola, a esperar que lhe deitem a côdea que a ajude a morrer mais depressa.
O Sol da Vida? Aí o tens, feito do sangue de milhões de vítimas, desde os fuzilados, os enforcados e assassinados, até os que sucumbem de inanição e horror.
Desceu sobre a maior parte da Europa, a pedra fria do túmulo. E a pequena parte que ainda vive, oásis escasso em cemitério sem limites, essa... está de oratório!
A Paz! A Paz que a Vitória forjou e fez tocar os sinos, e estralejar girândolas de foguetes, reduziu o mundo a uma espessa e intérmina legião de escravos, guardada por dois molossos que se odeiam: no Ocidente, um, de bomba atómica na mão; no Oriente, o outro, cínico, com o veto a funcionar ininterruptamente.
Foi esta a Paz que a Vitória nos trouxe. A Europa, quase toda em ruínas, morre de fome. E a Paz ciranda de conferência em conferência, de Londres para Washington, de Moscovo para Paris, as malas pejadas de planos, muitos planos, extensos planos, inconcebíveis planos, e, rodeada de comissões, muitas comissões, incansáveis comissões que elaboram planos, comparam planos, destroem planos — para se descobrir, afinal, oh! maravilha das maravilhas! que para matar a fome à Europa, para enriquecer a Europa, a melhor forma ainda é desmantelar-lhe centenas de fábricas!
Só de uma assentada, e na última fornada, a Paz decretou o desmantelamento de setecentas e cinquenta fábricas!
Se a hora não fora de tragédia tenebrosa, seria caso de se morrer de tédio ou de mofa, ante o espectáculo que nos oferece a máquina geradora da Paz que está a trabalhar a toda a força, na América, e é essa chafarica da UNO, sucessora correcta e aumentada daqueloutra chafarica de Genebra que Deus tenha e mantenha nas profundas dos infernos.
Tudo aquilo, nessa máquina geradora da paz, é comédia mais ou menos gangsteriana, ou vampismo holywoodesco, que está a pedir, isso, sim, em dia de sessão plenária, bomba atómica certeira.
Autêntica Assembleia democrática, em que se juntou o mais admirável escol das nulidades! Pior do que isso, só a imbecilidade genial do sr. Einstein, fiando a salvação do mundo, de um parlamento universal, eleito directamente pelas massas!
Pois foi esta a Paz que a Vitória nos trouxe.
Quem tinha razão, Povo Português? Os que, como eu, te diziam que te acautelasses das serenatas do D. Juan democrático, e do fado do Hilário da Liberdade, ou os que te aconselhavam que te deixasses cair nos braços postiços das Vénus de Milo trabalhadas em Moscovo, e em Yalta, em Teheran ou a bordo do Potomack?
Quem tinha razão?
«Mas você enganou-se», dir-se-à, e já mo disseram — «você enganou-se, quando previa a queda fulminante da situação portuguesa, arrastada pela Vitória».
Enganei-me? Ainda bem que me enganei! Não me tivesse eu enganado, não estariamos nós, hoje, aqui...
Mas francamente, aqui para nós que ninguém nos ouve — na verdade, na verdade, enganei-me tanto como parece?
Comícios anti-comunistas do Campo Pequeno, onde estais vós?
Campanhas anti-comunistas do Rádio Club Português, onde estais vós?
Mocidade portuguesa masculina, onde estão as tuas manifestações viris e audazes, braço erguido, na saudação que primitivamente te ensinaram?
Legião portuguesa, onde estão as tuas paradas sensacionais, face aos teus chefes a acolher-te, braço estendido, em saudação que todos conhecíamos e entendíamos?
Isto me basta para fundamentar a minha pergunta: na verdade, enganei-me de todo?
O Homem é o mesmo? Graças a Deus, é. E que Deus o conserve e no-lo conserve. Mas o ar nacional é o mesmo? O rumo nacional é o mesmo? A tranquilidade nacional é a mesma?
Desçamos mais fundo: o Homem, sendo o mesmo, é a mesma a sua posição?
Exigem direitos de cidade, a MUD senil e a MUD juvenil. Exigiu-os, tê-los-ia exigido qualquer delas, antes de 1945? Frutos da Vitória...
O panorama internacional é confuso, cada vez mais confuso, e ameaçador. Todos falam, e ninguém os entende ou acredita!
A tentar impedir que essa confusão nos atinja, afogue e nos subverta — Salazar!
Na grande arena do mundo, na sua parte ocidental, movem-se os que o Mediocrismo caracteriza, e são vedetas da Democracia — desde os Trumans aos Edens, desde os Marshalls aos Blums, desde os De Gasperis aos Bidaults, desde os Atlees aos Churchills, desde os Ramadiers aos Spaaks, passando pelos Gaulles, todos sob a batuta dos primeiros; na sua parte oriental, o Neo-Czar de todas as Rússias, que soube meter nos bolsos do seu capote de generalíssimo, a Polónia, os Países bálticos, a Finlândia, a Roménia, a Bulgária, a Checoslováquia, a Jugoslávia, a Hungria, a Albânia, a Áustria e metade da Alemanha — tudo isto nas barbas embasbacadas dos camaradas da Vitória!
No seu avanço para ocidente, o Neo-Czar de todas as Rússias só parou onde quis, quando quis, e como quis — e não porque outrem lhe embargasse o passo.
O Neo-Czar de todas as Rússias é já, potencialmente, o Senhor do Mundo; não tarda muito que o seja em acto.
Quem lhe faz frente? O bloco ocidental é impotente. Se o não fosse, já teria convidado o Neo-Czar de todas as Rússias a regressar ao ponto de partida, ou o teria forçado a isso.
O bloco ocidental discursa, fala pelos cotovelos, amua, faz beicinho, abre a boca de varado, — e o Neo-Czar de todas as Rússia vai consolidando as suas posições, e russificando as regiões e Estados que ocupa, desde a Finlândia à Roménia, desde a Polónia a Berlim, desde Viena a Trieste.
E quando entender que soou a hora de fazer voltar as suas tropas à terra natal, deixará atrás de si Estados vassalos, comunizados, deseuropeizados, perdidos para a civilização ocidental...
Se, antes disso, não for a guerra - a guerra que lhe dará o Ocidente da Europa, desde Berlim a Lisboa...
Entre os títeres que representam o bloco ocidental, e o Neo-Czar — um Homem, com H grande, que não é americano, nem russo, nem inglês, nem escandinavo, nem francês, nem abexim; um Homem que não dispõe de exércitos nem de esquadras, de bombas atómicas ou de vetos; um Homem que não anda turisticamente pelas salas das conferências, nem é chamado aos conclaves dos medíocres, porque os confundiria a todos. Esse homem é português, e dispõe tão só da sua Inteligência culta, da dialéctica honesta das suas razões sinceras, da profundeza e da substância das suas doutrinas sãs — chama-se Salazar.
À demência de uns, à inferioridade mental de outros, à ciganice destes, ao cinismo daqueles, só ele seria capaz de opôr a verticalidade insuperável dos seus princípios, a inflexibilidade da sua ética, a serenidade impecável da sua austeridade, tudo o que, há perto de vinte anos, constitui o capital seguro da sua política.
Que falta a este Homem, para ser, na hora doente em que vivemos, guia previdente, conselheiro sensato, e Juíz severo? Para ser grande, não precisa de ser comparado aos Grandes reinantes. Compará-lo a eles é ofuscá-los, sumi-los, reduzi-los à sua natural insuficiência.
O que falta é apenas isto: ser governante de um Estado poderoso que, para se fazer ouvir e obedecer, tenha atrás de si, a apoiá-lo, as bocas dos canhões e as baionetas dos Exércitos.
No mundo materialista que é o nosso mundo, o que vale é a Força bruta — a força das Armas, ou a força dos Dollars.
Salazar fala em nome de um Estado que possui apenas uma História.
Representa uma Ideia, em um momento em que só os maquiavelismos pragmáticos valem; representa o Espírito, quando só a Matéria pesa; representa a Lealdade, quando só a Hipocrisia se impõe; representa a mão estendida e aberta, quando o punho cerrado se respeita e adora.
Há quase vinte anos, um Povo, caído na mais terrível das insolvências, entregou-se nas suas mãos. Esse homem pediu confiança, e, só com ela, ergueu esse Povo, e fez desse Povo atribulado, escarnecido, desprezado, o único Povo da Europa que não precisa de esperar a esmola do pão que come, e que seria feliz se não fossem as desgraças dos outros.
Porque não se entrega o mundo, com fé, a esse Homem, em vez de andar atrás dos grandes pigmeus e dos seus planos mirabolantes que encalham aqui, e encalham acolá, e são manifestamente, indiscutivelmente, idiotas?
Digo isto sem sombra de cortesanismo ou de lisonja. Depois de mim, logo depois de mim, o primeiro que está certo de que sou incapaz de uma e outra coisa, é Salazar!
Não quis a Providência restituir-nos o Rei. Deus sabe com que mágoa o verifico!
Mas há perto de vinte anos que está à frente dos nossos destinos, para seu próprio sacrifício, e o nosso orgulho e o nosso bem, a Inteligência culta e o carácter nobre de Salazar.
Só Deus sabe com que satisfação o reconheço!
Vinte anos contínuos, se se fizer a história verdadeira do mundo civilizado, e desta Paz de rancores e de inépcias, há-de confessar-se que só um Homem existiu que poderia evitar que essa Paz fosse rancorosa e inepta: Salazar. Não o ouviram, não o chamaram, que é da natureza das coisas que os medíocres e os sub-medíocres fechem os ouvidos às palavras clarividentes dos espíritos cultos, e fechem os olhos aos exemplos das consciências sinceras e rectas.
E o mundo vai de degrau em degrau descendo à amargura das vilezas, para daí cair no inferno do Comunismo que o espera...
E nós? Nesta Paz de rancores e inépcias, que seria de nós?
Nós estamos de oratório. Os fados hão-de cumprir-se. Sofreremos os Dictados que nos impuserem. Indefectivelmente fiéis, assim o espero, à nossa Civilização católica, monárquica e portuguesa, aguardaremos a onda maldita que avança implacável.
Não! Nós não somos solidários com a Vitória que instalou o Comunismo na quase totalidade dos Estados da Europa, e o infiltra habilmente nos restantes.
Não somos solidários com a Vitória que trouxe a Rússia soviética, triunfante e dominadora, quase até às portas da Península hispânica.
Não somos solidários com a Vitória que trouxe uma Paz em que se estão a temperar afanosamente as armas que hão-de destruir o que escapou ao cataclismo de 1939-45.
Não somos solidários com a Vitória, que esperneava em crises de histerismo ridículo, e de horror hipócrita, ante a cruz gamada, mas agita, agora, sobre as nossas pobres cabeças, a bandeira vermelha da cruz da Foice e do Martelo.
Nós não somos solidários com a Vitória que se diz cristã, mas se recusa a confessar-se católica; e que se diz defensora dos Direitos da Pessoa Humana, mas calca os direitos mais sagrados dos homens.
E se alguém se sente com ânimo para ser solidário com tal Vitória, ou se não sente com forças para a repudiar, um homem há que contra tudo e contra todos, constantemente, e, hoje mais do que nunca, a execra: sou eu!
Perante a onda que avança, e acaba de dar um passo enérgico em frente, ao constituir, na conferência de Varsóvia de há dias, a Agência Internacional de Informações dos partidos comunistas, o Kominform, ou seja, o novo Komintern, perante a onda que avança, que devemos fazer?
Há muito que não o escondo.
De pé, olhos bem abertos, face ao Inimigo, unidos em bloco firme, os dentes cerrados, resistir, combater até à morte, na defesa do Património sagrado que herdamos, para, ao menos, salvarmos a honra do nosso nome.
Descer as pontes da fortaleza — jamais!
Doutrinador de Portugalidade, — dirijo-me, daqui, a todos quantos sentem a grandeza do nome de Portugal, e lhes marco o dever de reagir, na medida das forças de cada um.
Não lhes aponto a Vitória, a nossa Vitória — porque não creio nela — pois fizemos tudo para que ela nos voltasse as costas... Fizemos é um modo de dizer. Fizeram...
Aponto-lhes o Martírio heróico, o Sacrifício incomparável, o finis Europae, a que aludiu, outro dia o Osservatore Romano, porque esse será o nosso destino.
Mas tenhamos, nós outros, os que vimos e previmos, os que avisamos e prevenimos, a consciência tranquila, porque nem por obras, nem por palavras, nem por intenções, ajudamos a Rússia a vencer, e nos tornamos, com que orgulho o afirmo (!) merecedores de que nos colocassem no peito medalhas de reconhecimento, os que contribuiram para a vitória da Rússia.
Não! Nós nunca fomos aliados de Moscovo... Orgulhamo-nos disso.
Quando no céu magnífico da nossa Península, se cruzarem os mastodontes da morte, deixando cair na terra as bombas atómicas que hão-de pulverizar as nossas cidades, as nossas vilas, as nossas aldeias, os nossos lares, reduzindo a montões de cadáveres irreconhecíveis, os milhões de homens que a habitam, gritemos todos, enquanto pudermos:
— Portugal! Portugal! Portugal!
Alfredo Pimenta
Guimarães, 11.10.1947
Nota:
1 — in Rema Sempre, pág. 102.
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