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domingo, novembro 06, 2005

COISAS DO TEMPO PRESENTE 

O sr. Maritain criou-se uma fama geral de Filósofo — não tanto pelo que diz, mas principalmente pela maneira como o diz. É o seu estilo obscuro, com o seu quê de hermético, o factor principal da sua fama. Tal como aconteceu com Bergson, Filósofo de muita nomeada nos salões mundanos, em tempos que já lá vão, e de muito alta consideração nos meios jornalísticos, de si superficiais e palavrosos. Quanto ao meio propriamente filosófico, ou seja à História da Filosofia, a ver iremos, lá mais adiante, quando eu já não for deste mundo, e não puder verificar as coisas.
Bom crítico do bergsonismo na sua fase inicial, autor de uma Lógica incompleta, promotor de um movimento de curiosidade à volta do teólogo português Fr. João de S. Tomás, o sr. Maritain alargou a esfera da sua actividade, e entrou no campo difícil e perigoso da política militante. E revelou-se o que até aí conseguira ocultar: homem de esquerda, em aliança mais ou menos discreta com tudo que tivesse o sinal ou carimbo da Revolução.
Estava na América, quando a França teve que baixar as suas armas e capitular diante do adversário, depois de, inutilmente, ter sacrificado milhares de vidas numa luta que nada, pela palavra nada justificava, e que o mais rudimentar bom senso mandava que se evitasse.
Porque estava na América, na América se deixou ficar o sr. Maritain. E, resolveu, então deitar Mensagem à Europa em geral, e à França em especial.
Chegou a Lisboa, há um mês e tal — mas é datada de 21 de Novembro do ano passado de 1940. Chama-se À Travers le Désastre, e pertence a uma colecção intitulada Voix de France, de que saíram já os Tragédie en France do sr. André Maurois; Sept Mystéres du Destin de l`Europe, do sr. Jules Romains, e Le Roi des Belges a-t-il Trahi?, do sr. Robert Goffin.
É claro que estes volumes não são nada Vozes de França; o que eles são, naturalmente, legitimamente, são as vozes de cada um daqueles senhores. A voz da França está no Marechal Philippe Pétain, soldado íntegro que despiu a sua glória brilhante de vencedor, para se envolver na estamenha humilde de vencido e penitente, por amor da França, da sua querida França; a voz da França está nos artigos de Maurras — tão sóbrios e equilibrados, mas em que se sente palpitar um coração chagado e apunhalado.
A Mensagem do sr. Maritain é a mais horrível falência que um filósofo podia ter.
Porque é acima de tudo um livro de mentiras e embustes.
Afirma nela, logo de entrada, o sr. Maritain de que na América pode falar livremente de muitas coisas, sobre que em França se tem de fazer silêncio.
A gente acreditá-lo-ia, se os Estados Unidos fossem, sincera e puramente, um Estado neutral, ou se na França não houvesse uma zona livre, onde os jornais dizem o que querem sobre as realidades. Mas os Estados Unidos são um Estado que o sr. Roosevelt colocou numa das trincheiras, e de que fez o campeão da Democracia — daquela Democracia que nós já tivemos, desde 1910 a 1926, e que vomitamos, fartos e enojados, em 28 de Maio. O sr. Maritain não fala livremente: fala ao sabor da Democracia de que os Estados Unidos são defensores, que os Estados Unidos querem impor aos outros, e que nós repudiamos, pela mão do Exército, repito, em 28 de Maio de 1926. O sr. Maritain fala como democrata, como espírito inspirado pela Democracia, como inteligência colocada ao serviço da Democracia.
Se estivesse em França, teria que falar ao serviço da França; em Nova Iorque, fala ao serviço da Democracia. Hoje, faz a sua diferença.
Afirma ainda que a sua intenção consiste em tentar descobrir a verdade, e dizê-la, e que procura falar com justiça e objectividade do que o afecta no coração.
Isto, em Nova Iorque centro de recepção de todas as notícias contraditórias, e numa atmosfera espessa de materialidade farisaica e democrática.
Aqui temos ressuscitada, a ilusão, que supunhamos morta, de distinção entre a moral pública e a moral privada. Este homem, dizia-se, é, politicamente, um bandido; mas pessoalmente é um anjo! Como governante, um Nero ou Calígula; como homem privado — a síntese de todas as virtudes. Como homem de governo, rouba e deixa roubar; como chefe de família, não deve cinco réis a ninguém.
Assim nos pinta, o sr. Maritain, à França: politicamente sem vergonha, e escrúpulos; moralmente, a quinta essência de Jeanne d`Arc.
Isto é para marcar a posição contra o Marechal Pétain que apontou como uma das causas da derrota da França, a sua falência moral, filha dos prazeres e tudo o mais.
É claro que isto demora o seu combate à extrema-direita que acusa de odiar a Inglaterra, a Democracia, a Plebe, os políticos da Esquerda e os Judeus.
Donde se conclui que a extrema-esquerda amava a Inglaterra, a Democracia, a Plebe, os políticos da extrema-direita e os Judeus. E o sr. Maritain implicitamente se confessa partidário da Inglaterra, da Democracia, dos políticos da extrema-esquerda, da Plebe e dos Judeus.
É evidente que, dentro deste espírito, quando acentua as responsabilidades da política de Chamberlain durante a guerra internacional de Espanha, quer dizer na sua que a Inglaterra devia ter ajudado mais eficazmente os bandos anarco-comunistas do governo de Madrid.
Sabem o que o sr. Maritain combate a valer nos políticos da Esquerda? A sua preocupação em merecer a estima e a consideração das camadas sociais representadas pelos políticos de Madrid.
E sobre estes, o sr. Maritain carrega feio e forte... E sintetiza: as esquerdas traíam a Democracia; as direitas traíam a França!
Para o sr. Maritain a guerra actual é a guerra entre a Civilização e a Barbárie. Que é para este Filósofo a Civilização? Ele o diz claramente: «poder respirar livremente; poder levantar-se todas as manhãs sem ter em cima de si o olhar da polícia; ir ao trabalho que se prefere, sem se ser mobilizado à força para um campo de trabalho; poder criticar o governo, ler jornais em que se não confia muito mas não mentem em coro por ordem do Estado; poder casar-se sem ter que se passar pelo veterinário, nem que se perguntar se se teve uma avó de sangue infecto; poder educar-se os filhos segundo as suas ideias, e dizer diante deles tudo o que se pensa, e mesmo mais, sem receio de que eles façam denúncias à polícia; poder cada um dirigir a sua vida — vida de homem, não de rebanho; e guardar a herança de paciência, inteligência e liberdade dos Pais e dos Avós, preparando dias em que se vivesse mais justamente e mais humanamente» (1).
Não faço comentários — que nem vale a pena.
O sr. Maritain atribui o desastre militar da França, entre outras causas, «à de ter desprezado e invalidado as advertências e as concepções novas, do único especialista que claramente viu as condições, com os armamentos modernos, em que se podia alcançar a vitória» (2). A alusão a de Gaulle é transparente. No entanto cumpria advertir que a importância desta guerra é, nos meios militares competentes, responsáveis, considerada pura fumisteria: «De Gaulle apenas se apropriou de ideias que não lhe pertenciam, e que, de resto, eram bem conhecidas de todos os oficiais de carres» — eis o juízo sucinto dum oficial superior do Exército francês, e se pode ler na Action Française de 5 de Março.
Pensa o sr. Maritain que o pedido de armistício foi extemporâneo. Pensa assim, porque estava na América, e está em Nova York. Mas o Marechal Pétain, que estava em França, tinha vinte a vinte e cinco divisões alemãs; a aviação nem sequer podia dispor dos seus campos: os restos do corpo expedicionário inglês já estavam na Inglaterra; o exército que defendia a Bretanha, separado dos outros exércitos, etc., etc.
Sem o Armistício — captura de todo o Exército francês; invasão total da França; a anarquia nas populações em fuga.
Para o sr. Maritain, que está na América, isto não tinha importância, porque o importante era a situação dos Franceses de amanhã.
O que é a gente estar tranquilamente num hotel monstruoso de Nova York!
O que verdadeiramente impressiona o sr. Maritain é «a maneira como a República foi escamoteada, e uma divisa de que a França era orgulhosa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) foi abolida, e a pressa com que se fabricou uma fachada do antigo regime e de Ordem moral, e a renegação dos motivos duma justa guerra».
O auxílio à Família; a restauração do sentido da dignidade de trabalho e da dedicação ao Interesse comum; o combate ao alcoolismo; a protecção à propriedade aldeã — nada disso vale, uma vez que a França se não liberte da influência alemã! (3)
E a política religiosa? Ora... Foi o governo da Frente Popular que recebeu o Cardeal Pacelli; era na República francesa que o Pontífice Pio XI pensava quando esteve para deixar Roma. E, no fim de contas, é para lastimar que a justiça devida à Igreja da França, lhe seja concedida pelo Governo do Armistício! (4)
São estas as linhas da Mensagem maritanesca à Europa e à França. Pensando nela, no seu teor, e na sua ideologia, penso, ao mesmo tempo, nos dois milhões de mensagens infantis que o marechal Pétain recebeu por ocasião do Natal.
Foram dois milhões de crianças, de entre os seis e os quinze anos, que se lhe dirigiram!
Entre as mensagens das crianças e a Mensagem do sr. Maritain não há que hesitar: na primeira, há a inocência e a espontaneidade; na segunda, há o sofisma, o erro e o ódio.
Alfredo Pimenta
1 — Jacques Maritain, À Travers le Désastre, pág. 49.
2 — Jacques Maritain, À Travers le Désastre, pág. 59.
3 — Jacques Maritain, À Travers le Désastre, pág. 88.
4 — Jacques Maritain, À Travers le Désastre, pág. 92.

(In «A Voz», n.º 5057, págs. 1/6, 01.04.1941)

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