sexta-feira, novembro 04, 2005
NA EUROPA DOENTE
Tenho um amigo, e bom amigo ele é, com quem me encontro todos os dias e com quem, todos os dias, há uns dez anos a esta parte, cavaqueio o meu quarto de hora, quase sempre peripatetando.
É, o meu amigo, filósofo à sua maneira. Detesta as bulhas, as impaciências e as maroteiras. Nasceu em sossego, trabalhou em sossego, vive em sossego, e quer que o deixem, em sossego, esperar a hora final. Ama a sua terra e os que a fazem grande e tranquila. Foge dos aventureiros que fizeram da Pátria terra de exploração pessoal e proveito particular.
É inteligente e é culto. Lê e ouve. Julga, e conduz-se pelos seus juízos. Mas entende que nem o tempo lhe chega para tudo, nem a sua cultura pode abranger tudo.
Como os tempos vão revoltos, mutáveis e caprichosos, entende, o meu amigo, que quanto menos concorrer para a perturbação, para a instabilidade e para a confusão, melhor; e assim abstém-se sistematicamente de analisar e criticar certos factos da vida pública.
Mas precisando de se conduzir, tem necessidade de um ponto de referência.
Há quem, todas as manhãs, ao enfiar o pijama ou o capote, bata à porta do barómetro, a investigar que tal está o tempo, e para onde pende a agulha.
O meu amigo, todas as manhãs, ou todas as tardes, também consulta o seu barómetro, para saber como vai a coisa pública.
Todas as manhãs, ou todas as tardes, passa pela sua tabacaria, a comprar o macinho de francês, e onde encontra, todas as tardes ou todas as manhãs, dois amigos do bairro — reviralhistas da gema, saudosistas impenitentes do batuque parlamentar de S. Bento, e dos jornais feitos canos de esgoto de todas as imundícies e protérvias — para bem da Liberdade, da honra da Democracia, e glória da República.
Os amigos do meu amigo comentam os acontecimentos — lei que saiu, decreto que se anuncia, postura que se outorga.
O meu amigo não discute, não entra na conversa. Ouve, sorri, e o seu juízo é simplista e seguro.
Os amigos reviralhistas estão furiosos, como baratas, indignados e intratáveis? O meu amigo sai, a esfregar as mãos de contente, convencido de que isto vai bem, e o Salazar, como ele me diz, anda a direito.
Os amigos reviralhistas estão bem dispostos, a gabar este ministro, muito esperançados nos bons resultados desta lei ou desta medida governativa? O meu amigo comprou o seu macinho de francês, e sai de orelha murcha, desconfiado, e dizendo para consigo próprio: «Mau! Houve asneira...»
O seu barómetro, o seu critério do Bem e do Mal, são os dois amigos reviralhistas.
Por ele, afina o seu diapasão, e dirige os seus passos.
O reviralho está contente e aplaude? O meu amigo amua, e desconfia. O reviralho está tenebroso e apoplético? O meu amigo vai dar uma volta, achando azul de primavera o céu entroviscado de inverno, e confia na vida e nos destinos da Pátria.
Perante o que se passa na Europa há uns meses, e tendo em vista certas reacções que determinados acontecimentos provocam, quantas vezes me não tenho lembrado da filosofia do meu amigo!
Querem acreditar que tenho, sobre os factos passados, desde a guerra da Abissínia à ocupação da Albânia, passando pelo Anschluss e pela Checo e a Eslováquia, pela guerra de Espanha e pelo caso de Memel, as minhas opiniões, porque sobre qualquer desses factos, não tenho uma só.
Considerando cada um desses acontecimentos em si, julgo-o de uma maneira; considerando-o dentro do quadro do condicionalismo geral, julgo-o de outra maneira.
Não sou extremista, nem sou eclético — tocado pelo ecletismo prudente e seguro que me ensinaram na Universidade, há trinta e nove anos. Olho as coisas debaixo dum critério realista e relativo — que o Absoluto nada tem que ver com isto.
A verdade é que a Europa está dividida em dois campos, que a mim, homem de ideias claras, se me afigura impossível caracterizar nitidamente, geometricamente, mas que a Opinião Pública baptizou com estes nomes: Totalitarismo; Democracia.
E, para mim, não há nada mais Totalitário do que a Democracia; e não há nada mais democrático do que o Totalitarismo.
Os dois nomes podem ser ainda substituídos por estes: Força (Totalitarismo); Direito (Democracia).
E, para mim, a base da Democracia é a Força (Número), e o Totalitarismo invoca o Direito à vida — que é de Direito natural.
Outros dois nomes ainda a substituir os antecedentes: Paz (Democracia); Guerra (Totalitarismo).
E, para mim, nunca houve germe tão fecundo de guerras internacionais e intestinas como a Democracia, e se no Totalitarismo há esporas a tilintar, nas Democracias, o ramo de oliveira é um bluff repugnante.
Todos esses nomes são uma pura mistificação, máscara que esconde uma coisa muito real, muito positiva e muito certa: interesses materiais.
Interesses de comércio; interesses de produção; interesses de expansão; interesses políticos, de predomínio, de captação ou arranjo.
Não. A Europa não se debate num conflito de ideias, como para aí se diz: a Europa debate-se num pavoroso conflito de interesses materiais; ela não se debate num conflito de sentimentos; debate-se num conflito demoníaco de apetites. A guerra de 1914-1918 foi uma guerra de imperialismos. O imperialismo vencedor impôs ao imperialismo vencido uma paz de violência estúpida. Podia ter sido violência, mas inteligente. Para iludir o mundo e os vindouros, tingiram essa violência de cores fantasistas: Direito, Liberdade, Democracia, todos os velhos narizes de cera da Revolução satânica, ou diabolical, como se dizia no nosso adorável português de trezentos.
Os narizes de cera subiram à cabeça das massas — e foi a maré cheia bolchevista e comunista que alastrou da Rússia, invadiu a Europa Central e a Itália, e se infiltrou em França, e toma pé em Espanha e Portugal.
Há nos povos uma força mais poderosa do que as massas: é o instinto de viver. Reagiu a Europa Central, depois de ter reagido a Itália: aqui a reacção chamou-se fascismo; na Europa Central, chamou-se nazismo; entre nós, 28 de Maio; na Espanha, nacionalismo.
No imperialismo vencedor de 1918 — um povo imune, a Inglaterra, como o seu Rei, as suas tradições, o seu domínio dos mares, o seu império colonial, os seus interesses, numa palavra, trazendo, atrás de si, a França.
Do bolo da vitória, ela repartira com esta, as alfaias, as baixelas, as terras, os navios, tudo o que se apanhara aos vencidos. Ora no imperialismo vencedor estava a Itália; mas o insular nunca ligou importância ao peninsular.
Contentámo-nos com o coqueiro de Kionga... Mas a Itália teve, como recompensa do sacrifício, a vaga comunista. E reagiu. Quando um povo reage, e encontra o génio animador e dirigente — a coisa é séria. O insular não acreditou.
A Itália reagiu; a Europa Central reagiu. Os Povos não se batem por ideias: batem-se por sentimentos — e são as guerras religiosas ou as Cruzadas, ou batem-se por interesses, e são as guerras de todos os tempos. Hoje, a época de fé enfraquecida, não há guerras de religião.
A reacção da Europa Central e da Itália despertou todos os interesses vitais da Germânia e da Península.
Em horas de crise e de luta — não há palavreado. Daí, o anti-parlamentarismo da Europa Central e da Itália. Não se trata duma questão de doutrina; trata-se duma necessidade imperiosa.
Alfredo Pimenta
(In A Voz, n.º 4365, págs. 1/4, 23.04.1939)
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É, o meu amigo, filósofo à sua maneira. Detesta as bulhas, as impaciências e as maroteiras. Nasceu em sossego, trabalhou em sossego, vive em sossego, e quer que o deixem, em sossego, esperar a hora final. Ama a sua terra e os que a fazem grande e tranquila. Foge dos aventureiros que fizeram da Pátria terra de exploração pessoal e proveito particular.
É inteligente e é culto. Lê e ouve. Julga, e conduz-se pelos seus juízos. Mas entende que nem o tempo lhe chega para tudo, nem a sua cultura pode abranger tudo.
Como os tempos vão revoltos, mutáveis e caprichosos, entende, o meu amigo, que quanto menos concorrer para a perturbação, para a instabilidade e para a confusão, melhor; e assim abstém-se sistematicamente de analisar e criticar certos factos da vida pública.
Mas precisando de se conduzir, tem necessidade de um ponto de referência.
Há quem, todas as manhãs, ao enfiar o pijama ou o capote, bata à porta do barómetro, a investigar que tal está o tempo, e para onde pende a agulha.
O meu amigo, todas as manhãs, ou todas as tardes, também consulta o seu barómetro, para saber como vai a coisa pública.
Todas as manhãs, ou todas as tardes, passa pela sua tabacaria, a comprar o macinho de francês, e onde encontra, todas as tardes ou todas as manhãs, dois amigos do bairro — reviralhistas da gema, saudosistas impenitentes do batuque parlamentar de S. Bento, e dos jornais feitos canos de esgoto de todas as imundícies e protérvias — para bem da Liberdade, da honra da Democracia, e glória da República.
Os amigos do meu amigo comentam os acontecimentos — lei que saiu, decreto que se anuncia, postura que se outorga.
O meu amigo não discute, não entra na conversa. Ouve, sorri, e o seu juízo é simplista e seguro.
Os amigos reviralhistas estão furiosos, como baratas, indignados e intratáveis? O meu amigo sai, a esfregar as mãos de contente, convencido de que isto vai bem, e o Salazar, como ele me diz, anda a direito.
Os amigos reviralhistas estão bem dispostos, a gabar este ministro, muito esperançados nos bons resultados desta lei ou desta medida governativa? O meu amigo comprou o seu macinho de francês, e sai de orelha murcha, desconfiado, e dizendo para consigo próprio: «Mau! Houve asneira...»
O seu barómetro, o seu critério do Bem e do Mal, são os dois amigos reviralhistas.
Por ele, afina o seu diapasão, e dirige os seus passos.
O reviralho está contente e aplaude? O meu amigo amua, e desconfia. O reviralho está tenebroso e apoplético? O meu amigo vai dar uma volta, achando azul de primavera o céu entroviscado de inverno, e confia na vida e nos destinos da Pátria.
Perante o que se passa na Europa há uns meses, e tendo em vista certas reacções que determinados acontecimentos provocam, quantas vezes me não tenho lembrado da filosofia do meu amigo!
Querem acreditar que tenho, sobre os factos passados, desde a guerra da Abissínia à ocupação da Albânia, passando pelo Anschluss e pela Checo e a Eslováquia, pela guerra de Espanha e pelo caso de Memel, as minhas opiniões, porque sobre qualquer desses factos, não tenho uma só.
Considerando cada um desses acontecimentos em si, julgo-o de uma maneira; considerando-o dentro do quadro do condicionalismo geral, julgo-o de outra maneira.
Não sou extremista, nem sou eclético — tocado pelo ecletismo prudente e seguro que me ensinaram na Universidade, há trinta e nove anos. Olho as coisas debaixo dum critério realista e relativo — que o Absoluto nada tem que ver com isto.
A verdade é que a Europa está dividida em dois campos, que a mim, homem de ideias claras, se me afigura impossível caracterizar nitidamente, geometricamente, mas que a Opinião Pública baptizou com estes nomes: Totalitarismo; Democracia.
E, para mim, não há nada mais Totalitário do que a Democracia; e não há nada mais democrático do que o Totalitarismo.
Os dois nomes podem ser ainda substituídos por estes: Força (Totalitarismo); Direito (Democracia).
E, para mim, a base da Democracia é a Força (Número), e o Totalitarismo invoca o Direito à vida — que é de Direito natural.
Outros dois nomes ainda a substituir os antecedentes: Paz (Democracia); Guerra (Totalitarismo).
E, para mim, nunca houve germe tão fecundo de guerras internacionais e intestinas como a Democracia, e se no Totalitarismo há esporas a tilintar, nas Democracias, o ramo de oliveira é um bluff repugnante.
Todos esses nomes são uma pura mistificação, máscara que esconde uma coisa muito real, muito positiva e muito certa: interesses materiais.
Interesses de comércio; interesses de produção; interesses de expansão; interesses políticos, de predomínio, de captação ou arranjo.
Não. A Europa não se debate num conflito de ideias, como para aí se diz: a Europa debate-se num pavoroso conflito de interesses materiais; ela não se debate num conflito de sentimentos; debate-se num conflito demoníaco de apetites. A guerra de 1914-1918 foi uma guerra de imperialismos. O imperialismo vencedor impôs ao imperialismo vencido uma paz de violência estúpida. Podia ter sido violência, mas inteligente. Para iludir o mundo e os vindouros, tingiram essa violência de cores fantasistas: Direito, Liberdade, Democracia, todos os velhos narizes de cera da Revolução satânica, ou diabolical, como se dizia no nosso adorável português de trezentos.
Os narizes de cera subiram à cabeça das massas — e foi a maré cheia bolchevista e comunista que alastrou da Rússia, invadiu a Europa Central e a Itália, e se infiltrou em França, e toma pé em Espanha e Portugal.
Há nos povos uma força mais poderosa do que as massas: é o instinto de viver. Reagiu a Europa Central, depois de ter reagido a Itália: aqui a reacção chamou-se fascismo; na Europa Central, chamou-se nazismo; entre nós, 28 de Maio; na Espanha, nacionalismo.
No imperialismo vencedor de 1918 — um povo imune, a Inglaterra, como o seu Rei, as suas tradições, o seu domínio dos mares, o seu império colonial, os seus interesses, numa palavra, trazendo, atrás de si, a França.
Do bolo da vitória, ela repartira com esta, as alfaias, as baixelas, as terras, os navios, tudo o que se apanhara aos vencidos. Ora no imperialismo vencedor estava a Itália; mas o insular nunca ligou importância ao peninsular.
Contentámo-nos com o coqueiro de Kionga... Mas a Itália teve, como recompensa do sacrifício, a vaga comunista. E reagiu. Quando um povo reage, e encontra o génio animador e dirigente — a coisa é séria. O insular não acreditou.
A Itália reagiu; a Europa Central reagiu. Os Povos não se batem por ideias: batem-se por sentimentos — e são as guerras religiosas ou as Cruzadas, ou batem-se por interesses, e são as guerras de todos os tempos. Hoje, a época de fé enfraquecida, não há guerras de religião.
A reacção da Europa Central e da Itália despertou todos os interesses vitais da Germânia e da Península.
Em horas de crise e de luta — não há palavreado. Daí, o anti-parlamentarismo da Europa Central e da Itália. Não se trata duma questão de doutrina; trata-se duma necessidade imperiosa.
Alfredo Pimenta
(In A Voz, n.º 4365, págs. 1/4, 23.04.1939)
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