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sexta-feira, novembro 04, 2005

PALAVRAS INSUSPEITAS 

São do sr. Spaak, presidente do Conselho do governo belga, homem bem insuspeito para ti, homem da rua que dormes, de barrete frígio enterrado na cabeça, e sonhas, todas as noites, e deliras, todos os dias, com ela... aquela... a outra... a tal... a que nós sabemos.
Vou pôr essas palavras diante de ti, homem da rua, no original, e, depois, vou traduzir-tas, porque bem pode ser que não andes muito ligeiro no francês:
Aqui as tens — como se lêem na Revue de Paris:
«De républicain, me voilà devenu royaliste. Et, croyez-moi, l`on peut être royaliste sans cesser d`être socialiste. Depuis trois ans, j`ai appris à connaître la royauté et le roi: un homme qui, trente années durant, a été formé à son métier par son père et par les meilleurs têtes du pays, qui a les qualités nécessaires pour dominer la situation et pour ne pas s`égarer dans les contingences quotidiennes du gouvernement parlementaire. Léopold III est vraiment le représentant, le defenseur des intêrets permanents de la nation. Et s`il n`excède jamais ses droits constitutionnels, au moins sait-il en user dans toute son étendue. Ainsi, chaque fois qu`il a manifesté sa volonté pour briser des considérations partisanes, il a eu raison».
Não percebeste muito bem, homem da rua?
Espera: eu traduzo:
«De republicano, fiz-me monárquico. E, creia-o, podemos ser monárquicos, sem deixarmos de ser socialistas.
Há três anos que aprendo a conhecer a Realeza e o Rei: um homem que durante trinta anos foi educado para o seu cargo por seu pai e pelas melhores inteligências do seu país, que tem as qualidades necessárias para dominar a situação, e para não se perder nas contingências quotidianas do governo parlamentar, Leopoldo III é o verdadeiro representante, o defensor dos interesses permanentes da Nação. E se nunca transpõe os seus direitos constitucionais, sabe, pelo menos, usar deles em toda a sua extensão.
Na verdade, cada vez que manifestou a sua vontade de quebrar considerações partidárias, teve razão».
Leste, oh ingénuo homem da rua?
O sr. Spaak era republicano, como tantos outros têm sido, neste último século desvairado e confuso. Republicano e socialista.
Como republicano, ele desejava para a Bélgica o regime electivo, porque supunha que assim daria ao seu País a felicidade; como socialista, ele aspirava a elaborar reformas sobre reformas que satisfizessem as justas aspirações da classe obreira.
Um dia, o Rei deu-lhe o poder. Foi há três anos. Há três anos que o sr. Spaak estuda a Realeza e o Rei. E três anos de estudo levaram-no a esta transformação fundamental e eloquente: deixou de ser republicano, e é monárquico.
Continua socialista? Mas porque não — se o seu socialismo se confina dentro dos limites das reformas sociais?
Antes da guerra, a Alemanha imperial do Kaiser era a Monarquia mais socialista do mundo!
A repulsa que eu tive por esses mistificadores que bramavam contra a Alemanha, em nome da Civilização e da Justiça, do Direito e do Bem dos Povos!
Pois o sr. Spaak continua a ser socialista e é monárquico.
Que foi que fez varrer do seu espírito a superstição republicana?
Ele o diz: o homem que durante trinta anos foi educado pelo Pai, para o cargo da Realeza, homem que é, na verdade, o defensor dos interesses permanentes da Nação!
Há quem seja levado para a Realeza, pela inteligência esclarecida, pelas realidades passadas e presentes.
No campo da metafísica pura, das Nuvens, a inteligência ainda pode hesitar, arrastada por preconceitos ou sofismas.
No campo das realidades experimentais, encarada a vida dos Povos, dos agregados sociais — sejam naturais como a Família, sejam convencionais como as corporações — não há inteligência autónoma que não fuja horrorizada do regime electivo, e não reconheça a superioridade necessária da Realeza hereditária — da Monarquia que se transmite sem sobressaltos, consultas, agitação e subversão de valores.
Há, de facto, nos Povos, interesses permanentes e interesses transitórios, ocasionais.
O regime electivo pode defender os interesses do momento. Como há-de ele defender os interesses permanentes, os interesses eternos, se, por definição, passa constantemente, levado na crista das vagas da opinião?
Ele que passa, como há-de defender o que fica?
Ele que chegou hoje, como há-de defender o que era ontem?
Ele, que vai embora amanhã, como há-de defender o que passa para além de amanhã?
O regime electivo é o regime dos ambiciosos, dos que também querem ser. A Realeza é o regime do Dever. O Rei menos Rei sabe, desde o berço, que tem uma obrigação a cumprir: estar à frente da Nação, a conduzi-la e a defendê-la. E desde o berço que aprende esse dever sagrado. Tudo o mais que lhe ensinam é secundário, ou instrumento do essencial.
Os inimigos da Realeza falam de Acaso...
O argumento, se sincero, é imbecil.
Acaso? Pois quando é que há mais Acaso — do que nas contingências duma eleição? Pois quando é que há menos Acaso do que na lenta e sistemática preparação dum Rei?
Que cargo no mundo pode apresentar preparação tão longa, que vem desde o berço, como esse da Realeza?
A inteligência autónoma pensa tudo isto, verifica tudo isto, e conclui.
Há quem seja levado para a Realeza pelo contacto com as pessoas reais. É o caso do sr. Spaak.
Ele viu que o que lhe diziam e lhe tinham ensinado não era nada do que na verdade era.
E a estudar três anos a Realeza e o Rei, expulsou do seu espírito a superstição republicana, e de republicano que era, fez-se o monárquico que é, e tão inteligentemente e tão conscienciosamente, que proferiu as palavras que te traduzi, oh homem da rua, para que as medites, para que as absorvas, e para que te decidas.
Sim, para que te decidas. Se amas a tua pátria, como creio que amas; se lhe conheces o Passado de glórias, e desejas que ele se reproduza dentro do condicionalismo do tempo, no futuro, tens de pensar como o sr. Spaak, porque o Passado de glórias de Portugal só foi possível por mercê do defensor dos interesses permanentes, e o seu Futuro só poderá ser a projecção desse Passado, se tiver a animá-lo, a defendê-lo, e a assegurá-lo aquele que desde o berço é educado para isso, aquele cuja missão, nesta vida, consiste no dever de ser totalmente da Pátria.
Alfredo Pimenta
(In «A Voz», n.º 4238, págs. 1/2, de 12.12.1938)

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