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terça-feira, dezembro 21, 2004

A ACTUALIDADE DE SALAZAR  

Há alguns anos, uma editorial brasileira decidiu juntar no mesmo volume de ensaios os estudos de grandes mestres do pensamento político para deslindarem de vez a nebulosa questão do progressismo e do conservantismo. A urgência da clarificação doutrinal justificava-se na altura para acudir à desorientação que lavrava no seio do próprio Catolicismo, batido pelos falsificadores doutrinais do Concílio Vaticano II e pela acção corrosiva dos marxistas instalados nos grandes meios de comunicação.
A esquerda teve sempre a preocupação maléfica de envenenar o discurso, de corromper as palavras, de confundir os conceitos para depois nessa paisagem alastrada de ruínas erguer o seu verbo prostituído.
A breve trecho, o público de boa fé já abundava na excomunhão do conservantismo, tomado como expressão de uma direita retrógrada, fascista, opressora, inimiga do progresso humano, aliada do capitalismo selvagem e da conspiração contra as conquistas sociais.
Convém assinalar que a esquerda, professando o programa de que a mentira muito repetida se transforma em verdade, começa por ser ela própria a vítima da repetição. Alguns dos brilhantes ornamentos da Esquerda já mentem tão despudoradamente às plateias que abrem margem a tal suspeita de corrupção da vontade e da mente. Aliás, a história do comunismo anda cheia dessas proezas do ridículo, desses novos cavaleiros da triste figura. Ainda me lembro quando Cunhal garantiu a Letria, na TV, que o seu vencimento mensal orçava pelos 7.500$00! Joaquim Letria terá as convicções que tiver, mas, além de jornalista brilhante, possui a noção do ridículo e refuga de si a condição de receptáculo destes disparates. E fez o que lhe cumpria: deixou Cunhal a gaguejar.
Mas não seria caso único. O embaixador soviético, no tempo em que já se amanhava politicamente este rectângulo europeu como uma republiqueta popular democrática, tudo de parceria com o MFA, subiu à tribuna televisiva e garantiu aos portugueses que a U.R.S.S. fora surpreendida com uma iniciativa dos trabalhadores, em massa, exigindo do governo soviético a subida do preço dos combustíveis!
Perante o olhar atónito dos entrevistadores de serviço, o diplomata tentou justificar o embuste alegando que a consciência proletária possuía dessas virtudes heróicas da devoção ao partido e ao povo, esquecendo-se naturalmente de mencionar que o povo passava necessidades extremas e que as filas para a obtenção de rações de primeira necessidade — a necessidade da mera subsistência — povoavam aquelas imensidões de desgraça.
A mentira, quando se volve em sistema, traz consigo estes estranhos efeitos de opacidade mental.
E as sociedades insularizadas pela opressão e vigilância policial, perdem o sentido do equilíbrio e o segredo da concordância nas palavras e nos actos.
Voltemos então à questão inicial, a isso do conservantismo e progressismo. Tenho de cor a essência desses estudos, de Chesterton, de Carlos Lage, de Gustavo Corção e outros filósofos contemporâneos. Ali se desmascara a mentira esquerdista e se demonstra com clareza meridiana esta coisa surpreendente: só os conservadores são capazes de progresso porque os progressistas constituem, por intrínseca deformação e invencível pendor, os artistas da anarquia e do imobilismo.
Toda essa conclusão flui das seguintes premissas:
O motor da evolução social (não confundir com evolucionismo que é parente chegado da mentira progressista) assenta na ideia de reforma. Reforma postula a base inalterável do que está correcto para sobre ela se edificar a necessária inovação. O ilogismo chamado progressista provém dessa contradição: partir às cegas! O progressista, como lucidamente criticava o pensador inglês, exemplifica a irracionalidade do sistema: arranca do nada para o desconhecido; destrói tudo em nome da aventura das palavras.
Ora quando nestas colunas se fala em Salazar não é para lhe ressuscitar o governo nem para matar uma saudade irremediável. Salazar, se fosse vivo, ele próprio tomaria as opções políticas da hora que passa — mudando certamente sem se contradizer, reformando sem perder o fito histórico e a sua luminosa consciência de sábio.
Mas felizmente para todos (e abeiramo-nos do tempo das grandes conversões) Salazar, sem querer, deixou a única obra de filosofia política digna desse nome à escala mundial. Como refere Ploncard d`Assac, é obra de um filósofo que teve a poderosa intuição da perenidade do pensamento. Até de pequenas circunstâncias históricas (e o governante português tinha como ninguém o sentido da grandeza do Estado e a noção das proporções) Salazar deixou sempre o traslado das frases que não envelhecem e o segredo das soluções que desafiam o tempo.
O seu conceito de democracia orgânica abisma no vazio e na inutilidade prática esta partidocracia que se perde em discussões estéreis, em erros condenados pela História, e em guerras que consomem inutilmente as energias da nação.
Decerto que o corporativismo não era perfeito e não resultou em toda a linha nem pôde ser aplicado na totalidade da lógica do seu sistema. O Portugal que foi entregue a Salazar para o arrancar à descrença, ao conformismo e desordem mortal, era um mosaico de traições à História, uma satânica renegação do seu destino. Não dispondo de outro apoio senão o do seu génio de governante e o da sua integridade e autoridade moral, Salazar teve de parar algumas vezes no trajecto histórico diante dos abencerragens dos erros passados. Com razão se diz que a sua tarefa espantosa de manter Portugal neutro durante a Guerra foi mais difícil em relação aos seus inimigos de dentro do que relativamente aos beligerantes. Nomeadamente, o embaixador em Londres, conspirando junto do Govemo britânico, deu mais trabalho e dores de cabeça a Salazar do que as vicissitudes do conflito e as flutuações da sorte da guerra.
Ora os discursos do político português oferecem hoje a mais fecunda e admirável lição. E também a mais actual. Neles se reflecte a essência do pensamento das encíclicas para a questão social, a construção de uma cidade em que os homens hão-de conviver na paz e no equilíbrio, o valor imprescindível da autoridade para garantia da liberdade, as constantes do nosso destino eterno como inspiração das instituições basilares da sociedade.
A tudo isto, que nos surge vasado em trechos de antologia, juntou Salazar a previsão dos acontecimentos, de modo que se pode sustentar que foi, em vida e em sentido vulgar, o único profeta dos estranhos caminhos do Homem neste século e nos mais próximos vindouros.
Último grande europeu, no sentido civilizacional, combateu até ao último sopro de vida as ideologias que precipitaram a Europa no negativismo mais torpe e no mais cruel despotismo de que há memória. Os acontecimentos viriam a dar-lhe, contra a expectativa dos seus adversários e a generalidade dos contemporâneos enlouquecidos por ideologias condenadas e mitos passageiros, aquilo que imortaliza um ser humano: a plena razão dos seus juizos sobre o futuro.
A Direita reivindica em exclusivo essa honra de ter razão. E de ser o caminho da restituição do sentido divino da História. Salazar deixou-lhe a mais lídima e fecunda das heranças — a de um progresso verdadeiro, baseado na ideia de reforma que só os verdadeiros conservadores possuem.
Silva Resende
(In O Dia, 14.05.1994)

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