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quarta-feira, novembro 30, 2005

A Portuguesa 

Aproveitando a data festiva, ofereço o poema de Henrique Lopes de Mendonça que constitui hoje Hino Nacional de Portugal. A música é de Alfredo Keil, e a versão oficial do Hino reduz-se às duas primeiras estrofes do poema, que estão em itálico.

Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitoria!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!


Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu!
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

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Dia Primeiro de Dezembro 

Que todos os portugueses assinalem como puderem o Dia da Restauração, afirmando a sua vontade de continuar Portugal, livre, soberano e independente.
Seja nas comemorações da SHIP, seja nos actos do PNR, da Causa Identitária, da Juventude Nacionalista, da Real Associação de Lisboa, é imperioso exteriorizar o nosso sentir e a nossa determinação em prol da Causa Nacional.
Que o dia 1º de Dezembro seja o momento de gritar bem alto o sonho de um país justo e fraterno, uma nação unida no seu destino colectivo, um povo de novo à aventura numa Pátria de novo criança.
Pelo dia da Restauração e da Juventude Nacionalista: Portugueses, celebremos o dia da redenção!

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Uma iniciativa a apoiar e aplaudir 

Recebi o texto de apresentação da "Edições Falcata", que me parece poder vir a preencher uma lacuna há muito sentida no movimento cultural de tendência nacional. O projecto, tal como é apresentado, tem para além de evidente interesse, muitas possibilidades de êxito - assim se mantenha fiel a esta linha de rumo inicial.
Um erro frequente nos empreendimentos nacionalistas consiste em querer ser tudo e fazer tudo ao mesmo tempo, do que resulta normalmente não se fazer nada bem feito - não se pode ser simultaneamente partido, associação política, forum, jornal, editora, agência de notícias, blogue, livraria ou website, tudo tarefas que exigem dedicação a tempo inteiro e não podem ser eficazmente exercidas pelas mesmas pessoas, que de manhã são uma coisa, à tarde outra e à noite ainda outra, falando ora numa qualidade ora noutra, sem que consigam afirmar-se em coisa nenhuma.
A especialização funcional, de acordo com as vocações e aptidões, é um elemento essencial do sucesso - e este é a medida indispensável para avaliar as diversas iniciativas. Que cada um faça o que sabe fazer, e todos contribuirão para o sucesso global. Se todos pretenderem fazer um pouco de tudo nunca se passará da fase do amadorismo e da improvisação.

APRESENTAÇÃO
1. A «Edições Falcata», apesar do nome, não é uma editora. Somos um colectivo nacionalista que tem por objectivo colocar à disposição do Militante pequenos cadernos de formação ideológica. Afinal de contas, a leitura também é um acto de militância, e bastante importante! Só uma robusta formação ideológica é garantia de perseverança e de impermeabilidade ao desânimo.
2. Como está bom de ver o nosso objectivo não é o lucro, mas sim a difusão das ideias nacionalistas. Alguns poderão perguntar-nos então o porquê de, nesta era da Internet, editar textos nacionalistas em papel. É inegável que com o advento da Internet o papel tende a tornar-se “obsoleto”, no entanto, a observação empírica e a nossa própria experiência pessoal demonstra-nos que a “atracção do papel” é ainda muito forte. Além de que Portugal é ainda um país em que a Internet está ao alcance de poucos, nacionalistas incluídos.
3. Procuraremos ser o mais abrangentes possível, disponibilizando textos representativos de todas as tendências nacionalistas. Estamos por isso abertos a quaisquer críticas e/ou sugestões. Serão também bem-vindos textos há muito fora de circulação, originais e traduções. A única limitação prende-se com a dimensão, já que pretendemos editar apenas pequenos textos que possam ser disponibilizados em formato de caderno (A5). Talvez no futuro esta limitação possa ser superada.
Edições Falcata

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terça-feira, novembro 29, 2005

Bilhete de boas vindas 

Caros visitantes que descobris este blogue ignorado e misterioso: ide e explorai os arquivos, pacientemente. Para a compreensão do fascismo em rede é preciso conhecer-lhe as raízes...
E, depois, com a riqueza e diversidade de conteúdos que aqui estão reunidos para vosso serviço... não vos acanheis: ide, até onde a vossa curiosidade vos levar, mergulhai até ao fundo neste mar desconhecido, até esse remoto mês de Fevereiro de 2004, quando daqui começou a irradiar esta luz que abrilhanta a blogosfera.
Sobretudo, não tenhais medo: há sempre um fascismo desconhecido que espera por nós. E fascismo nunca é demais.
Hoje não vou editar mais nada: deixo-vos a apreciar e a digerir as descobertas do fascismo em rede.

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De nada serve a internet sem o latim... 

Uma síntese genial no "Caminhos Errantes": "De nada serve a internet sem o latim..."
Quem haverá aí para compreender a profundidade da sentença?

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segunda-feira, novembro 28, 2005

Portugal é um jovem rebelde da nossa idade! 

"Je serais avec celui qui foutra en l'air ce régime"...
Bela frase de Drieu la Rochelle!
A ler no "Causa Nacional", o artigo "Portugal: da Revolução Alibi à Revolução Necessária".
Como é bom, ter vinte anos e sair por aí fora cantando o Hino da Restauração!
"Je serais avec celui qui foutra en l'air ce régime"...

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Movimento nacionalista 

Em altura de importantes mobilizações nacionalistas,que podem constituir a exteriorização de forças ou de fraquezas que normalmente não surgem à vista do público, parece que seria importante a activação de todos os meios disponíveis para alcançar os objectivos: dar a maior amplificação possível às iniciativas existentes.
Estão marcadas para o 1º de Dezembro duas importantes manifestações, em Lisboa, e no Porto.
Existem outras organizações em curso, a que importa aplicar uma máxima elementar: dar expressão política ao que existe. Partir do real, para chegar ao ideal.
Consequentemente, desde este blogue que faz o que pode, mas pode pouco (o seu raio de influência limita-se a um número reduzido de leitores que aqui vêm), estranho o silêncio e a apatia de tantos lugares da internet, nomeadamente tantos blogues, que surgiram sob a etiqueta de nacionalistas: porque estão em silêncio? Porque estão inactivos? Porque não contribuem para a divulgação e difusão das realizações nacionalistas? Porque deixam passar o Dia da Restauração sem uma referência, sem uma lembrança, sem uma evocação, sem um chamamento dos portugueses às suas responsabilidades históricas?
Podemos nós prescindir assim de todos os meios de informação e propaganda? Somos assim tão ricos no acesso à opinião pública, e tão implantados nos órgãos de comunicação social, que podemos dispensar este trabalho humilde de construção de uma rede de informação alternativa?
Onde estão os militantes que deram origem a umas largas dezenas de blogues com as cores nacionais, que neste momento não convergem para estabelecer uma larga corrente na internet para levar a toda a gente a voz da Pátria que se bate e debate pela sua sobrevivência?
Porque ficam tantos em silêncio, na hora em que se impunha gritar?

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domingo, novembro 27, 2005

«Pequeno Presépio de Poemas de Natal» 

Recordamos que a sessão de lançamento do livro «Pequeno Presépio de Poemas de Natal» de Rodrigo Emílio, terá lugar no Círculo Eça de Queiroz, sito no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 4, em Lisboa, quarta-feira dia 30 de Novembro, às 19 horas.
Para apresentar a recolha de poemas de Rodrigo Emílio estarão presentes, ao menos, António Manuel Couto Viana e José Campos e Sousa.
Haverá também um jantar para assinalar a data, devendo para o efeito de participar no mesmo contactar-se o Nova Frente.

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REGISTOS DE LEITURA D`UM ARISTOCRÍTICO 

«PARA UMA GENEALOGIA CULTURAL DE BASE NACIONAL-UNIVERSALISTA»
(Guião geral, muito sumário)
Tópicos e subsídios de formação e orientamento, propostos a destino.

Entre os vultos do pensamento indígena que mais fundo — e a fundo — me marcaram, importa pôr aqui de manifesto os forjadores daquele espírito nacional-universalista que inflamou, durante séculos, Portugal, e O tangeu e espraiou por meio-mundo e outro meio.
Foi à luz vivificante desse espírito, e gracinhas a ele, que todos nós por largo tempo nos persignámos — em nome do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste —, assim na terra como no mar.
Aos grandes dispensadores e intérpretes desse espírito, não fiquei eu, realmente, a dever pouco: assim com`assim, bastará talvez dizer que me ensinaram eles a sentir em português o que não é de sentir senão em português, e a pensar em português o que só em português pode e deve ser pensado.
Inscrevem-se nesse número e estão nesse caso: o Gil Vicente da «Exortação da Guerra» e o Camões d`«Os Lusíadas»; os escritos quinto-imperiais do Padre António Vieira; o José Agostinho de Macedo de «A Besta Esfolada», e nem só...; toda — mas toda! — a teoria legitimista declarada a público por meu primo-avô Ribeiro Saraiva; as páginas miguelistas de Camilo e anti-pombalinas páginas do mesmíssimo Camilo; o António Sardinha de «Valor da Raça», «Durante a Fogueira», «A Prol do Comum» e «Na Feira dos Mitos»; o Afonso Lopes Vieira da «Nova Demanda do Graal» e não só...; o Carlos Malheiro Dias da «Exortação à Mocidade»; muita da doutrinação contra-revolucionária de Fernando Pessoa; os pensamentos, palavras e obras produzidos por Salazar depois de ser Poder; as Cartas Pastorais de Cerejeira; todo o soberbo magistério político e ideológico que foi desenvolvido por Alfredo Pimenta nos últimos doze, treze anos de vida (das páginas d`«A Esfera» e d`«A Nação Portuguesa» aos derradeiros opúsculos, diatribes e libelos); o Miguel Torga dos «Poemas Ibéricos»; a poesia toda e toda (ou quase toda) a prosa de Goulart Nogueira; o «Destino do Nacionalismo Português», de António José de Brito, e os seus «Diálogos de Anti-Democrática», o Carlos Eduardo de Soveral de «Lanças n`África», e nem só...; a obra poética integral de António Manuel Couto Viana; e o etc;... da praxe (mais magro, porém, do que é costume).
Mas outros grandes guias tenho eu tido em meu caminho, e que não só me saíram ao comum, como até, inclusive, o talharam, de forma a eu poder romper por a eito e a direito e nunca em ziguezague.
Estou-me referindo, obviamente, aos grandes forjadores espirituais de uma Europa que tende, desde sempre, a evocar, em mim, a imagem de uma rapariga moderna... muito antiga.
Schopenhauer e a visão do mundo como representação da vontade; toda a predicação nietzscheana, e também a de Spengler, e também a de Keyserling; as Reflexões sobre a Violência, de Georges Sorel, o realismo integral de Charles Maurras, o germanoromantismo de Maurice Barrès, as formulações de Gentile sobre a eticidade do Estado, as de Martin Heidegger sobre «a mansão do Ser», a estética raciológica de Gobineau e de A. Rosenberg (assim como as de Günther, Clauss, Darré, Céline, Binet e Henri-Robert Petit), o pensamento aristocrático de grandes isolados como Evola e Montherlant, a teologia política de Carl Schmitt, o esoterismo tântrico-mágico de Miguel Serrano: eis os ídolos e ideais que mais poderosa influência exerceram sobre mim.
A lista, porém, só não ficará incompleta demais, se nela também figurarem: os tradicionalistas de todos os tempos e lugares (já Vásquez de Mella lá dizia que «Tudo o que não é tradição é plágio»); os futuristas e corporativistas portugueses, italianos e espanhóis; os nacionais-sindicalistas espanhóis e portugueses; todo o fascismo e esteticismo intelectual britânico; o legado literário em peso e o vivo exemplarismo de toda a geração colaboracionista francesa; aquela grande raça de polemistas e predicadores sagrados (Bloy, Bernanos, Chesterton, Papini e o Gustavo Corção d`«O Século do Nada») que sempre e também souberam destrinçar, e distinguir, à légua, Cristianismo de cristianice, e às vezes se incompatibilizaram e se puseram de mal com o mais efémero da Igreja Temporal por amor de Deus e da Igreja eterna, quando não apontaram mesmo — alguns deles, ao menos — para certas formas de catolicismo anti-clerical ou de anti-clericalismo católico, digamos assim, orientando-se e de preferência os outros para um catolicismo não-catolaico e não-profano — isto é: para uma catolicidade propriamente dita e, como tal, nunca por nunca dessacralizada ou desierarquizada —, de altíssima voltagem e de radiosa estirpe; e ainda aqueles, enfim, que, como Santa Catarina de Siena, ou como Mishima e León Degrelle, não se têm limitado a escrever com tinta, mas também com o sangue — e, sobretudo, com o exemplo.
Acolhi-me, assim, à tutela dos que em si realizaram o sincretismo supremo da tinta e do sangue.
Recebi preceptorado criador e acatei eu, em suma, o mestrado espiritual daqueles que se soergueram, «em nevoeiro e em mito», aos acenos de Deus e às audições da Pátria. Foram-me confrades, particularmente caros e dilectos, todos os grandes isolados das Letras. Todos os crucificados da escrita, esses que reclinados viveram, a seus umbrais cantando toadas de Amor e Morte com palavras da infância...
De uma ou de outra forma, todos, afinal, se chegaram a mim para me ministrarem mensagens de energia sob enchentes de sonho; e para me dizerem: que «não se entra no heroísmo como se entra para a Escola Militar»; que «não se alcança a santidade como se alcança o seminário»; que «não se reza a Deus Nosso Senhor nos mesmos termos em que se arenga às turbas», e que a Europa que convém aos Estados Unidos não nos convém, como não nos convém a Europa que convém, que convinha e que continua a convir à ex-chamada União Soviética.
Rodrigo Emílio
(In Diário do Minho, 23.11.1994)

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sábado, novembro 26, 2005

«O HARA-KIRI DO SILÊNCIO» 

Não, senhor Mishima! O senhor não nos interessa; o senhor pertence a um universo desconhecido, a uma longínqua galáxia onde os homens ainda se recusam a aprender a grande lição da sociedade de consumo: mete-te na tua carapaça, ocupa-te do teu estômago, refocila em tudo o que se possa comprar e vender, em tudo quanto possas apetecer graças ao crédito e às vantagens de que dispões. E aprende... e aprende tu, que és escritor, com esse Curzio Malaparte, torna-te cínico como ele e faz sorrir as gentes com o relato de como as mulheres do teu povo foram desfloradas pelo invasor ao ponto de uma donzela virgem se ter convertido num espectáculo digno de larachas.
É este o paradigma das redacções do jornais que, em todo o mundo, falam o patuá de Moloch: esta, a razão pelo qual o gesto do escritor japonês, duas vezes candidato ao Nobel de Literatura, personalidade tida como fulgurante nos géneros da narrativa, do conto e da novela, mereceu tão escassa atenção dos chamados meios de comunicação social que, a ritmo crescente, e de acordo com os avanços da técnica, se converteu, cada vez mais, em meios de opressão entre os homens e de incomunicabilidade entre as comunidades.
A história do escritor que aureolado pela fama internacional, best-seller no seu país e nos Estados Unidos, um belo dia decidiu praticar o hara-kiri em presença de um general que esqueceu deveres, poderá parecer um acto de fanatismo se não for esclarecido desde a origem. É o que vamos tratar de fazer, a fim de não termos de passar pela vergonha colectiva de ignorar uma vida consagrada toda ela ao amor da Pátria e do povo. Esta, como se vai ver, é também a história que se opõe à materialização dos espíritos, de um rebelde com causa, que não precisou de deixar crescer as guedelhas, não se deixou devorar pelo esterco, nem tão pouco agitou bandeiras demagógicas para chamar a atenção sobre a sua doutrina e a sua filosofia, de resto bem simples: acima do povo, a Pátria; acima da Pátria só a sombra de Deus.
«Há uma coisa que não entendo - que os nossos militares confundam a ideia do Japão com a do Imperador e que nunca tenham considerado a eventualidade de não haver Pátria possível desde que a ela se subtraiam os seus filhos. É isto, justamente, o que ocorre no Japão actual: existe uma grande insensibilidade, uma extraordinária incapacidade nacional para ver que deixámos de ser um povo soberano, com uma cultura várias vezes milenária, e nos convertemos em mais uma colónia do imperialismo norte-americano, da sua pastilha elástica e das grandes marcas das suas indústrias internacionais. A chuva de dólares que, por outro lado, cai do lombo do povo trabalhador, alienou a tradição da honra nacional.»
Isto se transcreve de um artigo de Mishima. O escritor iniciou a sua actividade de jornalista imediatamente depois da guerra. Para o povo japonês, esta terminou, como se sabe, com os holocaustos de Hiroshima e Nagasaki ao deus da civilização democrática.
Vinte anos antes, Yukio nascia num dos bairros elegantes de Tóquio. Seu pai, vinculado ao partido de Tojo, veio a ser subsecretário-geral do Ministério da Agricultura e sua mãe, pertencente à aristocracia, era uma das damas de companhia da Imperatriz. Completavam a família dois irmãos: o mais velho viria a ser membro destacado da diplomacia nipónica; a irmã morre aos dezassete anos.
A infância de Mishima foi bastante triste. Ele mesmo o confessa: «Meu pai era quase um desconhecido que eu via apenas nas festas tradicionais, quando o clã familiar se reunia. Sendo a minha família constituída por umas quatrocentas pessoas, mal me dedicava a sua atenção. Quanto a minha mãe, o seu carinho era exagerado, ao ponto de ficar em cuidado quando eu saía com amigos, tanto em criança como mais tarde, já mocetão».
O facto de Yukio não mostrar apego de maior pelo estudo levou o pai a colocá-lo em lugar subalterno do Ministério da Agricultura. Queria que ele fosse engenheiro, embora a vocação de Mishima tendesse mais para as Belas Artes e para a Literatura.
Quando aluno do Instituto Sakhumiu, aí por volta dos treze anos, Yukio, que se refugiava nas letras para furtar-se à pressão paterna e à asfixia que lhe causava o ambiente do lar destruído à míngua de amor, escreve a sua primeira novela, uma novela que nunca teve título e que narrava a bela história de um condenado, evadido da prisão, que na fuga encontrou um garoto que lhe oferece flores. O condenado, apesar da pressa que levava, uma vez que era perseguido pela polícia, esquece-se de tudo e vai de passeio com o seu amiguinho. Este acaba por convidá-lo a ir comer a sua casa, onde chegam depois de várias peripécias. O pai do garotito, inteirado de que o homem é um trânsfuga da justiça nega-lhe hospitalidade. O evadido então retira-se, mas, à guisa de recordação daquele dia, leva com ele o ramo de flores. Dois anos mais tarde, em 1940, escreve a sua segunda obra. Desta vez, com título: O Bosque Florido. No entanto, a sua vasta produção inicia-se, de facto, imediatamente após a guerra. Trabalha então num vespertino, o que lhe permite escrever durante a noite. Com paixão de artista, deveras sensível à situação política e social do país, que sofre na altura a presença ultrajante das tropas norte-americanas e os abusos de toda a ordem cometidos por elas, entrega-se devotadamente à criação literária, erguendo verdadeiros tipos populares, arrancados ao meio ambiente nipónico de então. Idealiza uma espécie de episódios nacionais (à maneira de Benito Pérez Galdós) série encetada com A Pequena de Ouro — seu primeiro best-seller — e prosseguida com Sabor de Glória nas livrarias, forçando os editores a sucessivas edições. Este livro atinge a consciência do povo japonês e, com o tempo, converter-se-á num dos breviários mais caros aos militantes do movimento nacionalista, que com ele argumentam, reivindicando a retirada das tropas dos Estados Uniddos.
A popularidade de Mishima cresce continuamente. No Japão lê-se muito e o ramo editorial é um grande negócio. Existe uma autêntica literatura de massas: os diários, revistas e outras publicações abundam nos quiosques e livrarias, a um preço acessível, encontrando sempre um público ávido de consumi-los. Os escritores são muitos, embora só dois deles sobressaíam com nitidez. Um, é o velho deus Kawabata, alcandorado a sumo sacerdote da literatura; os seus livros possuem larga audiência popular, alimentam espiritualmente o povo ao mesmo tempo que dele inspiradamente se nutrem, e o reflectem, em fresco prodigioso, multitudinário, do qual o novelista extrai como heróis e heroínas exemplares, os delicados personagens da sua pena.
Pouco antes da sua morte, cerca de uma semana antes, em entrevista dada ao italiano Giuseppe Grazzini, que quis saber qual a obra que Mishima estava preparando, responderá assim: «Creio que estou a ultimar a minha obra definitiva, aquela que maior trabalho me tem dado, mas a que realizei também com mais ilusões. Há cinco anos que lhe dei início e estou prestes a concluí-la. Compõe-se de cinco volumes e neles faço a narração de uma epopeia: a do meu povo e da minha Pátria através dos séculos. A história gira ao redor de uma família: os membros que a constituem morrem, mas as tradições continuam a ser incessantemente cultivadas através das gerações que sintetizam, no seu conjunto, o espírito permanecente da nação.»
Politicamente, Yukio Mishima reclamava o direito que assistia ao povo japonês de recuperar a sua soberania e de desfrutar da justiça social: era partidário da conservação das tradições, desde que estas não entorpecessem a adaptação do país à técnica industrial contemporânea, sem, contudo, jamais se sacrificar o homem a imperativos que não fossem os do humanismo social que defendia.
«A morte» — disse ele, em certa ocasião — «é uma espécie de castigo eterno, infligido à materializada sociedade ocidental que vive afastada da Natureza. Para nós não o é, de modo absoluto, uma vez que nos consideramos parte integrante da Natureza. Devido a isto, a morte, aos olhos do meu povo, é um prémio, algo assim como a transformação, a libertação da matéria. Morrer é partir, não desaparecer. Outrora, o mundo cristão, creio, tinha igual ou semelhante filosofia. E foi então que logrou consolidar-se. Pois bem: nós queremos recuperar plenamente esse estilo de vida e aplicá-lo a uma grande política nacional e popular. O contrário seria o mesmo que aceitar a hibernação indefinidamente da alma japonesa.»
No decurso de 1964, em consonância com esses altos ideais de vida, fundara ele a Associação do Escudo, movimento militarizado inspirado no ideário básico do escritor, e cujas linhas-de-força representavam um flagrante e vivo protesto contra a inoperância, a apatia do amorfo Exército Japonês, que, como se sabe, não é mais que uma polícia, mais destinada a reprimir o povo, do que uma milícia capaz de salvaguardar a Nação.
Símbolo da Associação , o Estado — Tate-no-kai, em japonês — é a espada do samurai, a arma daqueles guerreiros lendários cujo conceito de honra os obrigava aos maiores sacrifícios. Simplesmente, a espada do samurai — aquela que jamais podia embainhar-se sem glória —, não foi utilizada, através dos tempos, unicamente contra os inimigos do guerreiro. Muitas vezes, este a terá virado contra si próprio, apoiando-a contra o ventre. Cravando-a e revolvendo-a em si de alto a baixo, e rasgando, assim, diagonalmente a carne, o guerreiro consumava o hara-kiri, terrível ritual de suicídio que exige têmpera física e moral para ser executado. Foi isto mesmo o que sucedeu na manhã de 25 de Novembro de 1970, no Quartel-General da Guarda Japonesa, em Tóquio. Yukio Mishima, depois dos seus camaradas da Associação do Escudo terem tomado de assalto o Quartel e terem reduzido a refém o general Kanetoshi Mashita, falou aos soldado, reunidos por ordem sua no pátio central. Falou-lhes da dignidade do Povo, da necessidade de promover a justiça social e de recuperar a honra e a liberdade para a Pátria ocupada pelo vencedor.
Seguidamente, perante o chefe militar, com toda a serenidade, cravou a espada samurai em si próprio.
Acabava ali a vida de um intelectual de grande envergadura, de um artista que se serviu do seu nobre ofício de escritor para defender a Pátria; e que, podendo ter escolhido o caminho da comodidade e da riqueza, soube renunciar ao sensualismo da fama, pondo termo à sua exigência tal como a havia pregado: sacrificando-se pessoalmente, sem arriscar a vida de terceiros, com o único objectivo de chamar a atenção do mundo — e, em primeiro lugar, de todo o seu povo — para a situação do País em que nascera.
Só que o mundo não teve olhos nem ouvidos para Yukio Mishima, contra-figura, por excelência, desse Régis-Debray tão exaltado pela imprensa internacional.
Como ficou dito mais acima, a causa do escritor está muito desprestigiada neste nosso tempo. Morrer pela Pátria parece ter perdido todo o sentido na sociedade de consumo.
Conforta a esperança de que nem sempre seja assim...
Yukio Mishima: eis um homem cuja imolação não mereceu os costumados espaços que a grande imprensa internacional, e a outra, a internacionalista, tão generosamente consagram à exaltação do crime, da pornografia e do sexo. Yukio Mishima teve um grande gesto, um gesto por antonomásia, que chega para defini-lo como um homem íntegro, um homem da cabeça aos pés. Simplesmente, numa época em que se toleram tantas afrontas ao espírito da dignidade, da liberdade, da paz e da justiça: em tempos tão perversos e materialistas em que o homem se deixa converter em mercadoria, mais uma, no armazém dos demiurgos capazes de transformar o heroísmo em cobardia e o belo em fealdade — que importância tem, afinal, que um Homem se sacrifique por uma ideia tão antiquada como é a ideia da Pátria?
(In «Política», n.º 26, pág. 12, 31.01.1971)

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Un des “nôtres ” 

A Tokyo, il y a trente cinq ans, le 25 novembre 1970, vers midi, l'écrivain japonais Yukio Mishima, accompagné de membres de la milice nationaliste - la Tatenokai (La Société du bouclier) – qu’il avait créé et qu’il dirigeait, pénétrait dans le QG de l'armée de terre et prenait un général en otage.
Le lieu était symbolique de l’abaissement du Japon voulu par les USA. C’était, en effet, dans bâtiment qu'avait siégé le Tribunal militaire international de Tokyo, le “Nuremberg japonais”, qui jugea, en 1946, comme des “criminels de guerre” les chefs militaires nippons.
En se manifestant ici, Yukio Mishima voulait que le lieu de l’humiliation devint le lieu de la renaissance nationale.
A 45 ans, l’écrivain, de son vrai nom Kimitake Hiraoka, était au faîte de la gloire. Il était l'auteur japonais vivant le plus connu, dramaturge, essayiste, acteur et metteur en scène, etc., il avait été cité pour le Nobel de littérature. Le jour de son sacrifice ultime, il venait juste de finir "L'Ange de la décomposition", dernier volume de sa tétralogie "La Mer de la fertilité".
Engagé politiquement dans l’aile la plus radicale et la plus traditionaliste du nationalisme japonais, Yukio Mishima dénonçait la corruption spirituelle de son pays et son inféodation aux USA.
Barricadé dans un bureau du QG de l'armée de terre, Mishima apparut à la fenêtre de celui-ci et lança un appel aux soldats rassemblés à ses pieds. Il les exhorta à se soulever pour changer la Constitution pacifiste imposée par les Américains, afin de redonner au Japon une armée digne de ce nom et de lui permettre de retrouver sa grandeur.
Son discours fut accueilli par des huées et des cris de dérision. Yukio Mishima ne s’était pas fait beaucoup d’illusions, il connaissait l’état d’esprit d’un peuple abêti par près de vingt-cinq années d’occupation militaire et spirituelle. Mais, s’il ne croyait plus guère aux masses Mishima savait que, par un acte symbolique, il pouvait réveiller les meilleurs, susciter dans leur âme l’étincelle d’un refus du désordre établi qui ne s’éteindrait jamais.
Il se donna donc la mort selon la tradition des guerriers japonais en performant un seppuku. Son compagnon de combat Masakatsu Morita abrégea son agonie et toujours selon le strict rituel en le décapitant d’un coup de sabre, avant de s’éventrer à son tour...
C’était il y a trente cinq ans.
Sa mort spectaculaire fut considérée avec embarras et réprobation par les hommes politiques, les médias et l'opinion, sur fond de Guerre du Vietnam et d'agitation gauchiste, alors qu'on craignait une résurrection du militarisme nippon.
Maintenant, nous annonce une dépêche de l’AFP, Mishima est omniprésent, avec la sortie en DVD de son court-métrage "Patriotisme" (1966), récemment retrouvé, une adaptation à gros budget de "Neige de Printemps" par le cinéaste Isao Yukisada, un "documentaire requiem", la publication d'inédits de jeunesse et de sa dernière interview (jamais diffusée), et la plus importante exposition depuis sa mort.
"Ce qu'il a fait peut paraître absurde mais beaucoup de Japonais pensent qu'il avait raison et partagent avec lui l'idée que le Japon a oublié l’esprit de la nation", affirme Toshio Toyoda, directeur des éditions Kodansha.
Mais tout cela n’est qu’effet de mode, qu’engouement sans profondeur, le Japon a sans doute récupéré une partie de son indépendance, il est sans doute plus libre vis à vis des USA, mais il est toujours aussi “ moderne ”. Comme l’ estime Toshio Toyoda un ancien étudiant gauchiste, à l'époque dans "le camp exactement opposé à Mishima" : "Si je le dis à la manière de Mishima, les Japonais sont devenus prospères et riches mais leurs esprits sont profondément corrompus. Si Mishima voyait la situation actuelle du Japon, il ne changerait pas un mot de ce qu'il disait".
Alors, mort pour rien Yukio Mishima?
Non pas, car - tant au Japon qu’en Europe – il a bien suscité dans l’âme des nôtres l’étincelle du refus du monde moderne.
Que nous ne connaissions jamais la victoire politique compte peu, en définitive, par rapport à cette victoire éthique : nous n’avons pas renoncé, nous ne nous sommes pas couché, nous n’avons pas trahi…
L’exemple de Yukio Mishima nous a permis de rester debout parmi les ruines…
Christian Bouchet

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sexta-feira, novembro 25, 2005

Feliz cumpleaños Pinochet! 

Hoje dia 25 de Novembro de 2005 o Presidente Augusto Pinochet festeja os seus 90 anos de idade.
Por entre o ódio e a raiva do inimigo, a verdade permanece: Pinochet foi o responsável pela mais importante derrota infligida ao comunismo internacional após a Guerra Civil Espanhola. Desde 1939 até 1973 foram só vitórias: o comunismo espalhava-se pelo mundo, numa dinâmica imparável, e onde se implantou não mais tinha cedido um milímetro. Com os acontecimentos de 1973, deu-se início ao "roll-back": a partir daí, a expansão comunista na América do Sul ficou definitivamente derrotada.
Só posteriormente viria o descalabro noutros continentes, mas até lá muito sangue e sofrimento haveria ainda de passar, na Ásia, África e Europa, ainda surgiriam passageiros triunfos da besta, do Vietname a Angola, antes que o monstro fosse definitivamente relegado para as páginas da História.
Mas o sinal dado pela revolução chilena, o marco histórico erguido no Chile, veio a impor-se irreversivelmente como um passo decisivo na História da Humanidade.
Por tudo isto, obrigado Pinochet. Feliz cumpleaños Presidente!

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quinta-feira, novembro 24, 2005

Altermedia 

Para além da NOVOPRESS, também a ALTERMEDIA procura prestar serviço como agência noticiosa alternativa presente no dia a dia da rede.
São projectos importantíssimos, que é essencial desenvolver e aperfeiçoar.

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Revisionismo 

Alguns endereços importantes sobre o "revisionismo histórico":

Institute for Historical Review:
http://www.ihr.org/index.html
http://www.ihr.org/main/search.shtml
http://www.ihr.org/main/leaflets.shtml

-- AAARGH
http://vho.org/aaargh/fran/fran.html
http://vho.org/aaargh/fran/archFaur/archFaur.html

-- Arthur Butz
http://pubweb.northwestern.edu/%7eabutz/
http://pubweb.northwestern.edu/%7eabutz/di/context/context.html

-- Committee for Open Debate on the Holocaust
http://www.codoh.com/

-- Action Report (David Irving)
http://www.fpp.co.uk/
http://www.fpp.co.uk/online/

-- VHO
http://vho.org/
http://vho.org/index1.html

-- Air Photo Evidence
http://www.air-photo.com/index.php

-- Zundelsite
http://www.zundelsite.org/index.html

É para exploradores!!!

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BREVE HISTÓRIA DO REVISIONISMO DO "HOLOCAUSTO" 

A história do "revisionismo" na visão (parcelar e parcial) de Willis A. Carto:

Não sou o primeiro a apontar que qualquer pessoa que contempla a História até certo ponto revê tudo aquilo que aconteceu, ou o seu esforço seria inútil. Nos EUA, os quais baseio esta tese, o termo “revisionismo histórico” foi utilizado pela primeira vez para descrever o trabalho de historiadores que, depois da Primeira Guerra Mundial, refutavam a teoria de culpabilização da guerra na qual se delineava o Tratado de Versalhes, a propaganda vinda do tempo de guerra que apontava a Alemanha como a única culpada por aquela trágica e desnecessária guerra. Nesse esforço, o Dr. Harry Elmer Barnes foi o mais proeminente, apesar de não ter sido o único historiador envolvido na polémica. Portanto, nada mais natural do que o termo “revisionismo do Holocausto” vir a ser utilizado para descrever o processo que se iniciou logo depois da Segunda Guerra Mundial, um processo no qual o Dr. Barnes também esteve envolvido, se bem que desta vez de um modo mais discreto, pois os apologistas da falsa História no que toca “ao Holocausto” – nome pelo qual ficou conhecido o "conto da exterminação" – são muito mais fortes, mais bem organizados e abastecidos por vastas quantidades de dinheiro e dispostos a manchar os escritos e a reputação de todo aquele que seja tolo o suficiente para contradizer a tese extrema de que seis milhões de judeus foram gaseados ou de qualquer outro modo assassinados pelos nazis.
A educação deste vosso escriba no que toca à credibilidade da tese dos seis milhões iniciou-se quando me deparei com uma simples carta ao editor do jornal Our Sunday Visitor, na edição do dia 14 de Junho de 1959, escrita por Steven F.Pinter, que afirmava ter estado em Dachau durante 17 meses depois da guerra como advogado do governo dos EUA e afirmava que não existiam quaisquer câmaras de gás lá ou em qualquer outro campo de detenção na Alemanha. Esta simples carta, naturalmente, não conseguia contrapor as toneladas de notícias e livros sobre o Holocausto mas a partir dessa altura comecei a prestar atenção às evidências dos dois lados em vez de aceitar a tese exterminacionista sem qualquer criticismo.
Eu era um revisionista do Holocausto em potencial.
O primeiro escritor a refutar seriamente o Holocausto, exceptuando algumas críticas anteriores relativas aos julgamentos dos crimes de guerra em Nuremberg que só o mencionavam superficialmente, foi um francês extraordinário, Paul Rassinier, um socialista que tinha sido ele próprio um detido alemão durante o tempo de guerra, ou como lhes chamam, “sobrevivente de um campo de concentração”.
Os seus primeiros dois livro, Ultrapassando os Limites e As Mentiras de Ulisses, foram editados em francês em 1948 e em 1950, respectivamente (Editions Bresbanes, Paris), aos quais se seguiram muitos outros livros, sendo possivelmente os mais conhecidos O Verdadeiro Julgamento de Eichmann, The Incorrigible Vanquishers e O Drama dos Judeus Europeus.
Na Alemanha, o Dr. Franz J. Scheidl começou logo em 1945 a escrever uma obra sobre A História da Difamação da Alemanha que consistia de oito volumes, quatro dos quais dedicados ao “Holocausto” e a outra propaganda da II GM. O manuscrito foi completado em 1950, mas nenhum editor se atreveu a tocar-lhe, o autor publicou ele próprio uma edição revista tão só em 1967.
Entretanto, na Califórnia, professor de História durante algum tempo, o Dr. David L. Hoggan, estava a trabalhar naquele que se tornou no primeiro livro em inglês sobre o mesmo tema. Aparentemente, começou o seu labor em 1960 e por volta de 1968 enviou cópias do manuscrito a amigos e a outras pessoas que sabia poderem estar interessadas. Quantas cópias ao todo enviou desconhece-se, mas sabe-se que enviou cópias a Barnes, a Ralph Townsend de Springfield na Virgínia, ao Prof. James J. Martin de Colorado Springs e a Tom Serpico, editor do uma miscelânea de livros católicos e de História em Hawthorne, Califórnia. Este manuscrito, uma recolha das inconsistências do conto do Holocausto, foi escrito anonimamente, apesar de se presumir que muitas das pessoas que o receberam conheciam a identidade do autor. Depois de ler o manuscrito, Tom – que não conhecia o autor – entregou-me a sua cópia. Presumi – apesar de incorrectamente – que o autor provavelmente era Barnes, que na altura ainda não conhecia pessoalmente.
Perguntei a Tom se ia editar o manuscrito e fiquei a saber que não o ia fazer.
Sendo o proprietário de uma pequena casa editora, The Noontide Press, publiquei o manuscrito imediatamente em 1969, apontando o autor como Anónimo e escrevendo um pequeno prefácio sob o pseudónimo de E. L. Anderson.
A esta edição adicionei quatro artigos curtos que haviam surgido na revista The American Mercury, editada na altura por mim. Um dos artigos era do Dr. Austin J. App, tinha por título “Aqueles Ilusórios Seis Milhões”, que tinha sido editado na edição de Verão da Mercury em 1966. O volume consistia de 104 páginas do manuscrito de Hoggan, o prefácio de quatro páginas e 13 páginas com os artigos da Mercury, entre os quais se incluía o artigo seminal do Dr. App. Fiquei verdadeiramente surpreendido ao saber, pouco depois da publicação da primeira edição de 2.500 cópias do livro, que o verdadeiro autor do livro era David Hoggan.
Em 1972 na Inglaterra, Richard Verral, sob o pseudónimo de Richard Harwood, trouxe-nos a primeira edição do "Morreram Realmente Seis Milhões"? As edições posteriores surgiram com o título Seis Milhões Perdidos e Encontrados. Em grande parte uma reedição do "O Mitos dos Seis Milhões" da Noontide num formato 8.5 x 11 com ilustrações, com alguns acrescentos e alterações gramaticais por Verral, muitos milhares de cópias desta “nova” edição do livro da Noontide circularam desde então (entre as quais se inclui uma edição em formato de jornal) e o mesmo foi traduzido em várias línguas. Em 1974 Thies Christophersen edita em alemão o seu testemunho pessoal de Auschwitz com o título "A Mentira de Auschwitz". Em 1974 foi também editado em inglês e tornou-se num dos documentos mais amplamente distribuídos sobre esta temática.
Em 1975, Earl W. Thomas, de Silver Spring, Maryland, pediu a Barnes traduzisse "O Drama dos Judeus Europeus de Rassinier", adicionou-lhe um prefácio de Michael Hardesty e publicou-o pelas Steppingstones Publications. Posteriormente em 1978, com a benção da viúva de Rassinier e com o selo da The Noontide Press, publiquei uma edição de luxo em capa dura com uma compilação das várias obras de Rassinier sob o título, Debunking the Genocide Myth – A Study of the Nazi Concentration Camps and the Alleged Extermination of European Jewry.(Refutando o Mito do Genocídio – Um Estudo dos Campos de Concentração Nazis e a Pretensa Exterminação da Judiaria Europeia).
Em 1976, surge em Inglaterra a primeira edição do livro de Arthur R. Butz "A Burla do Século Vinte". Em 1978, publiquei a primeira edição americana desta ampla obra, indexada, de 315 páginas, fortemente documentada, pela The Noontide Press. Posteriormente, depois de fundar o Instituto para o Revisionismo Histórico (IHR), o IHR tomou conta da publicação do livro de Butz. O livro já passou por dez reedições.
Em 1979, o juiz alemão, Dr. Wilhelm Staglich, publicou o seu livro O Mito de Auschwitz, no qual analisa criticamente as provas do “Holocausto”, em grande parte como foi apresentado no decorrer do julgamento de Auschwitz em Frankfurt entre 1963-1965. Este livro de uma qualidade catedrática superior causou um enorme furor na Alemanha, originando na sua confiscação e destruição, a remoção do título de Prof. Dr. De Staglich pela outrora respeitável Universidade de Gottingen, e à criação de uma lei alemã que criminalizou o revisionismo do Holocausto.
O ano de 1979 foi um ano significativo para o revisionismo do Holocausto em geral com o financiamento da Primeira Conferência Revisionista Internacional em Los Angeles, a fundação do IHR e a preparação do primeiro número do The Journal of Historical Review (que data da Primavera de 1980) e o envio do mesmo para os assinantes da Mercury, a publicação da qual suspendi para dar lugar à nova publicação. O primeiro número do Journal foi dedicado à edição de textos empregues na conferência de 1979 por Udo Voigt, Dr. Austin J. App, Louis Fitzgibbon, Dr. Arthur Butz e o Prof. Robert Faurisson.
Entre essa edição da revista sazonal Journal e o Inverno de 1992 foram editados 43 outros números. Foi necessário publicar um único número que reunia as edições do Verão, Outono e Inverno de 1984, devido ao bombardeamento incendiário e a completa destruição do IHR por incendiários no dia 4 de Julho de 1984.
Perderam-se livros num montante mínimo de $400.000 dólares, o nosso inventário de livros e revistas, todas as bases de dados e documentos internos, entre os quais os manuscritos dos livros, todo o equipamento e toda a mobília foram inutilizados.
Passado este contratempo, tornou-se problemática a manutenção do IHR. Contudo, a minha esposa, Elisabeth, e eu decidimos tentar uma nova encarnação do mesmo. Em 1987 foi necessário um ano sabático para o Journal por falta de fundos mas a publicação foi retomada em 1988 e devido a uma crescente aceitação pública da revisão do Holocausto o IHR teve mesmo mais sucesso que anteriormente – pelo menos até ao dia 15 de Abril de 1993, quando uma vez mais o IHR foi vítima de mais uma jogatina. Sob ameaça de uma arma de fogo, eu e a Elisabeth fomos obrigados a abandonar os nossos escritórios por um funcionário do IHR contratado há menos de um ano.
Desde o período da sua fundação até 1993, além dos 45 números do Journal, o IHR lançou os seguintes livros sobre o Holocausto:
1979, Anne Frank’s Diary a Hoax (O Diário de Anne Frank é uma Burla), Ditlieb Felderer;
1983, The Dissolution of Eastern European Jewry (A Dissolução da Judiaria da Europa de Leste), Walter Sanning (Wilhelm Niedereiter)
1986, The Auschwitz Myth (O Mito de Auschwitz), Judge Wilhelm Staglich;
1987, No Time for Silence (Não há Tempo Para o Silêncio), Dr. Austin J. App;
1989, The Confessions of Kurt Gerstein (As Confissões de Kurt Gerstein), Henri Roques;
Bem como muitos outros livros sobre outros aspectos do revisionismo histórico, a propaganda de guerra e a promoção da paz.
Desde Setembro de 1994, o principal periódico em língua inglesa dedicado ao revisionismo histórico é a revista The Barnes Review (TBR), uma revista bimestral de 72 páginas da qual sou o editor. Além do revisionismo do Holocausto, a TBR leva a cabo a tradição americana do revisionismo histórico baseado em factos que surgiram após a I Guerra Mundial ao qual modestamente adiciona a revisão de todas as questões históricas desde o período da pré-história ao mais contemporâneo.

Willis A. Carto.

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quarta-feira, novembro 23, 2005

Uma Pátria a descobrir 

Há sempre mais Portugal desconhecido à nossa espera: ACR veio maravilhado de Boticas.
E vós outros, já conheceis Boticas?

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CAMÕES E EMINESCU 

Segue-se o artigo publicado por Mircea Eliade no semanário «Acção» de 3-IX-1942, quando da sua permanência em Portugal.

Quero começar por determinar a finalidade deste artigo, que não é trabalho de história literária comparada e em que não vou rebuscar as eventuais influências literárias que se poderiam encontrar na obra do grande escritor romeno Mihai Eminescu. Aproximando os nomes de dois dos maiores poetas da Latinidade, penso sobretudo na contribuição que cada um deles trouxe ao enriquecimento do génio latino.
É por vezes embaraçoso falar do «génio latino». Com efeito, como todas as expressões análogas, esta é apenas aproximativa, dada a amplidão das realidades que tenta condensar numa fórmula sintética. (…)
Pensou-se que esta designação «génio latino» era excessivamente vaga, porque se refere a realidades bastante heterogéneas: Vergílio e Rabelais, o direito romano e a poesia medieval, Racine e Leopardi, S. João da Cruz e Voltaire, etc.
Creio pelo contrário que a expressão «génio latino» – pelo menos no sentido que cada um de nós está habituado a dar-lhe – é demasiado rígida, porque não se refere suficientemente às realidades. Quando se diz «génio latino» ou espiritualidade latina pensa-se imediatamente em Vergílio, Petrarca ou Racine. Imaginamo-lo, esse «génio latino», como um reservatório inesgotável de valores espirituais límpidos, equilibrados, lógicos, eurítmicos.
Reduziu-se a multiplicidade dos recursos criadores latinos a um pequeno número de qualificativos: clareza, proporção, graça, simplicidade, espontaneidade, etc.
Limitou-se, por consequência, o conceito de «latinidade», em vez de o alargar o suficiente para que ele pudesse consubstanciar todas as criações latinas. (...)
As coisas não são tão simples. (...)
Existe na substância de cada cultura uma contradição originária, um conflito, ou, se quiserem, uma ambivalência que não encontra o seu equilíbrio senão em sínteses extremamente raras. (…) Não é exacto portanto pensar que o «génio latino» exclui sempre as criações que não se enquadram no esquema rígido: clareza, equilíbrio, etc.
Este génio continua «latino» mesmo quando se exprime no patético e na auto-ironia de Cervantes, no pessimismo de Leopardi, no fervor de Chateaubriand, ou na riqueza confusa de Vítor Hugo. (…)
Comparada às outras estruturas espirituais europeia – germânica, anglo-saxónica, eslava – a latinidade manifesta-se como a mais rica, a mais complexa, e possuindo uma possibilidade inesgotável de se renovar, de se ultrapassar e de renascer das próprias cinzas. Camões e Eminescu são ilustrações magníficas desta força criadora.
Agora algumas observações preliminares: Há povos aos quais incumbe uma missão histórica e outros cujo papel é principalmente passivo; são estes últimos os povos que se submetem à «história».
A Missão histórica de uma nação julga-se segundo as suas criações espirituais. Só os valores culturais justificam a existência e a missão de um povo.
A história não leva em conta os povos espiritualmente estéreis.
Evidentemente, há nações ricas em criações colectivas – como os tesouros folclóricos; outros há cuja aptidão se desenvolve no sentido das criações individuais – como as modernas culturas europeias. Mas fundamentalmente trata-se sempre do mesmo «Gesto» espiritual: a criação. (…)
O que Camões trouxe de novo à cultura universal foi justamente a transformação em valores espirituais das «geografias» e das experiências até então consideradas «bárbaras» e sem nenhuma significação superior.
Rémy de Gourmont escreveu uma vez que o mar é uma descoberta dos românticos e isto talvez seja verdadeiro para o mar nórdico, coberto de brumas, povoado de fantasmas. Mas o glorioso Atlântico e os mares orientais são uma descoberta estética de Camões. (…)
Camões inaugurou assim (…) o exotismo na literatura europeia.
Chateaubriand criou a «moda» exótica, mas Camões justificou com o seu génio uma corrente exótica muito complexa, que começou com a apologia do «bom selvagem» do século XVIII e acaba com Gauguin, as canções negras e a moda da «pele bronzeada» dos nossos dias. (…)
A revolução camoneana consistiu em ter outorgado direitos de cidade não só à beleza das morenas, como também às belezas bárbaras e exóticas – pretas como aquela cativa, ou chinesas, como Dinamene. (…)
Mas queremos sublinhar desde já a missão latina deste grande escritor português, que incorporou no universo estético europeu inúmeras «Terras incógnitas», que transformou em «bens espirituais» uma infinidade de tesouros ignorados, que enriqueceu a substância da latinidade de experiências, de paisagens e de «gestos» considerados até ele sem nenhuma possibilidade de serem transmudados em objectos de contemplação, em valores espirituais em circulação.
A intervenção de Camões no universo mental europeu permite-nos compreender melhor a latinidade.
É evidente que o contributo de Camões destrói a fórmula de um génio latino reduzido a alguns atributos, como sejam: a elegância, o equilíbrio, a clareza…
Encontramos um fenómeno similar no outro extremo da latinidade europeia, na Roménia.
É o caso do poeta romeno Mihai Eminescu (1850-1889), um dos maiores génios líricos a latinidade, que também poderosamente contribuiu para o alargamento do universo mental europeu. (…)
Exactamente como Camões, Eminescu incorporou uma vasta e selvagem «terra incógnita» e transformou em valores espirituais experiências até a ele consideradas desprovidas de significação.
Camões enriqueceu o mundo latino com paisagens marítimas, flores exóticas, belezas excêntricas.
Eminescu enriqueceu o mesmo «mundo» com uma novidade geográfica – a Dácia – e com novos mitos. Evidentemente, antes dele a poesia popular romena – uma das mais ricas do mundo – tinha criado já, com os mesmos materiais, algumas obras-primas; mas Eminescu é, além de um continuador desta inspiração popular romena, um génio autónomo, criador de mitos.
A Dácia era, para os primeiros romanos, um país de bárbaros, povoado de Citas e de Getas, sacudido pelas tempestades de neve vindas da planície russa.
Lembremo-nos das lamentações de Ovídio, no seu exílio de Tomis (a Constança de hoje), nas margens do Mar Negro: «São intoleráveis estes céus e estas águas. Não sei porquê, a própria terra me desagrada» (Tristia – III, 3). (…)
Em resumo, uma terra «bárbara» fora da civilização.
Bárbaros designa, em grego, o que «gagueja», isto é: o que não pode exprimir-se correctamente. (…)
E a língua latina criando uma nova língua, o romeno, ajudou os habitantes da Dácia a exprimirem-se correctamente, isto é, a perderem o seu «gaguejar» de bárbaros. (…)
Através de um poema de Mihai Eminescu, «A súplica dum Dácio» [Rugãciunea unui Dac], a sensibilidade latina é enriquecida com uma visão trágica da vida que se não parece com a de nenhum dos poetas pessimistas europeus.
A sua obra-prima, «Luceafãrul» (A Estrela da Manhã), pode ser considerada como um dos mais belos poemas da literatura mundial e a sua metafísica, a amplitude cósmica em que se desenrola o drama de Hyperion, a beleza estranha, pode dizer-se litúrgica, dos seus versos, são outras tantas adições ao universo mental da latinidade. (…)
Uma doce resignação perante o dever universal, um melancólico desejo de reintegração no Cosmos, de refazer a unidade primordial (quando o indivíduo estava ainda incorporado no Todo), um sentimento de isolamento metafísico e, especialmente, o inefável «dor» romeno – a «saudade» do outro extremo da latinidade – são outros tantos acréscimos ao repertório espiritual latino.
O pessimismo de Eminescu tem a sua origem numa visão trágica da existência, mas essa visão é sóbria, digna, viril, e nela se encontra a resignação calma dos Dácios e o seu desprezo pela morte e pelos sofrimentos físicos.
O génio latino enriqueceu-se através da criação poética de Eminescu, exactamente como se enriqueceu com as criações de Campes.
Bastam, pois, estes dois exemplos para nos convencermos de que o «génio latino», longe de se repetir indefinidamente em criações estereotipadas, ou pelo menos pertencentes à mesma família espiritual, conserva ainda uma prodigiosa capacidade de renovação, transformando constantemente matérias brutas em valores espirituais, absorvendo infatigavelmente «novas geografias» e novos universos mentais. (…).

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Mircea Eliade em Portugal 

Publica-se a seguir um interessante estudo de Albert von Brunn — Mircea Eliade em Portugal (1940-1944), originalmente dado a público na Revista ICALP, vol. 20 e 21, de Julho - Outubro de 1990, 37-50.
Mircea Eliade em Portugal (1940-1944)

«…E, de repente, surgiram na minha memória as imagens dos parques na província portuguesa. Lembro-me da sua melancolia terrível. Mundos há muito mortos que só aguardam o punho vigoroso do bárbaro para se descomporem» (1). Este apontamento de Mircea Eliade no seu diário (7-II-1965) evoca uma época até agora pouco conhecida na vida do grande sábio romeno – os seus anos em Lisboa.
Em 1941 Mircea Eliade foi nomeado secretário de imprensa na capital portuguesa. Esta impressionou-o muito favoravelmente:
«Lisboa conquistou-me desde o primeiro dia (…). No último ano da minha estadia em Calcutta tinha começado a aprender o português com método e paixão (2)». Mircea Eliade entrou em contacto com jornalistas portugueses e com o director do então Ministério de Informação e Propaganda António Ferro (1895- 1956). Ao mesmo tempo iniciou o estudo da obra de Camões.

Camões e Eminescu
Durante a sua estada na Índia (1928-1931) Mircea Eliade tinha-se apaixonado por "Os Lusíadas": «O meu desejo secreto era o de me concentrar no estudo da vida e da obra de Camões. Pouco a pouco comprei todas as edições anotadas dos Sonetos e de Os Lusíadas e, numa tarde de primavera, tive a sorte de encontrar na loja dum alfarrabista a famosa monografia de Carolina Michaëlis de Vasconcellos, há muito esgotada. A minha paixão por Camões tinha ainda um outro motivo: a sua biografia e a sua poesia estão ligadas a uma região da Índia que eu não conhecera – Goa e a Costa de Malabar. Tinha o propósito de escrever um livro sobre Camões e a Índia portuguesa. Achava interessante (e dalguma maneira simbólico) o facto de que um romeno que vivera e estudara no Bengala apresentasse o mais grande poeta lusitano que tinha vivido – há três séculos – na outra costa, a costa ocidental da Índia. Este livro, porém, como muitos outros, não passou dum projecto inacabado (3).»
O primeiro resultado dos esforços de Mircea Eliade foi um artigo intitulado «Camões e Eminescu» no jornal "Acção" (3-IX-1942). «Quero começar por delimitar a finalidade deste artigo»,escreve Eliade, que não é um trabalho de história literária e em que não vou rebuscar as eventuais influências camoneanas (3) que se poderiam encontrar na obra do grande escritor romeno Mihai Eminescu. Aproximando os nomes de dois dos maiores poetas da latinidade, penso sobretudo na contribuição positiva que cada um deles trouxe ao enriquecimento do génio latino.» A literatura deve a Camões a descoberta estética do oceano, até à data uma «terra incógnita», ao passo que Eminescu, o poeta nacional romeno, descobrira uma província considerada até então como bárbara pelos romanos: a Dácia. Uma terra privada de cultura, como a definiu Ovídio, foi assim descoberta pelo génio de Eminescu, que deu um valor universal aos seus mitos.
Eliade estudou durante toda a sua vida a poesia de Mihai Eminescu que era para ele – o emigrante – a via de acesso mais directa às próprias raízes, à sua identidade e criatividade. Em 1939 Eliade tinha publicado um estudo, Insula luiEuthanasius, onde abordara a novela Cezara, e chamara a atenção para o facto de esta «ínsula de Eutanásio», um episódio da novela de Eminescu, constituir a visão mais acabada do paraíso em toda a literatura romena, um paraíso muito particular: para Eminescu, o éden significa reunificação com a natureza, diluição do «eu» no bosque, na luz, na atmosfera. Eliade retomou estas ideias no artigo português que publicou no jornal Acção (1-X-1942) sob o título: «Eminescu – poeta da raça romena», ensaio que depois serviu de prefácio à primeira antologia portuguesa dos versos de Mihai Eminescu (4).
Além dos seus trabalhos sobre Camões e Eminescu, Eliade apresentou ao público leitor português uma série de personalidades romenas: o hispanista Alexandru Popescu-Telega (*1889, em: A Voz, 6-II-1943), o historiador Nicolae Iorga (1871-(1885-1944, em: Acção, 26-VIII-1943).

Os Romenos, Latinos do Oriente
Além da sua actividade diplomática e periodística, Eliade elaborou, em 1942-1943, uma introdução à história da cultura romena, que saiu em 1943, sob o título "Os Romenos, Latinos do Oriente". No seu livro, Eliade parte de uma ideia básica: A missão do povo romeno consiste em manter aberta a foz do Danúbio para a Europa. Os romenos – povo pioneiro à margem da Europa – cumpriram esta missão durante séculos, primeiro na luta contra os turcos e mais tarde contra a Rússia bolchevista. Esta situação precária de povo de fronteira manifestar-se-ia – segundo Eliade – em dois mitos centrais: a lenda de Mestre Manolé e a balada Miorita (O Cordeirinho). Ambas as lendas têm uma coisa em comum: o sacrifício é o centro da acção.
No seu artigo «A Lenda de Mestre Manolé» (5), Mircea Eliade apresenta esta balada aos leitores da Acção (29-IV-1943): «A Lenda de Mestre Manolé (…) localiza-se em torno da construção da Catedral de Curtea de Argesh, que se efectuou nos princípios do século XVI, mas a sua origem é muito mais remota (…). A balada começa pela procura dum lugar para a criação do mosteiro.
O Príncipe lendário, Negru Voda, com Mestre Manolé e mais nove mestres construtores, desce à ribeira do Argesh, em demanda de «um muro abandonado e por acabar» (…). Encontrado, por fim, o lugar, Mestre Manolé com os seus nove companheiros deitaram-se ao trabalho. Mas tudo o que levantavam de dia vinha abaixo, misteriosamente, de noite. O Príncipe ameaçou-os de os murar vivos, nos caboucos, se a construção não progredisse(…). Enquanto os seus companheiros recolhiam, vinda a noite, às
suas casas, Manolé ficava sozinho (…). Uma noite sonhou que o trabalho de todos seria vão (…) enquanto não fosse murada, em vida, nos alicerces, uma jovem casada. De manhã, Manolé reuniu todos os mestres pedreiros e (…) juraram, em comum, sacrificar a primeira mulher casada que viesse». Quando chegara mulher do mestre pedreiro, ele mesmo tem que murá-la viva no mosteiro. Uma vez terminadas as obras, Manolé suicida-se.
Na balada Miorita o cordeirinho-protagonista anuncia ao seu pastor que os seus parceiros querem matá-lo. Em vez de fugir, o pastor aceita sereno e resignado o seu destino. Pede à sua ovelha favorita que o sepulte junto ao aprisco, sem nunca revelar a sua sorte à mãe, dizendo-lhe que ele teria casado com uma princesa dum país distante. Nos dois mitos, morte e núpcias misturam-se, o sacrifício é interpretado como a reintegração com a Natureza, a própria morte é transfigurada. Estes mitos são, para Eliade, a glorificação da história romena.
Embora os romenos tenham realizado obras primas como os mosteiros da Moldávia, na época de Estêvão o Grande (1457-1504), ou o grande acervo de lírica popular, a Roménia, nunca pôde salvaguardar-se dos golpes da história, dum nova investida de bárbaros. A fusão das grandes corrente culturais que provinham de Bizâncio, Roma, da Montanha de Atos e da civilização francesa criaram uma síntese original na história da cultura europeia.
Em 1941-1942 Eliade trabalhava numa biografia de Salazar. Com a ajuda dos historiadores e jornalistas Manuel Múrias (1900-1960), João Ameal (*1902), Alfredo Pimenta (1882-1950) e Pedro Correia Marques (*1890), Eliade escreveu uma hagiografia do ditador português, hoje em dia francamente obsoleta. O mesmo Eliade mudou depois de perspectiva e revelou-se em 1946 muito mais crítico com respeito a Salazar (6).
Salazar e a Revolução em Portugal saiu em 1942 em Bucareste. O capítulo XIV foi publicado em versão portuguesa no jornal Acção (30-IX-1943). Nas suas Memórias (7) Eliade descreve com luxo de detalhes a génese deste livro, que lhe valeu uma entrevista com o próprio Salazar: «Na tarde de 6 de Julho telefonou-me António Ferro para me anunciar que no dia seguinte ia ser recebido por Salazar às cinco da tarde: Como não encontrei um táxi, cheguei lá quase correndo. O porteiro do Palácio de São Bento perguntou-me para onde ia. “O Senhor Presidente”, respondi. Ele mostrou-me a escada do fundo e disse: “Segundo andar, à direita”. Assim se entra no gabinete do ditador português… Durante aqueles cinco minutos de espera engoli sem fôlego um copo de água: A minha garganta ficara tão seca que receei não poder falar.»

A noite escura da alma
Os últimos dois anos em Lisboa (1943-1944) foram para Eliade um calvário. O que mais o abalou foi a morte de sua mulher, Nina Mares. Para não incomodar o marido, Nina Mares queria ser operada em Bucareste. Quando voltou a Portugal, em Junho de 1943, Eliade verificou que ela estava muito mal.
O médico português aconselhou o internamento num sanatório, a Casa de Saúde e Repouso da Lousã, onde Nina passou dois meses com escassos resultados.
A impressão de tristeza dos parques portugueses de província, que Eliade evocará em 1965, provém com certeza deste período na Lousã. Nina Mares morreu no dia 20 de Novembro de 1944, e Eliade partiu para Paris, rumo ao exílio definitivo. Nos últimos anos da sua vida relembrou a imagem da casa em Cascais: «A casa em que morávamos desde há seis semanas ia ser derrubada até o dia 1.º de Outubro. Vivíamos rodeados de escombros, com um lenço na mão para tapar a boca quando o vento levantava o pó da rua. Esta imagem parecia-me o símbolo duma Europa no fim da Segunda Guerra Mundial(8).»

Noite de São João em Portugal
Na literatura romena, Portugal é uma espécie de planeta desconhecido, uma «terra incógnita» que fica longe de mais para caber dentro de um horizonte real e palpável. A «Ocidental praia lusitana» torna-se, por isso, um pretexto ideal para evocar um
Finisterrae, um liminar entre a realidade e o sonho, entre terra e água. Mircea Eliade, ao lado de Nicolae lorga (1871-1940) e Lucian Blaga (1895-1961) foi um dos poucos romenos que tiveram no nosso século um conhecimento directo do país. Ainda assim, revelou-se incapaz de se subtrair a esta visão mítica. Ao escrever nos anos cinquenta o seu romance "Bosque proibido" (Noite de São João), Eliade escolheu Portugal para criar aí o único ninho de felicidade do romance: A Estufa Fria, no Parque Eduardo VII, Cascais e o Buçaco. O protagonista, Stefan Viziru, chega duas vezes a Portugal no meio de uma Europa em guerra. Numa ilha de felicidade junta-se com o seu amor de juventude, Ileana. Não sabe, porém, reter este momento, decifrar o enigma, perde Ileana para sempre e volta à pátria (9). No prefácio à edição portuguesa do seu romance, Eliade explica a razão da sua escolha, o porquê do ninho de felicidade em Portugal: «Creio que, mais do que qualquer outro trabalho literário meu, este romance poderá interessar o leitor português. Passei cerca de cinco anos em Portugal, e uma parte da acção do romance decorre em Lisboa, Cascais e Coimbra (…) Se os compreendi bem, os Portugueses têm uma determinada concepção do Tempo, da Morte e da História, que lhes permite pressentir o tema central e «secreto») do romance(…). Parece-me que para os Portugueses (como aliás para os Romenos), o Tempo, a História, a Morte e o Amor conservam o carácter de mistérios» (10).
* * *
Do ponto de vista da ciência das religiões, os anos portugueses de Mircea Eliade aportaram relativamente pouco, já que o sábio romeno não teve tempo para elaborar o grande projecto daquela época: a aplicação do seu ensaio sobre o simbolismo aquático à epopeia de Camões. Por outro lado, Eliade ofereceu aos portugueses uma original síntese da história romena: "Os Romenos, Latinos do Oriente" pode considerar-se, sem lugar a dúvidas, um primeiro esboço do que seria, anos mais tarde, a obra "De Zalmoxis a Genghis-Khan" (Paris, 1970), onde ele aborda os temas fundamentais da mitologia popular romena.
Portugal significou para Eliade uma vivência crucial: um adeus à pátria, à própria cultura, à primeira mulher. Só nos últimos anos da vida ele reconstruiu este episódio nas suas "Memórias".

Albert Von Brunn (Zurique)

Anotações
1 Mircea Eliade, Fragments d’un Journal I, 1945-1969. traduit par Luc Badesco. Paris, 1973, p. 482. A tradução portuguesa foi feita directamente do manuscrito original romeno que devo à gentileza do Prof. Mircea Handoca, Bucareste.
2 Mircea Eliade, Mémoire II, 1937-1960. Les moissons du solstice, traduit du roumain par Alain Paruit. Paris, 1988, p. 69. Tradução directa do original romeno.
3 ibidem, p. 70.
4 Mircea Eliade, «Eminescu – poeta da raça romena» em: Acção, 1-X-1942. 2.ª ed. em: Mihai Eminescu, Poezii = Poesias. Lisboa, 1950, pp. 21-32.
5 Mircea Eliade, «A lenda do Mestre Manolé» em: Acção, 29-IV-1943.
6 Mircea Eliade, Salazarsi revolutia în Portugalia. Bucareste, 1942.
Numa página inédita do seu Journal Eliade observa que Salazar mantinha à sua volta «uma roda oportunista, serviçal e medíocre».
(Mircea Handoca, Din nou despre «Memoriile» lui Mircea Eliade em: Revista de istorie si teorie literarã 25 (1987), p. 213).
7 ibidem, [tradução do autor].
8 ibidem, p. 218. [tradução do autor].
9 Mircea Eliade, Bosque proibido. Tradução Maria Leonor Buescu. Lisboa, 1963.
10 ibidem, p. 5. Agradeço a revisão do texto ao Sr. Zeferino Coelho (Editorial Caminho, Lisboa)
A. Bibliografia activa
1. Latina giuta [gintã e reginã…» em: Acção, 5-II-1942.
2. «Camões e Eminescu» em: Acção, 3-IX-1942.
3. «Eminescu – poeta da raça romena» em: Acção, 1-X-1942 (2-ed. em: Mihai Eminescu, Poezii = Poesias. Lisboa, 1950, pp. 21-32).
4. «Canções romenas do Natal» em: A Voz, 25-XII-1942.
5. «Dor, a saudade romena» em: Acção, 31-XII-1942.
6. «Cultura latina: alguns lusófi los romenos» em: A Voz, 6-II-1943.
7. «A lenda de Mestre Manolé» em: Acção, 29-IV-1943.
8. «Liviu Rebreanu» em: Acção, 26-VIII-1943.
9. «Panorama intelectual da Roménia» em: Diário de Lisboa, 2-IX-1943.
10. «Estado salazarista» em: Acção, 30-IX-1943.
11. «Nicolae Iorga» Acção, 24-II-1944.
12. «A literatura romena contemporânea» em: Bazar das Letras, das Ciências e das Artes. Suplemento literário de A Voz, 15-IV-1944.
13. «A sociologia, instrumento de reforma social?» em: Vida Mundial Ilustrada, 22-VI-1944.
14. «Um mito romeno da morte» em: Acção, 29-IX-1944.
15. Mircea Eliade, Salazar si revolutia în Portugalia. Bucareste, 1942.
[tradução portuguesa parcial: No. 10].
16. Mircea Eliade, Os Romenos, Latinos do Oriente. Lisboa, 1943.

B. Bibliografia passiva
1. Eugénio Navarro, «Um encontro com Mircea Eliade» em: A Voz, 27-XII-1942.
2. [resenha] «Os Romenos, Latinos do Oriente» em: Diário da Manhã, 12-IV-1943.
3. [resenha] «Os Romenos, Latinos do Oriente» em: Novidades, 25-IV-1943.
4. João Ameal, «Rumos do Espírito: as ideias e os autores» em: Diário da Manhã, 18-V-1943.
5. Alfredo Pimenta, «Roménia erudita» em: A Voz, 17-VI-1943.
6. Eugénio Navarro, «Os Romenos, Latinos do Oriente» em: A Voz, 14-VII-1943.
[Devo estas referências ao Professor Mircea Handoca, Bucareste]

C. Obras de ficção traduzidas após 1944
1. Mircea Eliade, Noite bengali [Maitreyi] tradução, Maria Leonor Buescu. Lisboa, 1961.
2. Mircea Eliade, Bosque proibido [Noaptea de Sânziene] tradução, Maria Leonor Buescu. Lisboa, 1963.
3. Mircea Eliade, Rua Mântuleasa [Pestrada Mântuleasa] tradução, Ricardo Alberti. Lisboa, 1978.

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Excelentes! 

Estes últimos postais do Combustões, do Batalha Final e do Dragoscópio.
Sem desdouro para os outros (por exemplo, merece palmas aquele "Querem República? Paguem-na!"), que felizmente há outros de boa qualidade, não podem perder a leitura destes.
E não podem deixar de ler o meu, evidentemente.

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segunda-feira, novembro 21, 2005

Livro póstumo de Rodrigo Emílio 

A Antília Editora organiza uma sessão pública para o lançamento do livro "Pequeno Presépio de Poemas de Natal", de Rodrigo Emílio, no Círculo Eça de Queiroz, sito no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, n.º 4, em Lisboa, dia 30 de Novembro, às 19 horas.
A apresentação da obra será feita pelo poeta e crítico António Manuel Couto Viana.
A obra inclui oitenta e cinco poemas de Natal, escritos por Rodrigo Emílio entre 1959 e 2003, sendo estes - na sua grande maioria - rigorosamente inéditos. Apresenta-se ainda um amplo estudo panorâmico do autor, com o título: "O Tema da Natividade na Poesia Portuguesa, a nacionalização poética do Natal e a religiosidade e regionalidade inscritas no mesmo, enquanto motivo de inspiração criadora", e um prefácio do poeta e crítico António Manuel Couto Viana. Segundo este, "Pequeno Presépio de Poemas de Natal" vem a ser: «Mais um livro fascinante do poeta que na quadra festiva a aproximar-se breve para a nossa comoção cristã (e cito versos de Rodrigo Emílio) nos toca «no presépio/ como prenda», magnífica, «de Natal.».
Os interessados na aquisição do livro devem contactar a Antília Editora Lda., na Rua 15 de Novembro, 43 - 2.º 4100-421 Porto, ou o Telef.: 226068828 ou o Telem.: 917885190, ou ainda comunicar a www.rodrigoemilio.com

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domingo, novembro 20, 2005

Outras Perdas 

Neste 60º aniversário do início do julgamento de Nuremberga, parece-me da maior utilidade a publicação do que se segue, com a minha homenagem ao escritor canadiano James Bacque, que o tornou possível, e aos amigos que trabalharam para que este material aqui estivesse traduzido (além de James Bacque, recomendo o conhecimento do trabalho de Alfred de Zayas). Pretende-se com esta publicação incentivar a curiosidade e o sentido crítico dos leitores, e conduzir a um melhor conhecimento da parte escondida da História dos tempos modernos.

...Esta estratégia equivalia a confiar milhões de soldados alemães aos Aliados ocidentais, sob a chefia do comandante militar supremo, o general Dwight Eisenhower, que, na sua opinião, viriam a ser mais clementes. Dado, porém, o feroz e obsessivo ódio do general Eisenhower, não só ao regime nazi, como aliás a tudo quanto fosse alemão, esta esperança era, na melhor das hipóteses, uma jogada de desespero. Mais de cinco milhões de soldados alemães foram encurralados em cárceres de arame farpado, na sua maioria a acotovelaram-se literalmente uns contra os outros. Não tardou que o solo que pisavam se tornasse um atoleiro de imundície e doenças. Expostos às condições climatéricas, sem disporem sequer das instalações sanitárias mais toscas, subalimentados, em breve os prisioneiros começavam a morrer de inanição e de doenças. A partir de Abril de 1945, o exército dos Estados Unidos e o exército francês aniquilaram indiferentemente cerca de um milhão de homens, a maioria dos quais em campos americanos. Desde os horrores da prisão de Andersonville, administrada pelos Confederados durante a guerra civil americana, nunca semelhantes crueldades tinham ocorrido sob controle militar dos Estados Unidos. Durante mais de quatro décadas, esta tragédia sem precedentes permaneceu oculta nos arquivos dos Aliados (Dr. Ernest F. Fisher Jr., coronel na reserva do exército dos EUA, no Prefácio do livro de J. Bacque).

Os planos delineados ao mais alto nível dos governos dos EUA e da Grã-Bretanha em 1944 expressavam a determinação de destruir de uma vez por todas a Alemanha como potência mundial, reduzindo-a a uma economia rural, conquanto isso significasse a fome para milhões de civis (...) Amplificado por uma burocracia militar complacente, o ódio de Eisenhower deu origem ao horror dos campos da morte que não encontram paralelo na história militar americana. A despreocupada indiferença revelada pelos oficiais do SHAEF (Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force) perante as catastróficas consequências desse ódio constitui o mais doloroso aspecto do envolvimento do exército americano (...) Para se ter uma ideia da dimensão desse horror, bastará atentar-se no facto de que essas mortes excederam largamente o total de baixas sofridas pelo exército alemão no Ocidente entre Junho de 1941 e Abril de 1945 (Dr. Ernest F. Fisher Jr., coronel na reserva do exército dos EUA, no Prefácio do livro de J. Bacque).

Conforme disse a sua mulher, Mamie, numa carta de Setembro de 1944, Eisenhower detestava os alemães. Porquê? «Porque o alemão é um animal». Em Agosto, declarou, na presença do embaixador britânico em Washington, que os cerca de 3.500 oficiais do Estado-maior alemão deviam «ser todos exterminados». E nesta liquidação incluiria todos os dirigentes do Partido nazi, de presidente da câmara para cima, bem como todos os membros da Gestapo (1 - De acordo com o último censo alemão em tempo de guerra, havia em 1941 dentro das fronteiras da Alemanha de antes da guerra 63.343 Rathauser, câmaras municipais, o que significa pelo menos o mesmo número de presidentes de câmaras. A Gestapo cifrava-se em dezenas de milhar). Isto totalizaria cerca de 100.000 pessoas. Ele e os seus convivas de almoço concordaram em que as coisas se poderiam resolver por si, caso se desse carta branca aos russos na Alemanha do pós-guerra. Eisenhower referiu que a Alemanha deveria ser dividida em zonas, uma para cada nação que fora invadida, de forma a poder fazer-se justiça (2 - Capitão Harry C. Butcher, «My Three Years with Eisenhower, pág. 610).

Longe de privar-se de comida para alimentar as massas famintas da Europa, em princípios de Junho o exército estava efectivamente a aceitar alimentos dos europeus, incluindo checos e alemães, nominalmente para alimentar prisioneiros, mas de facto para os seus próprios fins. Os números das aquisições do Quartel-Mestre General (1) mostram que, embora em Junho o exército fornecesse ligeiramente mais rações (5.000) diárias destinadas aos POWs (Prisoners of War) do que as requisitadas aos EUA e provenientes de fontes locais, durante o mês de Julho viu-se a braços com um enorme excedente diário destinado aos prisioneiros. Em Julho, o exército obteve através de «aquisições locais e nos EUA» mais 2.500.000 rações diárias destinadas aos prisioneiros do que aquelas que lhes forneceu. Em Agosto essa diferença atingiu os 3 milhões (2). A expressão «aquisições locais» designa a requisição de alimentos aos alemães por parte dos americanos, que vinha originando grandes carências. Devido a isso, e de acordo com o Comité Internacional da Cruz Vermelha, os refugiados estavam famintos (3). O tenente-coronel Bacque do exército francês, colocado na zona da Alemanha ocupada pela França, recebeu duma das suas unidades a escandalizada comunicação de que um grupo de assalto americano tinha arrebatado 100 carneiros aos aldeões locais (4). O Departamento de Estado queixou-se em Junho ao Departamento da Guerra que em Domazlice e Hosfoun, na Checoslováquia, tinham sido confiscados, a título de presa de guerra, 100.000 latas de carne, muitas toneladas de ervilhas secas, açúcar, várias cabeças de gado e 700 garanhões (5) (págs. 94-95)

Não restam dúvidas de que muitíssimos homens de todas as idades, a que se juntaram algumas mulheres e crianças, morreram de exposição às más condições climatéricas, à doença e à fome nos campos americanos e franceses da Alemanha e da França a partir de Abril de 1945, pouco antes do final da guerra na Europa. As vítimas excedem indubitavelmente as 800.000, ultrapassando quase certamente as 900.000 e sendo até provável que passem de 1 milhão. A sua morte foi conscientemente provocada por oficiais do exército que dispunham de recursos suficientes para manterem os prisioneiros vivos. Os organismos assistenciais que tentaram ajudar os prisioneiros dos campos americanos não obtiveram autorização do exército para tal. Tudo isto se ocultou na altura e sobre tudo isto se mentiu posteriormente quando a Cruz Vermelha, «Le Monde» e «Le Figaro» tentaram dizer publicamente a verdade. Os registos foram destruídos, alterados ou mantidos secretos. Situação esta que ainda hoje se mantém. O Canadá e o Reino Unido, que eram aliados da França e dos EUA, fizeram também milhões de prisioneiros sob o mesmo comando, o SHAEF, Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force (Introdução, pág. 29).

A extraordinária descrição dos homens que «passavam dia e noite de pé, enterrados na lama molhada até aos tornozelos», à medida que morriam aos milhares, assemelha-se exactamente às descrições feitas pelos sobreviventes e por muitas testemunhas americanas, incluindo os coronéis Beasley e Mason, que escreveram quase com as mesmas palavras sobre as suas experiências em Abril num campo do Reno (1 - Ver págs. 67-68). A lista de distribuição deste memorando inclui o embaixador Robert Murphy, o principal conselheiro político do general Eisenhower. Tratava-se, precisamente, do tipo de informações que Murphy devia obter e transmitir a Eisenhower; é seguro supor que ele a tenha realmente transmitido. Juntamente com a experiência de Clarck e com os testemunhos atrás referidos, este documento deveria pôr termo à especulação sobre se Eisenhower tinha ou não conhecimento da situação. Lamentavelmente, nem Murphy, no seu livro «Diplomat Among Warriors», nem Adenauer, nos anos em que ocupou o cargo, trouxeram toda a verdade a público (2 - Ver nota 17 supra. Ver também a descrição feita por Murphy dos campos em «Diplomat Among Warriors», supra, págs. 190-191. Murphy aflorou também o assunto do tratamento dos alemães no seu prefácio ao autorizado «Nemesis at Potsdam», de Alfred De Zayas.). O próprio general, algumas semanas depois de Adenauer ter denunciado a sua política, emitiu um relatório para o Conselho de Chefes de Estado-Maior em que resumia a sorte dos prisioneiros (3-Departamto. Guerra, gabinete de Relações Públicas, nota oficiosa, Setembro de 1945, Arquivo Nacional do Canadá, Ottawa). Referida a 31 de Julho, a situação do pessoal PW (Prisoners of War) e DEF (Disarmed Ennemy Forces) na zona dos Estados Unidos era a que segue: «Libertados: 2.046.575; Transferidos: 922.566; Em poder: 1.803.696». O general não indicou que o total assim contabilizado era de 4.772.837. Subtraído ao total de capturas das forças americanas de 5.224.310 no comando do Supreme Headquarters Allied Expeditionary Forces fornecido a 10 de Junho de 1945 pelos seus próprios oficiais, ficam por contabilizar 451.473 homens, mulheres e crianças. Relativamente a este período, o número total de mortos nos campos americanos estimado neste livro, publicado um ano a seguir à descoberta do documento acima referido, era de 472.366 (4 - Totais referentes a 28 de Julho: POWs - 121.749; DEFs - 245.776; e Milhão em Falta, 104.841. Ver Apêndice 1). A menos que esta «lacuna Eisenhower» de quase meio milhão de pessoas seja justificada pela morte, não há explicação razoável para ela. O único destino concebível para este enorme número de pessoas em falta é a morte. O total de capturas de 5.224.310 fornecido pelos oficiais de Eisenhower a 11 de Junho de 1945, pecava por defeito em centenas de milhares, segundo um memorando que o Departamento de Guerra enviou em 1946 ao Departamento de Estado. Este memorando, que fornecia ao Departamento de Estado um resumo da situação dos prisioneiros, refere que os EUA capturaram 5.476.512. Se este número mais elevado estiver correcto, os totais de prisioneiros «em falta/não contabilizados» em várias datas excederiam em várias centenas de milhares os que se apresentam no corpo deste livro. O memorando enviado ao Departamento de Estado esclarece também um facto ainda mais notável. Diz que «o número mais elevado na posse do Supreme Headquarters Allied Expeditionary Forces no final da fase europeia da guerra foi de 7.200.000 prisioneiros». O memorando fornece números válidos até 1949, mas a discriminação dos números globais referida a 15 de Dezembro de 1946 mostrava que 3.054.667 tinham sido libertados «por não possuírem estatuto militar reconhecido; 2.397.588 tinham sido transferidos para outras zonas a fim de serem libertados ou estavam à data emprestados a outros países; 15.285 tinham morrido em consequência de ferimentos ou outras causas enquanto prisioneiros de guerra; e 72.322 estavam detidos pelas autoridades militares americanas» (5 - 711.62114/9-1246, Arquivos, Departamento de Estado) (págs. 235-237)

Na Alemanha operou uma «Brigada Judaica» na qualidade de tropa de ocupação, tristemente célebre pelas suas iniquidades. Do livro «Les Vengeurs», escrito pelo judeu Michel Bar-Zohar, tirámos alguns exemplos que nos parecem significativos e em que aquele confessa ter tomado parte: «...pouco tempo depois da Brigada Judaica ter chegado a Treviso, no Tirol do Sul, houve desordens na cidade: alemães atacados, incêndio de casas que tinham pertencido a nazis, mulheres violadas... Estas violências desordenadas prejudicam a causa judaica. Há que conter o sentimento de vingança que domina todos os soldados judeus e, nesse sentido, os chefes da «Haganah» decidiram confiar a um só grupo de homens, particularmente seguros e conhecidos pelas suas qualidades morais, o direito de derramar sangue em nome do povo judeu».
«Para levar a cabo os nossos actos de vingança devíamos guardar segredo junto do Exército britânico, do qual fazia parte a Brigada Judaica. Os ingleses teriam desaprovado os nossos actos, apesar de, em numerosas ocasiões, terem feito vista grossa».
«No decurso das semanas seguintes, no Alto Adigio, no Tirol do Sul, em Klagenfurt, em Innsbruck, oficiais SS, chefes da Gestapo, altos dignitários nazis desapareceram. Por vezes eram encontrados alguns cadáveres, mas a maioria desses homens parece ter-se dissipado no ar. Ainda hoje os parentes mais chegados daqueles nazis ignoram o que foi feito deles».
Com frequência os membros dessa Brigada - que reclamavam para si mesmos as faculdades de juizes e carrascos - apresentavam-se em casa dum alemão que tinha pertencido à Wehrmacht ou às SS e comunicavam-lhe que fora citado para comparecer no Comando britânico. O homem seguia-os, confiante, mas nunca mais regressava a casa. Geralmente era estrangulado com uma corda que os chamados Vingadores lhes enrolavam no pescoço, e o seu corpo lançado a um pântano. Actuavam também nas prisões-hospitais britânicas, onde «...se verificavam estranhos falecimentos de pacientes que gozavam de boa saúde».
Outra «pérola»: «Estávamos nos camiões - conta Sam Halevy actualmente agricultor na planície ao norte de Haifa - Nas estradas alemãs costumávamos passar muitas vezes por ciclistas. A vista dum alemão bastava para despertar o nosso desejo de vingança. Nas cabinas, ao lado do condutor, havia rapazes da Brigada. No momento em que o Dodge chegava perto do ciclista, a porta do camião abria-se violentamente. O homem rolava para debaixo das rodas do veículo e era esmagado. Por este processo matámos um bom número deles».
Os ingleses, finalmente, mandaram a Brigada Judaica para a Bélgica e, posteriormente, para a França. O número de assassinatos imputáveis a essa Brigada oscila entre 200 e 300. Mas outro grupo mais secreto, mais implacável ainda, iria ganhar relevo. «Aqueles homens vinham da Europa de leste. Traziam documentação falsa e dinheiro. Era um grupo muito misterioso. Só queriam uma coisa: vingança. Eram uns 50 e pareciam dispor de todo o dinheiro necessário». Esses homens, autodenominados «Grupo Nakam» (que, em hebreu, significa Vingança) superaram largamente em eficiência assassina os seus predecessores da Brigada Judaica. Continuemos a dar a palavra ao judeu Bar-Zohar: «No estado maior do Grupo Nakam foi elaborado um projecto, cujo alcance alguns de nós conheciam. Muito tempo e muito dinheiro foram consagrados a preparar aquele plano. Se conseguíssemos levá-lo a cabo, sabíamos que seria supérflua qualquer outra acção. Hoje, na perspectiva dos anos que passaram, tal plano pode qualificar-se de diabólico. Tratava-se de matar milhões de alemães. Digo bem, milhões, assim de uma vez, sem distinção de idade ou sexo. A dificuldade principal era que queríamos matar apenas alemães. No entanto, encontravam-se no antigo território do Reich soldados aliados e sobreviventes dos antigos campos alemães. O plano consistia no envenenamento simultâneo de fontes, depósitos de água e canalizações das cidades principais, utilizando em grandes doses um poderoso veneno. Mas o temor quanto ao que podia acontecer a muitos judeus que não estivessem ao corrente da operação e as represálias das autoridades de ocupação induziram-nos a abandonar o "Plano A". Assim, dedicámo-nos principalmente ao "Plano B". Depois de alguns meses de buscas, escolhemos o nosso terreno de acção, um campo de prisioneiros perto de Nuremberga, a cidade, precisamente, que tinha sido a sede do Nazismo. Tinham sido ali concentrados 36.000 SS. No princípio de 1946, um pequeno grupo de reconhecimento dirigiu-se para aquele campo a fim de executar o primeiro acto da vingança... Decidimos - disse Jacob Karmi - envenenar os 36.000 SS e fui eu o encarregado da execução do projecto. Para começar, consegui que fossem admitidos dois dos meus homens na administração do campo, um como motorista, outro como funcionário do armazém; depois, consegui que outros homens meus fossem admitidos nos gabinetes administrativos...».
Aqui, saltámos no relato, excessivamente prolixo, sobre a maneira como os laboratórios lhes forneceram um veneno poderosíssimo para misturar no pão destinado aos prisioneiros, que actuava com uma certa lentidão mas que era, inexoravelmente, mortal. «Escolheu-se a noite de 13 para 14 de Abril de 1946 para proceder ao envenenamento do pão; por uma série de circunstâncias fortuitas o plano fracassou parcialmente, pois só foi possível envenenar uma pequena quantidade de pães... Segundo os cálculos dos vingadores judeus, 4.300 prisioneiros tiveram graves problemas intestinais. Um milhar, aproximadamente, foi transportado de urgência ao hospital. Durante os dias seguintes à operação morreram entre 700 e 800 prisioneiros. Outros foram atacados de paralisia e morreram durante todo o ano. No total, os vingadores dão o número de uns 1.000 mortos e vários milhares de doentes, muitos dos quais morreriam também, possivelmente»37.
O livro em questão é uma verdadeira «delícia». Fala doutros dois envenenamentos de pão com numerosas vítimas (sem especificar números) noutros campos de prisioneiros, assim como da colocação e explosão de minas no interior dum campo; do incêndio num cinema «...onde muitos alemães pereceram»; dum novo projecto de envenenamento dos depósitos de água de Berlim, Munique, Nuremberga, Frankfurt e Hamburgo (que fracassou por ter sido impedido a tempo pelas autoridades de ocupação), as inumeráveis execuções de oficiais e soldados alemães por médicos judeus em campos de concentração, etc., etc..

Testemunho do engenheiro Franz Resch: «Em Bokowitz vi milhares de alemães, homens e mulheres, civis e soldados, e mesmo crianças de 10 anos, selvaticamente assassinados. As turbas espancavam aqueles seres indefesos e os corpos dilacerados eram regados depois com ácido clorídrico para aumentar o sofrimento. Alguns ainda viviam quando lhes cortaram os dedos para roubar os anéis ou as alianças. Vi também no campo de Kladnow verterem alcatrão fervente nas costas nuas de alguns internados e de os espancarem a seguir com bastões. Perdi o rim direito em consequência de golpes recebidos. Em 10 de Maio, no dia seguinte ao do fim oficial da guerra - apesar da Checoslováquia já ter sido libertada há mais de 1 mês - chegou ao campo de Kladnow um combóio de mercadorias cheio de soldados alemães feridos. Depois de concentrados num descampado, foram lançadas sobre eles granadas de mão. A maioria morreu» (2 - Livro Branco dos Alemães Sudetas, Doc. nº 5).

Em Iglau, o governador civil, alemão, foi julgado e, sem que lhe fosse permitido falar, foi condenado a ser escalpelado no próprio tribunal. Os gritos foram tão terríveis, que o desgraçado rebentou as cordas vocais. 350 habitantes de Iglau foram obrigados a marchar de noite, completamente nus, em passo ligeiro; o que parasse ou caísse era abatido à coronhada. Depois de 33 quilómetros desta marcha de morte, já não havia sobreviventes. Ao verem o que estava a acontecer, 1.200 alemães de Iglau preferiram suicidar-se (Livro Branco dos Alemães Sudetas, Doc. nº 11). No campo de concentração de Freudenthal, os detidos eram espancados até os guardas não poderem mais. Alguns detidos foram enterrados vivos (Dokumentation des Vertreibung der Deutschen). No campo de Moravska-Ostrava, a mulher dum camponês, grávida de 8 meses, foi espancada no ventre até abortar. Já agonizante e às portas da morte, cortaram-lhe os seios (Livro Branco dos Alemães Sudetas, Doc. nº 14). Todos os habitantes da cidade de Saaz (cerca de 3.000 alemães) foram alvejados com rajadas de metralhadora pelo Exército checo em 15 de Maio, 6 dias depois do fim da guerra (Livro Branco dos Alemães Sudetas, Doc. nº 14). Mas a apoteose teve lugar em Praga, onde vivia mais de meio milhão de alemães. Em 13 de Maio de 1945 entrou em Praga, vindo de Londres, Edouard Benes, o Grão-mestre da Francomaçonaria checa. Benes era o bel esprit, o menino mimado do progressismo europeu liberalóide e bem-pensante. Com Benes chegava também Masarik, o outro buda do liberalismo ortodoxo. A recepção que lhe prepararam os seus sequazes, à frente dos quais se destacava um comunista judeu chamado Slansky, foi espectacular. Muitos alemães tinham sido pendurados pelos pés nos grandes painéis de anúncios da Praça de S. Wenceslau e regados com gasolina. Quando os grandes «humanitários» chegaram, os corpos foram incendiados até formarem tochas vivas (Livro Branco dos Alemães Sudetas, Doc. nº 14).
Livro de mais de 1.000 páginas, o Livro Branco dos Sudetas Alemães descreve horrores sem precedentes na história da humanidade. Mulheres checas e judias, armadas de cacetes e varapaus, golpeavam os ventres das mulheres grávidas até que se desse o aborto. Num só campo de concentração morriam diariamente 10 mulheres em consequência dessas torturas. Noutro campo, os detidos eram obrigados a lamber os cérebros esmagados dos seus companheiros espancados até à morte. Outros detidos foram obrigados a comer excrementos infecciosos de companheiros seus atacados de desinteria. Os médicos checos e judeus recusavam ajuda às mulheres alemãs que tinham sido violadas pelos soldados russos. Centenas de milhares morreram ou suicidaram-se. Tal foi o caso, por exemplo, da cidade de Brno onde, num só dia, 275 mulheres cometeram suicídio. No estádio municipal de Praga, em 18 de Maio, 9 dias depois de terminada a guerra, 5.000 prisioneiros das SS foram crivados de balas com rajadas de metralhadoras.
O número total de mortos nos Sudetas e na Checoslováquia ascende a perto de 250.000, não incluindo os que morreram na deportação que se seguiu a todos estes horrores e aos que agonizaram lentamente nos campos de trabalhos forçados. É difícil avaliar o número de mortos nessa deportação e ainda mais os falecidos nos campos de trabalhos forçados. Nenhuma testemunha é muito segura, uma vez que os números que forneceram são de terceira ou quarta mão e, provavelmente, exagerados. Em todo o caso, aos 250.000 massacrados que constam no Livro Branco dos Sudetas Alemães, há que acrescentar, no mínimo, outros 175.000 que, nos meses seguintes, segundo fontes oficiais oeste-alemães (Comité dos Refugiados Sudetas, tomo II, pág. 86), morreram nos campos de trabalho em consequência de maus tratos ou de fome.

O extermínio dos alemães residentes na Jugoslávia foi levado a cabo, para começar, com uma série de matanças sem ordem nem método mas, posteriormente, com o apoio jurídico de uma legislação iníqua decretada pelo chamado «Comité Anti-fascista de Libertação da Jugoslávia», tornada pública em 21 de Novembro de 1944. Esse «Comité» foi presidido pelo próprio Marechal Tito e eram secretários do mesmo os judeus Moises Pijade e Jakob Rankowitz. Essas leis, entre outras coisas, determinavam que: a) Todas as pessoas de origem alemã que vivessem na Jugoslávia perdiam automaticamente a nacionalidade jugoslava, mesmo que os seus pais lá tivessem nascido. Perdiam igualmente a totalidade dos seus direitos civis e políticos.
b) Todos os bens, móveis ou imóveis, dessas pessoas, eram considerados como confiscados automaticamente pelo Estado, que assumia a sua propriedade.
c) As pessoas de origem étnica alemã não podiam reclamar qualquer direito civil ou político; não tinham direito de recorrer aos tribunais nem de utilizar as leis existentes para protegerem as suas vidas, pessoas ou bens.
Numa palavra, os alemães eram considerados «res nullius». Ao não serem amparados por lei nenhuma, qualquer um podia fazer com eles, literalmente, o que muito bem lhe apetecesse, desde roubá-los até matá-los. De facto, tinham ainda menos direitos que um cão vadio. Esta legislação infame, sem precedente nenhum na História da humanidade, era conhecida dos Aliados ocidentais, os autores das belas frases sobre a Liberdade e a Democracia. Winston Churchill tinha como embaixador pessoal itinerante junto de Tito o seu próprio filho, Randolph. Mas a legislação incrível que equiparava os alemães da Jugoslávia a menos que animais e os punha ao nível de «res nullius», isto é, de «coisas de ninguém», foi lida pelas emissoras da BBC londrina. O autor, então criança, recorda-se de ter ouvido, profundamente espantado, a leitura daqueles decretos imediatamente a seguir ao vibrante discurso dum mentecapto britânico que assegurava que se combatia para tornar em realidade a doutrina de que os homens são todos iguais.
Em consequência dessas leis e sua posterior aplicação, 250.000 alemães foram afastados da Humanidade. Quase todos eram camponeses, particularmente numerosos na região de Marienbad (Maribor). As suas terras, arados e alfaias, móveis, e até as roupas, foram-lhes arrebatados. Tudo o que tinham em cima do corpo tinham-no a título precário. A inovação mais grave instituída por essa lei era a proibição de pedir protecção aos tribunais ou às instituições do Estado, o que significava que os alemães não tinham direito de apresentar uma queixa e, muito menos, de ter a menor querela com alguém; significava também que não tinham direito a trazer consigo qualquer documento identificativo, nem mesmo o certificado de baptismo. Em qualquer momento podiam ser revistados por um cidadão jugoslavo e, sendo-lhes encontrado algum papel, incorriam em castigo. De facto, podiam incorrer em sanções sem motivo algum, pois, o facto de lhes estar vedada a apresentação duma queixa, expunha-os a todo o tipo de maus tratos, sem que a algum jugoslavo fossem pedidas contas por isso. Qualquer jugoslavo tinha jurisdição sobre eles e podia, simultaneamente, ser seu juiz e verdugo. Esta situação era agravada por uma propaganda oficial que fazia crer aos jugoslavos que, infligindo maus tratos aos alemães, realizavam um acto de patriotismo.
As leis de 21 de Novembro foram confirmadas por outra de 29 de Abril de 1945 que precisava que tais leis, além de se aplicarem a alemães ou descendentes de alemães residentes na Jugoslávia, se aplicavam igualmente a todo o alemão que se encontrasse na Jugoslávia por qualquer motivo, ou seja, essencialmente aos soldados alemães, assimilados igualmente na condição de «res nullius». Essas leis, falta dizê-lo, tinham por finalidade o extermínio maciço dos alemães residentes na Jugoslávia, o que veio a ser obtido por três métodos: liquidação maciça, deportação igualmente maciça e extermínio pela fome e trabalhos forçados nos campos de concentração.
As liquidações maciças tiveram lugar, quase totalmente, no período de anarquia que precedeu as leis de 21 de Novembro de 1944 e os seus autores foram os «partisans». Chegaram a exterminar aldeias e povoações inteiras. Depois das leis de 21 de Novembro, as liquidações maciças cessaram e foram substituídas por liquidações individuais permitidas pela lei, que «...expressavam a tendência para o sadismo, a que a nova legislação dava livre curso» (9 - Maurice Bardèche, «Crimes de Guerre des Alliés», pág. 29). Em 1948 terminaram as liquidações individuais; uma das suas últimas vítimas foi o conhecido Padre Adalberto Schmidt, beneditino, que tinha passado os últimos 12 anos da sua vida a opôr-se ao Nacional-Socialismo por razões que qualificava de teológicas. O Padre Adalbert, que acreditava cegamente na igualdade dos homens, morreu às mãos dos seus «iguais» jugoslavos que, durante horas seguidas, o estiveram a espancar.
O caso é que em 1948 já muito poucos alemães restavam vivos na Jugoslávia: apenas 42.000 que, finalmente, foram enviados para a União Soviética como «mão d’obra», isto é, como escravos. E foram mandados no inverno, a pé, o que faz supor que muitos deles terão morrido pelo caminho. Seja como for, o certo é que nunca mais se soube do seu destino final. Do total da colónia alemã que habitava na Jugoslávia quando começou a guerra, composta por umas 250.000 pessoas, só conseguiram salvar-se, fugindo para a Áustria ou entregando-se às tropas norte-americanas e inglesas, uns 10.000.
Nos últimos dias da guerra, já em Maio de 1945, uns 80.000 soldados alemães renderam-se aos ingleses na Áustria e foram internados num campo de concentração em Karntern. Quase ao mesmo tempo chegaram a esse campo os restos do Exército croata (uns 290.000 oficiais e soldados que se tinham rendido aos ingleses e americanos). Em 17 de Maio, todos esses 370.000 soldados foram entregues a Tito.
Há que ter presente que esses soldados, prisioneiros de guerra e membros de exércitos regulares, estavam amparados pelas Convenções de Genebra e de Haya e, por conseguinte, tinham direito a um tratamento correcto. Não obstante, durante os três primeiros meses que se seguiram ao final da guerra, foram liquidados sem qualquer acusação e sem nenhum processo, quer por meio de matanças sistemáticas nos arredores de Bleiburg (10 - Eduardo Augusto Garcia, «A Tragédia de Bleiburg»), quer nas «marchas da morte», de Maribor a Ursac. Com efeito, foi possível observar durante a última guerra que os comunistas praticavam uma técnica determinada de extermínio que consistia em fazer marchar, em estrada ou através do campo, grandes massas de população que queriam destruir. Verificou-se que tal técnica, largamente utilizada pelos comunistas russos, foi adoptada igualmente pelos jugoslavos e, concretamente, pelos sérvios.

A TRAGÉDIA DE BLEIBURG - O massacre horrendo dos prisioneiros croatas e alemães em Bleiburg ficou conhecido correntemente como a «Tragédia de Bleiburg». Os cadáveres desses 370.000 soldados entregues a Tito pelos ingleses e americanos vieram a ser encontrados em enormes fossas colectivas: em Maribor (Marienbad), uns 40.000 cadáveres; em Kcevje, aproximadamente 30.000 cadáveres; em Bleiburg, 40.000 cadáveres, horrorosamente mutilados; em Kranj, 2.500 cadáveres; em Saint-Vid (Teskoselo), 25.000; em Potudik, 2.000; em Huda Luknja, cerca de 16.000; em Bezigrad, 2.000; em Hrastkik, 7.000; em Lasko, 3.000; em Reichelburg, 1.000; em Kostenjevica, 7.000; em Crna, 3.000; em Kamnik, 1.000; em Zagreb, 11 enormes fossas contendo uns 80.000 cadáveres; em Cracano, 2.000 cadáveres; em Sosice, 3.000; em Vrgin Most, 7.000; em Dubocac, 2.000; em Patravski-Klostar, 2.000; em Virovitica, 2.000; em Butmir-Kasindon, 2.000; em Kravarski, 5.000; em Bjelovar, 8.000; em Nasice, 4.000; em Backi Jarsi, 5.000; em Vrach, 2.500 cadáveres...87.
Eis-nos diante dum super-Katyn que, pela sua crueldade e aterradora extensão, é absolutamente único. Essas fossas colectivas estendem-se sem interrupção desde a fronteira austro-jugoslava até à fronteira jugoslavo-romena. O governo jugoslavo nunca conseguiu negar a veracidade destes factos. Quando o «Comité de Investigações sobre a Tragédia de Bleiburg», presidido pelos professores universitários americanos John Porcela e Joseph Hesimovic, denunciou o caso de Bleiburg às Nações Unidas, o delegado jugoslavo respondeu cinicamente que os mortos havia que enterrá-los e que, por isso mesmo, se tinham encontrado tantas fossas com cadáveres em território jugoslavo.
Resta-nos acrescentar apenas que os principais acusados pelo referido Comité de investigações sobre a tragédia de Bleiburg foram Koca Popovic e Dusan Kvedr, àparte, naturalmente, o Marechal Tito. Pois bem: Popovic foi Ministro dos Negócios Estrangeiros da Jugoslávia e Kvedr Embaixador da Jugoslávia em Bona. Não há dúvida: quando são os «Bons» a mandar, o Crime paga bons dividendos!... Um exemplo mais: o «general» «partisan» Holjevac, especialista no extermínio de soldados e civis italianos na zona de Trieste, foi nomeado governador-civil de Zagreb!...

De acordo com o Plano Morgenthau, foi decidido entregar aos soviéticos o maior número possível de anti-comunistas. Desta maneira se concebeu a «Operação Keelhaul» (Keelhaul significa, em inglês, «castigar um cordeiro atando-lhe uma corda à cauda e arrastando-o de um lado para outro; costume bárbaro divulgado no médio e extremo Oeste americano» - Enciclopédia Chambers do Século XX). De acordo com o seu programa, os comandos militares Aliados deviam aceitar a rendição de todas as unidades especificamente anti-comunistas, devendo mesmo prometer-lhes o tratamento e o respeito reservados aos prisioneiros de guerra e a garantia de não serem entregues aos soviéticos.
Na Frente do Leste lutaram, única e exclusivamente contra o Comunismo, soldados procedentes de todos os países da área racial branca, voluntários alistados nas SS, quer se tratasse de prisioneiros de guerra ocidentais, quer procedentes de países neutrais. Assim, houve uma Legião de S. Jorge, formada por ingleses e americanos; uma Brigada Charlemagne, de franceses; uma divisão Wallonie e outra da Flandres; unidades croatas, eslovenas, estonianas, letónias, polacas, norueguesas, dinamarquesas, holandesas; e mesmo espanholas e portuguesas. Houve, como dissemos, representantes de todos os povos da Rússia: ucranianos, georgianos, bielorrussos, cossacos, tártaros da Crimeia e azeris; houve um batalhão arménio e - «rara avis» - muçulmanos brancos da Índia. Muitos sobreviventes destas unidades conseguiram fugir e abrigar-se sob céus mais clementes, enquanto outros foram condenados a prisão ou a trabalhos forçados ao chegarem às suas pátrias respectivas libertadas. Mas a grande maioria foi entregue aos soviéticos, de acordo com os termos da abjecta «Operação Keelhaul».
Vejamos alguns parágrafos de um artigo publicado na mundialmente conhecida revista «Selecções do Readers Digest» que, evidentemente, nem a mais fantasiosa imaginação conseguiria rotular de anti-democrática ou anti-americana: «Ao finalizar a contenda, os Aliados ocidentais forçaram o regresso ao seu país duns 2 milhões de russos que tinham sido capturados pelo Exército alemão ou se tinham evadido da URSS no decurso da guerra. O que aconteceu àqueles desventurados faz parte dum dos episódios mais horripilantes da mais sangrenta guerra da História. Milhares de russos decidiram suicidar-se antes de regressarem à pátria. Contingentes enormes foram transportados à força para território dominado pelos russos. Um elevado número daqueles prisioneiros devolvidos foram executados imediatamente pelos membros da MVD (polícia secreta russa). Outros foram enviados para Moscovo para serem submetidos a julgamentos maciços e logo executados. Soube-se que um general russo que tinha caído prisioneiro foi decapitado e que a sua cabeça se expôs em Moscovo como troféu. A maioria dos restantes prisioneiros foram despachados para campos de trabalhos forçados na Sibéria e nunca mais se ouviu falar deles».
«Ao terminar a II Guerra Mundial, os Aliados ocidentais descobriram que mais de dois milhões de russos, ex-prisioneiros dos alemães, lutavam ao lado da Wehrmacht contra as tropas soviéticas. As forças alemãs tinham consigo todo um exército russo às ordens do General Andrei Vlassov. Centenas de milhares de prisioneiros fugitivos foram encurralados. Quase todos se mostraram abertamente contrários ao seu reenvio para a Rússia. A sorte destes russos libertados foi, no entanto, decidida por uma ordem do Comando Supremo Aliado, emitida pouco depois da Conferência de Yalta, na qual se dispunha que todos os russos libertados fossem transferidos quanto antes para a autoridade soviética. A repatriação, forçada e em grande escala, começou em Maio de 1945».
«Centenas de milhares de russos tentaram iludir o regresso forçado à sua pátria e dezenas de milhares suicidaram-se quando começou a ser posto em prática. Quando iam a caminho da Áustria para serem repatriados, cerca de 1.000 russos atiraram-se das janelas dos combóios quando cruzavam uma ponte dos caminhos-de-ferro alpinos sobre um profundo desfiladeiro próximo da fronteira austríaca. Todos morreram. Na cidade austríaca de Linz houve outra onda de suicídios e foram muitos os que pereceram afogados no rio».
«Seguiram-se outras sete repatriações em massa da Alemanha. Em todas houve tentativas colectivas de suicídio. Os enforcados eram os mais numerosos. Quando chegavam as autoridades russas que deviam encarregar-se dos repatriados, era frequente que estes corressem para as igrejas até esgotar a capacidade dos templos. Testemunhas norte-americanas contam que as autoridades soviéticas procuravam invariavelmente os russos libertados, arrastavam-nos para a rua e espancavam-nos antes de os chacinarem nos veículos de transporte».
«Outros ex-prisioneiros russos foram levados para a Inglaterra, carregados como gado em embarcações com destino a Odessa, na Rússia. Houve outra vaga de suicídios. Em certa ocasião foram necessários três dias para conseguir desalojar os russos do navio, tendo sido necessário arrastá-los dos esconderijos onde se tinham refugiado».
«Alguns dos russos libertados poucos dias depois do Dia-D (desembarque na Normandia) foram levados para os Estados Unidos e internados em acampamentos do Estado de Idaho. Poucos queriam ser repatriados, mas não tardaram a ver-se a bordo de navios russos na costa norte-americana do Pacífico; esses homens tiveram que ser tirados das suas cabines com gases lacrimogéneos para serem embarcados».
Refere-se no mesmo artigo que, até ao verão de 1947, todos os desertores do Exército Vermelho eram entregues pelos ocidentais aos soviéticos, sabendo bem que iriam ser fuzilados dentro de dias. Em última instância, os responsáveis por estas ordens iníquas foram o Presidente Truman, o Primeiro-ministro Attlee e o General De Gaulle.
Há que ter em conta que os russos devolvidos à URSS pela força se dividiam em cinco categorias de pessoas: a) Voluntários anti-soviéticos alistados nas SS procedentes da zona da Rússia e da Ucrânia ocupada pela Wehrmacht.
b) Voluntários anti-soviéticos alistados nas SS procedentes dos campos de concentração para prisioneiros, de origem étnica russa, ucraniana ou de qualquer outra das regiões brancas da Rússia.
c) Voluntários anti-soviéticos que trabalhavam como auxiliares da Wehrmacht, especialmente nos serviços de Intendência, procedentes das regiões não etnicamente brancas da URSS.
d) Uns 150.000 russos «brancos» que tinham saído da Rússia durante a revolução de 1917 e se haviam refugiado na Europa. A maior parte deles eram apátridas ou tinham assumido nacionalidades de países ocidentais, principalmente a francesa. Apoiavam de diversas maneiras a acção anti-comunista da Alemanha.
e) As famílias dos indivíduos agrupados nas alíneas a), b) e c).
No total, algo superior a 2 milhões de pessoas cuja sorte foi, no melhor dos casos, a deportação para a Sibéria até morrerem de frio ou inanição. Nos casos mais correntes, o pelotão de execução, depois de torturas e humilhações prévias em muitos casos.
O caso doutros europeus entregues pelos ocidentais aos comunistas para serem executados não é, numericamente, tão importante como o dos russos, mas , se é possível, foi mais desumano ainda. O caso dos croatas, sobretudo, foi dantesco: 37 generais, 167 oficiais, cerca de 5.000 suboficiais e 200.000 soldados croatas, acompanhados duma massa de civis igualmente croatas que fugiam do paraíso da Jugoslávia de Tito, tinham-se concentrado no vale do Drava, na Carintia e Tirol Meridional, colocando-se sob a protecção dos ingleses. O Alto Comando britânico propôs-lhes três soluções: regressar ao seu país, emigrar para outros países que quisessem admiti-los ou permanecer na Alemanha ou na Áustria como refugiados. No entanto, em 23 de Maio de 1945, de acordo com o programa do «Plano Keelhaul», decidiu-se a entrega de todos eles, juntamente com as suas famílias. A pouco dignificante execução foi entregue ao comandante da 11ª Divisão Couraçada britânica. Os comandantes croatas foram convidados a apresentarem-se no Quartel General inglês, em Spittal-Lienz, a pretexto de participarem numa conferência sobre a organização da Intendência croata e a transferência dos refugiados croatas para campos britânicos. Acreditando nas promessas que tão solenemente lhes tinham sido feitas, os oficiais e generais croatas responderam docilmente ao convite inglês. Uma vez chegados ao local estabelecido, foram imediatamente detidos e entregues aos emissários jugoslavos que já os aguardavam. Todos os generais, oficiais e comandos civis croatas foram executados no acto na zona britânica da Áustria por comunistas que nem sequer se deram ao cuidado de ocultar tais intenções. À entrega dos comandantes e oficiais seguiu-se a entrega dos soldados e cerca de 35.000 mulheres, crianças e outros civis. No cúmulo do desespero, os croatas enviaram telegramas para todo o lado: a Truman, a Eisenhower, a Montgomery, a Churchill, a Attlee e ao Papa Pio XII. Tudo foi inútil. Ninguém fez o menor caso deles.
Nos imensos campos aonde tinham sido amontoados milhares de soldados, mulheres, crianças e velhos aparecia agora o terrorismo. Mas os terroristas não eram, desta vez, os sicários da polícia militar soviética, mas sim os de Sua Majestade britânica. As cenas produzidas foram espantosas. Homens que abriam as veias; mães que afogavam os filhos ou que os atiravam ao rio Drava; cenas incríveis de soldados croatas atacando desarmados os carros blindados britânicos, que abriam fogo e causavam a morte a milhares de inocentes que resistiam a serem enviados para os campos de tortura de Tito. Este espectáculo macabro durou dias inteiros. Croatas abatidos como cães raivosos pelas balas britânicas quando tentavam fugir, outros que se suicidavam para escapar à sorte talhada. Cenas semelhantes foram registadas nos outros campos de concentração onde se encontravam croatas, Mannheim, Dachau, Deggendorf, Platting, etc.
Aos croatas que não se tinham suicidado aguardava-os uma sorte horrível ao chegarem à Jugoslávia. Os mais destacados foram executados imediatamente. Os demais, sem distinção de sexo ou idade, foram destinados a trabalhos forçados por toda a vida. Segundo o escritor francês Fabrice Laroche, o número de croatas assassinados pelos esbirros de Tito em Maio e Junho de 1945 chegou aos 280.000 (Fabrice Laroche, «Traitement des Prisonniers de Guerre et des Troupes Desarmées», pág. 89) . Foi entregue um memorando à Cruz Vermelha Internacional que, por sua vez, o remeteu a Tito. Este nem sequer se dignou responder.

Particularmente dramático foi também o caso dos cossacos de Von Pannwitz, oficial alemão que comandava aqueles legendários esquadrões de cavalaria na Frente Leste. O general inglês Davis, a quem se renderam pessoalmente, deu-lhes a garantia, sob palavra de honra, de que em caso algum seriam entregues aos russos. Mas logo a seguir, com as pontas das baionetas, foram, efectivamente, entregues aos russos. 300 chefes e oficiais preferiram suicidar-se. O General Pannwitz, juntamente com os chefes principais dos cossacos, o Ataman Domanov e os generais Krasnov e Klytsch, foi executado em 27 de Janeiro de 1947. Se estes últimos três foram fulminados pelos soviéticos com o anátema da «traição à pátria soviética», do mesmo não podiam acusar Von Pannwitz. Não se sabe exactamente qual foi o pretexto esgrimido para executar o legendário general. Seja como for, a morte de Von Pannwitz pôs fim às execuções de chefes de unidades russas anti-soviéticas. Todos os outros já tinham morrido...

Alguns exemplos da libertação da Europa, depois de 8 de Maio de 1945: comecemos pela França e deixemos falar os próprios franceses: «Existe um campo de detidos sobre o qual se procurou guardar silêncio na nossa pátria. O campo de Estivaux. No dia seguinte à Libertação, foi criado um campo nas proximidades de Saint Rémy-sur-Durolle, no Departamento de Puy-le-Dome, para guardar todos aqueles - e aquelas - que, com razão ou sem ela, eram suspeitos de colaboracionismo com os alemães. Depressa chegaram a Estivaux várias centenas de detidos, presos ilegalmente e, na maioria dos casos, sem razões concretas e válidas. Vigiados por energúmenos armados até aos dentes com granadas e metralhadoras, os detidos não tardariam a saber que, no capítulo das ignomínias, certos franceses nada tinham a aprender dos torturadores da GPU... As mulheres foram as que, em primeiro lugar, serviram de diversão aos sinistros guardas. Depois de terem sofrido todos os ultrajes infligidos pelos brutos que as custodiavam, as desgraçadas foram submetidas a abomináveis torturas. Uma delas, originária de Saint Rémy-sur-Durolle, depois de ter sido mutilada, foi executada da seguinte maneira: arrastada para o meio do campo, foi insuflada com ar comprimido até que, ao rebentarem os intestinos, morreu no meio de sofrimentos atrozes. Não foi, ai!, a única vítima dos miseráveis verdugos que, tendo achado o jogo divertido, o repetiram em várias mulheres mais. Mas os verdugos não se contentavam em assassinar as suas vítimas; por vezes, levavam o sadismo ao ponto de convidá-las a participar em diversões preliminares como esta: meia dezena de pobres-diabos, mais mortos que vivos, eram arrastados até ao interior dum círculo formado pelos seus carcereiros e convidados, com a ponta das baionetas, a cavar rapidamente a sua sepultura. Quando o buraco se considerava suficientemente profundo, uma vítima designada por sorteio era precipitada no seu interior e a horda enlouquecida caía-lhe para cima, dançando aos saltos e vociferando durante horas. Quando os carcereiros se cansavam do espectáculo, a vítima era enterrada ali mesmo pelos seus companheiros» («Paroles Françaises», Paris, 27.3.1947).
«Umas 2.000 mulheres acusadas de colaboracionismo foram passeadas nuas pelas ruas principais de Paris no dia da Libertação. Algumas foram violadas e todas espancadas. Era corrente que lhes cortassem os pelos do púbis. Houve verdadeiras abominações» (Robert Aron - escritor judeu - «Histoire de l’Épuration»). Marcel Willard, membro do Partido Comunista francês, a quem o General De Gaulle tinha nomeado Ministro da Justiça, declarou numa entrevista em 1944: «Daqui para a frente, o signo da Justiça já não será uma balança, mas uma metralhadora». Este camarada-Ministro nomeou um advogado, membro do Partido, adjunto do Procurador Geral da República com o fim de assegurar as directivas daquele. O resultado desta nova concepção de Justiça é conhecido, apesar da conspiração de silêncio que os grandes meios de comunicação tentaram impôr. Segundo o Ministro do Interior, Adrien Tixier (Diário de Sessões da Assembleia Nacional, 4.11.1950), na França metropolitana houve, entre a «Libertação» e Fevereiro de 1945, umas 105.000 execuções sumárias de colaboracionistas. Este número não inclui senão cidadãos franceses lapidados. O número de soldados alemães prisioneiros, sumariamente executados, mais os soldados alemães e cidadãos franceses condenados à morte por «crimes de guerra» ou por «inteligência com o inimigo» não pôde ser apurado, ainda que se saiba que, só na Provença, mais de 50.000 soldados alemães e «traidores» franceses foram massacrados sem julgamento pelos «maquisards» (Sisley Huddleston, «France, the Tragic Years»). O escritor francês Jean Paulhan e o jornalista americano Donald Robinson acham este número muito modesto (Donald Robinson, «The American Mercury», Abril de 1946). Robinson crê que, na Provença, a realidade deve acercar-se dos 70.000 e, em toda a França, o número total deve ter sido o dobro deste...
A luta armada entre os Exércitos alemão e francês durou cerca de 10 meses; na prática, durou apenas 40 dias, entre Maio e Junho de 1940. Os dados oficiais de mortos franceses em consequência da guerra dão o número exacto de 318.671105. Pois bem, tomando em consideração os 105.000 executados sumariamente, mais os 50.000 (recorremos ao número mais baixo) linchados na Provença, mais os franceses vítimas dos raids terroristas da aviação aliada (uns 8.000), mais os franceses mortos por uma e outra facção nas lutas fratricidas entre gaullistas e pétainistas na Síria, Líbano, Madagáscar, Túnis, Argélia e África Equatorial, deduz-se que 2/3 dos mortos de nacionalidade francesa na guerra foram mortos por outros franceses e, eventualmente, pelos seus aliados ocidentais. De cada três franceses que morreram na guerra, dois foram enviados «ad patres» por outros franceses.

Quase ao mesmo tempo que na Polónia, os Estados do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, foram libertados. Na Lituânia, nos finais de 1945, em cada uma das 309 comunidades do país, foram assassinadas pelas patrulhas especiais da NKWD entre 50 e 60 pessoas, o que totaliza um mínimo de 15.500. Acrescentando-lhes as que foram massacradas em Kovno e em Vilna no dia da chegada das tropas vermelhas - dois verdadeiros festivais de sangue - pode calcular-se que uns 100.000 lituanos perderam a vida. Outros 40.000 foram deportados para o interior da Rússia, nas costas do Mar Branco, para as minas a norte dos Urais. As condições de trabalho desses desgraçados foram tão terríveis, que só muito poucos sobreviveram. Em consequência destas medidas, 34% da população lituana desapareceu em 1945. No seu lugar os russos colocaram tártaros desterrados da Crimeia.
Na Estónia a repressão, em termos quantitativos, foi, menos brutal. Contudo, os dados sobre as perdas estonianas são impressionantes: 60.000 mortos ou desaparecidos, num país com 1 milhão de habitantes. Os empregados e funcionários públicos foram obrigados a filiarem-se na chamada «Liga dos Sem Deus» - que os alemães tinham proibido e os ocupantes soviéticos voltaram a reimplantar. Particularmente odiosa foi a repressão anti-religiosa na Estónia. Foram fuzilados ou deportados para o Ártico uns 130 eclesiásticos, incluindo o bispo Rahamoggi. 45 igrejas foram queimadas ou destruídas e muitas mais sofreram danos consideráveis ou foram transformadas em armazéns do Exército Vermelho (Julian Keris, «Estónia, um País Condenado à Deportação»).
Na Letónia sucedeu o mesmo que na Estónia. Os membros da VII Divisão Lettland que não morreram em combate, foram exterminados em massa ao regressarem a casa. Os seus vizinhos e familiares, deportados. O número de deportados nesse país minúsculo ascendeu a 50.000 dos quais regressaram, 6 anos depois, procedentes do Mar Branco, uns 2.500. Os mortos passaram de 30.000 (Num artigo publicado no «Canadian Intelligence Service Bulletin», Maio de 1951, o exilado lituano, Dr. James Kaskelis, disse: «Havia só uns 3.000 comunistas nos países bálticos. Quase todos eram judeus e foram os instigadores e executores das matanças quando os russos chegaram»).
.Infinitamente cruel foi a repressão na Roménia. Foi executada por unidades especiais do Exército Vermelho e comunistas locais. À frente destes encontrava-se Anna Rabinsohn, aliás Anna Pauker, judia originária da Polónia e «olho de Moscovo» até 1952. O Marechal Antonescu, chefe do governo, foi enforcado, e, com ele, todos os seus ministros. Os funcionários de cargos administrativos de média e pequena importância foram condenados a longos anos de trabalhos forçados. Toda a elite do país sofreu as consequências da «Engenharia Social». Sendo obrigada a ceder à URSS a Bessarábia e a Bukovina, a Roménia foi amputada de quase um terço do seu território nacional. Para cúmulo, em Bucareste foi instalado um governo fantoche às ordens de Moscovo. Todos os cargos de alguma importância, com Anna Pauker à cabeça, foram ocupados por judeus. O «chefe» oficial era um romeno ariano, Petru Groza, casado com uma hebreia, mas tinha um papel meramente decorativo.
Como em todos os outros países do leste da Europa, a perseguição religiosa na Roménia foi odiosa. Todas as escolas religiosas foram encerradas, os seminários confiscados pelo Estado e a Acção Católica suprimida. A maioria dos sacerdotes que escaparam aos assassinatos foram enviados para campos de concentração, onde muitos sucumbiram...

Dentre os países do Leste, o que mais sofreu na depuração foi a Hungria. O sul do país foi ocupado inicialmente pelos bandos armados de Tito. 30.000 camponeses húngaros e 20.000 alemães morreram nas purgas das primeiras semanas. Todos esses desgraçados, depois de espancados e torturados sadicamente, foram internados em campos de concentração improvisados, onde nem sequer existiam instalações sanitárias. Segundo o escritor húngaro Louis Marschalko (World Conquerors, pág.121) foi-lhes misturado na comida vidro moído. Muitos morreram no meio de terríveis agonias. Os sobreviventes foram enviados a pé e em marchas forçadas para a URSS, e nunca mais se soube deles. No resto do país, ocupado directamente pelas tropas soviéticas, mais 230.000 pessoas, civis de raça magiar pertencentes à elite intelectual da Hungria, foram igualmente mandadas para a URSS juntamente com 600.000 soldados, prisioneiros de guerra. Dessas 830.000 pessoas só 400.000 regressaram ao cabo de vários anos, quase todas com a saúde irremediavelmente arruinada. Segundo os cálculos mais modestos, nas celas da rua Andrassy, nº 60, onde os comunistas tinham instalado a sua Tcheka principal, cerca de 50.000 pessoas foram torturadas até à morte entre 1945 e 1948. Perto de 1 milhão de mulheres húngaras foram violadas nas primeiras semanas da Libertação. Todos os membros do governo húngaro de Szallasy, Primeiro-ministro, incluindo ele próprio, foram enforcados (Louis Marschalko, «World Conquerors»). Falta falar da Libertação na Rússia. Os ucranianos, os tártaros da Crimeia, os alemães do Volga, os bielorussos, sofreram perdas tremendas em vidas humanas, única coisa que, realmente, se pode perder na URSS, onde o Estado omnipotente é o dono absoluto de tudo. Não há dados concretos e seguros. Na realidade, tais dados são impossíveis, pois a depuração continuou interminavelmente. Ainda há poucos anos se lia nos jornais que em determinado lugar da URSS - geralmente na Ucrânia - fora executado um cidadão soviético acusado de simpatizar com os «nazis» ou de fazer parte de algum dos movimentos nacionalistas anti-russos ou anti-soviéticos. A matança continuou durante muitos anos e nunca se deteve. Era a dinâmica do Bolchevismo. Havia que depurar continuamente. Havia que matar, para que vivesse o frio monstro soviético. Le Figaro (J. P. Dujardin, «Le Cout du Communisme», «Le Figaro», Paris), assegura que entre 1959 e 1978, foram executadas na URSS, no mínimo, 3 milhões de pessoas.
Quantas foram mortas na primeira e tremenda depuração que se seguiu à retirada da Wehrmacht? Provavelmente, não se saberá nunca...

A noção duma carência alimentar mundial foi divulgada pela primeira vez no Norte de África em 1943 pelo general Hughes. Escreveu ele em Abril de 1945: «Começa a falar-se duma carência alimentar mundial. Eu falei dela há muito. Começou no NA (Norte de África)» (1 - Diário de Hughes, 11.04.1945). Na altura, e mesmo depois, a carência não era de alimentos. No território hoje conhecido como Alemanha Ocidental, a população era, em Maio de 1945, inferior em 4% aos valores que tinha no mesmo território em 1939, embora a população alemã estivesse a aumentar diariamente com o influxo de refugiados vindos do leste (2 - A população conjunta das Zonas britânica, francesa e americana em 1 de Janeiro de 1946 era de 40.311.000, comparada com 39.351.000 em 1939. Cerca de 2.493.000 tinham chegado como refugiados depois de 8 de Maio de 1945. Assim, a população em Maio de 1945 era aproximadamente de 37.818.000, ou seja, cerca de 1.533.000 - 4% - menos que em 1939. Malcolm J. Proudfoot, «European Refugees 1939-52», quadro 40). Havia muito mais trigo disponível no território formado pela Alemanha Ocidental, França, Grã-Bretanha, Canadá e EUA no seu conjunto, do que a msma área física possuía em 1939. Isto devia-se ao facto do aumento da produção de trigo na América do Norte e no Reino Unido compensar largamente a quebra de produção na Alemanha Ocidental e na França. No final das safras de 1943-44 de 1944-45, os excedentes de trigo do Canadá ultrapassavam os 440 milhões de alqueires. Nos EUA passava-se o mesmo: havia também grandes excedentes de milho. A produção de batata diminuiu relativamente pouco no conjunto daquele território, sendo essa diminuição principalmente causada por uma quebra de 30%, em 1945, na zona ocidental da Alemanha (3 - O aumento de produção de trigo em 1945 relativamente a 1939 na área conjunta referida foi de 12.100.000 toneladas. Este aumento foi quase o triplo da carência total de 1 ano na Alemanha em 1945. Os excedentes citados foram registados depois de terem sido alimentados todos os outros europeus do ocidente. Relativamente ao milho, o aumento global foi de 7.400.000 toneladas. A carência total franco-germânica - 1939 menos 1945 - em batatas em 1945 de cerca de 17.000.000 de toneladas foi parcialmente compensada por um aumento conjunto da América do Norte e Reino Unido de 7.000.000 de toneladas. Os números relativos à produção foram retirados de B. R. Mitchell, International Historic Statistics: The Americans and Australasia, 1750-1975 - Macmillan -. Os números relativos aos excedentes de trigo provêm do Conselho Internacional do Trigo, Haymarket House, Haymarket, Londres, 1955). Não obstante, em França, a produção de trigo em 1944 excedeu em 500.000 toneladas o consumo (4 - General McSherry, do Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force, ao juiz Rosenman, 15.03.1945. Nos Documentos Rosenman, Hyde Park. A colheita belga de trigo de 1944 foi normal ). Tal como Churchill observou a Roosevelt em Março de 1945, não havia carência geral de trigo, embora grande parte da população europeia tivesse falta de açúcar, carne e algumas gorduras (5 - Churchill a Roosevelt, C911, 16.03.1945. Em «Churchill and Roosevelt, the Complete Correspondence» - Princeton University Press, 1984 - vol. III, pág. 570). À escala mundial, a produção de alimentos relativa à safra de 1945-46, expressa em calorias per capita, representava 90% da média registada em 1935-39, de acordo com os dados fornecidos pelo gabinete de Relações Agrícolas Externas dos EUA em Outubro de 1945 (6 - Os números mundiais de alimentos são retirados de John C. Campbell, «The United States in World Affairs», Nova Iorque, pág. 323).(pág. 56)

Uma das desculpas apresentadas pelos apologistas dos EUA e da França é que, por estarem tão atarefados a constituir o governo militar na Alemanha ou a redistribuir soldados, os homens do topo da hierarquia não sabiam o que estava a acontecer nos campos. Que isso é uma tolice, torna-se desde logo evidente; era seu dever saberem-no, e o próprio Clarck, que nem sequer era responsável, soube-o passadas poucas semanas de ter assumido o cargo na Áustria. Em qualquer caso, Eisenhower sabia-o e nada fez. Temos conhecimento disso graças ao memorando duma entrevista entre um inquiridor do exército americano e o Dr. Konrad Adenauer, que viria ser Chanceler da Alemanha (1 - Relatório nº T 264, Opiniões de Konrad Adenauer, 22 de Junho de 1945. RG 266 (OSS) OSS R&A, XL 12708, USNA, Washington. Gentileza do Prof. Peter Hoffmann, McGill University, Montreal). Esse documento, descoberto uns meses após a primeira edição de «Other Losses», relata uma entrevista feita em Junho de 1945 pelo exército americano ao Dr. Adenauer, que deplorou em termos muito vigorosos os campos da morte americanos ao longo do Reno. Disse ele: «Alguns dos prisioneiros de guerra alemães estão detidos em campos em condições que contrariam todos os princípios humanitários e violam flagrantemente as Convenções de Haya e de Genebra. Ao longo de todo o Reno, de Ramagen-Sinzig a Ludwigshafen, os prisioneiros alemães foram encurralados durante semanas sem qualquer abrigo, sem água potável, sem cuidados médicos e apenas com umas poucas fatias de pão para comer. Nem sequer se podiam deitar no chão. Eram muitas centenas de milhares. Diz-se que o mesmo se passou no interior da Alemanha. Estes homens morreram aos milhares. Passavam dia e noite de pé enterrados até aos tornozelos na lama molhada. As condições melhoraram nas últimas semanas. Claro que uma das causas destas condições é o número enorme de prisioneiros, mas deve notar-se que, tanto quanto sei, foram precisas muitíssimas semanas para minorar pelo menos as piores condições (págs. 234-235)

No seu Relatório Mensal do Governador, Eisenhower diz também que estes 132.262 prisioneiros DEF (Disarmed Ennemy Forces) que figuram sob o título «Outras Perdas» tinham sido transferidos havia muito da Alemanha para a Áustria. No entanto, o comissário americano na Áustria, o general Matk Clark, publicou em Novembro de 1945 um relatório onde consta o número de DEFs que tinham entrado na Áustria em Agosto de 1945 (Clark não estava encarregado dos campos quando se deu esta alegada transferência, mas era responsável pelo controle das fronteiras e, por conseguinte, tinha que saber e comunicar o número de travessias do limite americano por várias pessoas. Relatório do Comissário americano, Governo Militar da Áustria, Novembro de 1945. The Citadel, Charleston, gentileza de Jane Yates, arquivista). O número de DEFs transferidos da Alemanha para a Áustria em Agosto de 1945 era de 17.953. Eisenhower diz que foram transferidos; Clark refere que a maioria deles nunca chegou à Áustria. 114.000 homens já não estavam na Alemanha, não chegaram à Áustria e não podiam ter fugido todos. Há apenas uma maneira de partir dum sítio e não chegar a nenhum outro, que é morrer. Não existe outra possibilidade. Assim, por intermédio de Eisenhower e Clark, temos provas que até as transferências classificadas na rubrica «Outras Perdas» escondiam uma enorme proporção de mortos. Neste caso, 87% dos «transferidos» estavam mortos (7) (pág. 231).

Do ponto de vista dos alemães, esta estratégia equivalia a confiar milhões de soldados alemães aos Aliados Ocidentais, sob a chefia do comandante militar supremo, o general Dwight Eisenhower, que, na sua opinião, viriam a ser mais clementes. Dado, porém, o feroz e obsessivo ódio do general Eisenhower, não só ao regime nazi, como aliás a tudo quanto fosse alemão, esta esperança era, na melhor das hipóteses, uma jogada de desespero. Mais de cinco milhões de soldados alemães foram encurralados em cárceres de arame farpado, na sua maioria a acotovelarem-se literalmente uns contra os outros. Não tardou que o solo que pisavam se tornasse um atoleiro de imundície e doenças. Expostos às condições climatéricas, sem disporem sequer das instalações sanitárias mais toscas, subalimentados, em breve os prisioneiros começavam a morrer de inanição e doenças. A partir de Abril de 1945, o exército dos EUA e o exército francês aniquilaram indiferentemente cerca de um milhão de homens, a maioria dos quais em campos americanos. Desde os horrores da prisão de Andersonville, administrada pelos Confederados durante a guerra civil americana, nunca semelhantes crueldades tinham ocorrido sob controle militar dos EUA. Durante mais de quatro décadas, esta tragédia sem precedentes permaneceu oculta nos arquivos dos Aliados (Dr. Ernest F. Fisher Jr., coronel na reserva do exército dos EUA, no Prefácio do livro de J. Bacque).

20 de Abril foi um dia de rajadas, com alternância de chuva, granizo e neve e ventos de gelar os ossos a soprarem do norte pelo vale do Reno fora sobre a planície onde se situava o cercado. Acotovelando-se uns contra os outros para se aquecerem, via-se por detrás do arame farpado uma visão aterradora: cerca de 100 mil homens macilentos, apáticos, sujos, magros e de olhar vazio, enroupados em sujas fardas cinzentas de campanha, de pé, com a lama a dar-lhes pelos tornozelos. Aqui e além havia sujos borrões brancos que, olhados mais de perto, se via serem homens de cabeça ou braços amarrados ou de pé em mangas de camisa! O Comandante de Divisão alemão comunicou que os homens não comiam há pelo menos dois dias e que a ração de água era um dos maiores problemas; no entanto, a escassos 200 metros de distância, o rio Reno corria cheio até às margens (1 - «Relatório duma visita a um campo do exército dos EUA para prisioneiros de guerra alemães» pelo coronel James B. Mason, corpo médico dos EUA, e coronel Charles H. Beasley, corpo médico dos EUA, em «Disposições Médicas para Prisioneiros de Guerra em Massa», inicialmente publicado em «The Medical Surgeon», vol. 107, nº 6, Dezembro de 1950, pág. 437) - Testemunho do coronel James B. Mason do exército dos EUA (pág. 68).

Em Abril de 1945, centenas de milhar de soldados alemães, bem como os doentes dos hospitais, amputados, auxiliares femininas, e civis foram aprisionados... Um internado em Rheinberg passava já dos 80, outro tinha 9 anos de idade... A fome canina e a sede torturante eram as suas companheiras, e morriam de desinteria. Um céu cruel fustigava-os semana após semana com torrentes de chuva... Amputados arrastavam-se como anfíbeos pela lama, encharcando-se e gelando. Nus ao relento dia após dia e noite após noite, jaziam desesperados na areia de Rheinberg ou dormiam exaustos até à eternidade nos seus buracos que aluíam (1 - Heinz Janssen, «Kriegsgefangenen in Rheinberg», cidade de Rheinberg, Alemanha, não paginado, 1988) (pág. 68).

As latrinas eram simples troncos atravessados sobre fossos contíguos às cercas de arame farpado. Para dormir, a única coisa que podíamos fazer era cavar com as mãos um buraco no solo e depois agarrarmo-nos uns aos outros no interior do buraco. Estávamos muito apertados. Devido às doenças, os homens tinham que defecar no solo. Não tardou que muitos de nós estivéssemos demasiado fracos para despirmos as calças primeiro. Por conseguinte, tínhamos as roupas infectadas, assim como a lama onde éramos obrigados a andar, sentar e deitar. A princípio não havia água, a não ser a das chuvas; depois, ao cabo dum par de semanas, conseguimos obter alguma água duma bica. Mas a maioria de nós não possuía nada onde recolhê-la, de forma que apenas podíamos beber umas goladas depois de horas em bicha, por vezes mesmo pela noite dentro. Tínhamos que caminhar por entre os buracos na terra mole acumulada pela escavação, de maneira que era fácil cair num buraco, mas difícil sair dele. Nessa Primavera, a chuva era quase ininterrupta ao longo daquela zona do Reno. Mais de metade dos dias tínhamos chuva. Mais de metade dos dias não tínhamos comida alguma. Nos restantes, obtínhamos um pouco de ração K. Eu via pela embalagem que nos davam um décimo das rações que distribuíam ao pessoal deles. Assim, no final recebíamos talvez 5% duma ração normal do exército americano. Queixei-me ao comandante americano do campo de que estava a violar a Convenção de Genebra, mas ele limitou-se a dizer: «Deixe lá a Convenção. Vocês não têm direitos nenhuns» (1 - Entrevistas do autor 1987-88, com Von Luttichau, de Washington, DC). Em poucos dias, alguns homens que tinham entrado saudáveis no campo, morriam. Vi os nossos homens arrastarem muitos cadáveres até aos portões do campo, onde eram atirados uns por cima dos outros para camiões, que os levavam dali (2 - A declaração de Charles von Luttichau, de Washington, feita ao autor em Maio de 1988, é confirmada por muitos outros prisioneiros. A Primavera chuvosa é confirmada por um diário de guerra do exército canadiano que inclui boletins meteorológicos para o norte da Alemanha relativos ao período. O rápido começo das mortes é confirmado pelo inquérito constante da História Médica do European Theatre of Operations referente a Maio-Junho. A distribuição de espaço é confirmada por vários relatórios do exército dos EUA sobre a superlotação dos cárceres do Reno na Primavera de 1945. A sugestão de valas comuns é confirmada por testemunhos decorrentes de descobertas do pós-guerra). Um rapaz de 17 anos que via a sua aldeia ao longe costumava postar-se a chorar junto da cerca de arame farpado. Uma manhã os prisioneiros deram com ele alvejado a tiro na base da cerca. O seu corpo foi amarrado pelos guardas e abandonado suspenso do arame, à laia de aviso. Os prisioneiros eram obrigados a passar junto ao cadáver. Muitos gritavam «Moerder, moerder (assassino, assassino) (3 - Gertrude Maria Shuster, «Die Kriegsgefangenenlager Galgenberg und Bretzenheim», Stadt Bad Kreuznach, 1985, págs. 40-41 ). Como retaliação, o comandante do campo retirou as magras rações aos prisioneiros durante 3 dias. «Para nós, que já estávamos mortos de fome e mal nos podíamos mexer de fraqueza, foi assustador; para muitos representou a morte» (4 - Gertrude Maria Shuster, op. cit.). Não foi esta a única vez que o comandante retirou as rações para castigar prisioneiros (pág. 70-71).

Entre os prisioneiros daqueles campos contavam-se crianças desde os 6 anos, mulheres grávidas e homens de mais de 60. Como não se mantinham registos nos campos de DEFs (Disarmed Ennemy Forces), e a maioria dos registos de POWs (Prisoners of War) foram destruídos nos anos 50 (1 - «Todos os documentos dos campos não pertencentes aos arquivos foram destruídos nos anos 50», disse Eddy Reese, arquivista-chefe, NARS, Washington. Entrevista com o autor, 1986.), ninguém sabe quantos civis estiveram presos, mas os registos franceses mostram que entre cerca de 100.000 pessoas que os americanos lhes entregaram supostamente para trabalhar se contavam 32.640 mulheres, crianças e idosos (2 - Relatório do capitão Julien do «Troisième Régiment des Tirailleurs Algériens»). O tenente-coronel Valentine Barnes, ao fazer o seu relatório sobre Bad Kreuznach, observou a 22 de Abril que «nasceu uma criança do sexo feminino a uma prisioneira de guerra do cercado A-3 (4 -). George Weiss, um mecânico de tanques, disse que o seu campo, no Reno, estava tão superlotado que «nem sequer nos podíamos deitar como deve ser. Tínahmos que passar toda a noite a acotovelarmo-nos uns aos outros. Mas o pior de tudo era a falta de água. Bebíamos a própria urina. Tinha um sabor horrível, mas que podíamos nós fazer? Alguns homens rojavam-se pelo chão e lambiam o solo para conseguirem alguma humidade. Eu encontrava-me tão fraco que já estava de joelhos quando finalmente obtivemos um pouco de água para beber. Sem água, penso que teria morrido. Mas o Reno estava mesmo ali do outro lado da rede. Os guardas vendiam-nos água através da rede, bem como cigarros. Um cigarro custava 900 marcos. Vi morrerem milhares. Levavam os cadáveres em camiões (3 - História da Secção do Preboste-geral, Advance Section Com Z, por Valentine Barnes. No Nars, Washington). À data, os cativos de Bad Kreuznach estavam a ser encafuados no campo a um ritmo superior ao triplo do projectado (4 - Entrevista do autor com George Weiss, de Toronto, 1988). Como o solo e as roupas estavam todos perigosamente infectados e as pessoas se encontravam já debilitadas, o facto de estarem continuamente apinhadas perto do arame farpado era extremamente perigoso. Registavam-se elevadas taxas de mortalidade por septicémia (envenenamento do sangue) nestes campos (5 - Barnes, pág. 4) (pág. 72).

Wolfgang Iff disse que na sua subsecção duns 10.000 homens em Rheinberg, todos os dias eram retirados 30 a 40 cadáveres (1 - Havia dez ou onze cárceres contendo cerca de 10.000 pessoas cada um, segundo Thelen. Entrevista, Novembro de 1987.). Fazendo parte do comando de enterros, Iff estava bem situado para ver o que se passava. Recebia comida extra para poder ajudar a arrastar os mortos da respectiva jaula até ao portão do campo, de onde os levavam em carrinhos de mão para grandes garagens de aço. Uma vez ali, Iff e a sua equipa despiam os cadáveres, partiam ao meio a placa de identificação, estendiam os corpos em camadas de 15 a 20, atiravam-lhes para cima dez pazadas de cal, acrescentavam mais camadas até formarem uma pilha de um metro de altura , colocavam os pertences pessoais num saco para os americanos e a seguir iam-se embora. Alguns dos cadáveres eram de homens que tinham morrido de gangrena após queimaduras pelo frio sofrido nas gélidas noites de Abril. Uma dúzia ou mais de outros, incluindo um rapaz de 14 anos demasiado fraco para se agarrar ao tronco atravessado sobre o fosso à guisa de latrina, caíu e afogou-se. Alguns eram arrastados cá para fora; a outros, atiravam-lhes terra por cima no local onde jaziam caídos. Por vezes chegavam a morrer 200 por dia. Noutras jaulas de tamanho semelhante Iff viu sairem cerca de 60 a 70 por dia. «Depois os camiões levavam aquele triste carregamento. Que visão macabra!», disse Iff (2 - Duma entrevista com Iff, Novembro de 1987. Também de Janssen, pág. 468). Os prisioneiros nunca souberam o que acontecia aos cadáveres, mas as equipas alemãs de construção dos anos 50 e os coveiros dos anos 80 descobriram em Rheinberg restos mortais com placas de identificação de alumínio do exército alemão da II Guerra Mundial desordenadamente amontoados sem vestígios de caixão ou marca tumular (3 - Fonte: conversa do autor em Rheinberg com o arquivista municipal Heinz Janssen. Também com o guarda do cemitério municipal. Igualmente, carta ao autor do WASt, Berlim, incluindo fotocópia da carta de 7.01.1966 do arquivista municipal de Rheinberg, a informar o WASt de que tinham sido descobertos no local do antigo PWTE de Rheinberg três conjuntos de ossadas humanas em campa rasa sem qualquer indicação, espaçadas de poucos centímetros, sem caixão nem marca tumular.). Os relógios e jóias tirados dos cadáveres eram fornecidos ao vasto mercado negro da Alemanha, segundo o ex-Procurador-geral dos Estados Unidos, Francis Biddle, que visitou o mercado negro da secção do Tiergarten de Berlim, dizendo à filha que «...era terrível... Havia vários milhares de pessoas a mercadejar. O nosso mecânico vendeu o relógio por 400 dólarese 5 pacotes de cigarros por 100 dólares cada. O nosso guia disse-nos ontem que ganhou 8.000 dólares a vender relógios e conseguiu passá-los ilegalmente para o país através do homem dos Serviços Secretos que estava na Conferência de Potsdam e ia comprar uma herdade no Michigan com esse dinheiro. Ao que parece, os relógios provinham de alemães mortos» (4 - Documentos de Francis Biddle. Apontamentos de Reunião, Documentos do Tribunal Militar Internacional, George Arents Research Library, Syracuse, Nova Iorque, no registo referente a 2 de Outubro de 1945. A data revela que os alemães mortos não podiam ser baixas em combate recentes. Em qualquer caso, as mortes nos campos franceses e americanos eram nesta data oito a dez vezes maiores que todas as baixas da Wehrmacht na frente ocidental durante os 4 anos de guerra anteriores. Ver Cap. 5, nota 52) (págs. 78-79).

A sordidez dos campos decorria da sordidez moral que poluía as mais altas patentes do exército. Estes oficiais eram tão cínicos em relação aos prisioneiros que, enquanto eles próprios redigiam os seus pressurosos memorandos - presumivelmente para alijarem as próprias culpas, se alguma vez lhas imputassem - os subordindos recusavam-se a deixar civis alemães levar comida aos prisioneiros dos campos (1 - Ernest F. Fisher ao autor, Maio de 1988. Isto foi também referido ao autor por alemães de Rheinberg. Foi parcialmente confirmado pelo Prof. Peter Hoffmann da MacGill University, que em 1945 vivia junto dum campo americano nas proximidades de Ulm, tendo visto o exército americano a queimar deliberadamente excedentes alimentares das mesas do refeitório, mesmo à entrada dum cárcere. «Era sobejamente sabido entre os alemães que a Cruz Vermelha nada podia fazer pelos prisioneiros», disse. Nunca viu os alemães levarem comida ao campo). O tenente Fisher ouviu dizer a várias mulheres alemãs que no Verão de 1945 lhes tinha sido negada autorização para levarem comida aos maridos, presos nos campos próximos de Frankfurt (...) Os famintos prisioneiros de três campos do exército dos EUA em Dietersheim, ocupados pelo exército francês em Julho de 1945, nunca tinham sido abastecidos a partir de fontes locais - que à data eram abundantes (2 - Ver Cap. 7). A proibição mais prejudicial, abrangendo todos os campos, foi imposta pelo Departamento da Guerra, relativamente ao envio de encomendas da Cruz Vermelha aos prisioneiros (3 - Descrito por E. W. Meyer, delegado do Comité Internacional da Cruz Vermelha em Washington, carta a Edwin Plitt, Departamento de Estado, 26.07.1945. Em 740.62114/11-2485, Estado). Esta proibição foi alargada por forma a abranger inclusivamente dádivas que os prisioneiros alemães nos Estados Unidos queriam fazer para ajudar a vestir e alimentar os prisioneiros dos campos da Europa. Os alemães nos EUA foram proibidos pelo Secretário do Tesouro, Frederick M. Vinson, de especificar que quaisquer ofertas que fizessem à Cruz Vermelha deveriam ser entregues nos campos de prisioneiros europeus (4 - Dunning, da Amcross, à divisão G1 do Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force, 29 de Maio. Em 383.6/6 Caixa 27, NARS, Washington. Ver também Huber ao Departamento de Estado, loc. cit. ) (págs. 96-97).

A breve nota do Departamento da Guerra segundo a qual 3 milhões de pessoas tinham estado detidas embora não tendo «estatuto militar reconhecido» encobre uma verdade arrepiante. Foram encurralados nesses campos milhões de civis, incluindo mulheres e crianças, que nunca tinham combatido. Segundo um oficial americano que na Primavera de 1945 conduzia a sua unidade em direcção a Chemnitz, muitos deles eram velhos do «Volksturm»: «Não encontrámos muitos soldados alemães. Quando éramos alvejados era, frequentemente, pela "guarda doméstica" (Volksturm) constituída por homens muito velhos que desistiam depois de dispararem uns quantos tiros para nos retardar... Capturámos muitos deles... O que lhes aconteceu, nunca o soubemos. Continuámos simplesmente a marcha» (1 - Carta do capitão Siegfriedt ao autor, Julho de 1990). Numa série de campos americanos havia secções inteiras destinadas apenas a mulheres, muitas delas acompanhadas pelas suas crianças de tenra idade. Em Attichy, o chamado «cárcere dos bébés» alojou em determinada altura 10.000 crianças que para lá tinham sido enviadas em duras condições de camião e de combóio. Isto afecta profundamente o nosso entendimento da declaração de Konrad Adenauer no Bundestag de que 190.000 civis das zonas de ocupação ocidentais, que estavam vivos no final da guerra, continuavam desaparecidos em 1950 (2 - Ver pág. 249). É muito provável que uma elevada proporção destes civis desaparecidos tivesse morrido sem disso haver registos nos campos americanos e franceses. Um oficial superior do exército que comandou um campo americano na França, o tenente-coronel Henry W. Allard do Corpo da Polícia Militar, escreveu um relatório recentemente descoberto sobre as condições em que se encontravam os prisioneiros em campos americanos da França de finais de 1944 até Maio de 1945 (3 - Memorando «Tratamento de Prisioneiros de Guerra na Zona de Comunicações» pelo tenente-coronel H. W. Allard, Junho de 1946, Arquivo, Fort Leavenworth, Kansas. Allard, duas vezes ferido em serviço com a 2ª Divisão de Blindados, comandou um campo de prisioneiros americano na França durante a guerra). Estes homens estavam prisioneiros na época em que se atingiram as melhores condições nos campos americanos da Europa. Segundo Allard, os únicos abastecimentos do exército enviados para estes campos eram rações. Tudo o mais - medicamentos, vestuário, combustível, equipamento de rancho, fogões - era recusado. Eram tão más as condições nestes campos que Allard, que esteve em Thorée les Pins, ficou horrorizado: «De Outubro de 1944 a Junho de 1945, eles esforçavam-se por estar à altura do problema quotidiano de lidar com os POWs (Prisoners of War) dispondo dum número insuficiente de praças e oficiais, mas também se debatiam com o facto de, além das existências limitadas de alimentos, não haver abastecimentos para prisioneiros de guerra. Comparados com as condições de vida dos campos de prisioneiros de guerra japoneses de que os nossos homens nos falam, os padrões dos campos de prisioneiros de guerra na Com Z da Europa são apenas ligeiramente melhores, ou iguais. Quanto às condições de trabalho e de tratamento, os nossos campos fizeram um esforço muito pronunciado para tratar os prisioneiros como seres humanos, na medida das suas capacidades». O problema, como sempre, era a carência de abastecimentos, uma política imposta de cima, relativamente à qual os escalões subordinados nada podiam fazer. A seguir à guerra, evidentemente, as condições tornaram-se bem piores. Martin Brech (4 - Não é fornecido o endereço de Brech ou de qualquer outro ex-guarda devido ao perigo de perseguição. Os estudiosos interessados podem escrever aos guardas pelo nome , ao cuidado do editor ou do autor), um guarda americano que esteve em Andernach durante a Primavera de 1945 referiu que 50.000 a 60.000 homens daquele campo estavam mortos de fome, a viver sem qualquer abrigo, em buracos no solo, tentando alimentar-se de ervas. Quando lhes fazia chegar subrepticiamente um pouco de comida pelo arame farpado, foi impedido por um oficial que se recorda de ter-lhe dito: «Não lhes dê comida; é nossa política não dar de comer a esses homens». Mais tarde, Brech fez-lhes chegar mais comida, foi apanhado e o mesmo oficial disse-lhe: «Se voltar a fazer isso, é fuzilado». Por «desporto», alguns guardas abriam os portões aos prisioneiros loucos de sede, que corriam para o Reno a fim de beberem. Metralhavam-nos em plena corrida. Brech viu corpos sairem do campo «às carradas, em camiões», mas nunca lhes disseram quantos eram, onde eram sepultados ou como. Andernach ficava na zona da Secção Avançada do exército, onde as condições eram descritas pela História Médica do European Theatre of Operations como significativas das condições em todos os campos americanos da Europa (ver apêndice 11). As recordações de Andernach perturbavam tanto Brech que, a seguir à guerra, tentou relatar a sua experiência a outras pessoas na pátria, mas ninguém acreditou nele, embora fosse professor de Filosofia num pequeno colégio universitário de Nova Iorque. Depois do colunista Patrick Buchanan ter descrito as revelações de «Other Losses», Brech escreveu uma carta ao «New York Post» a confirmar o que vira. Recebeu imediatamente telefonemas ameaçadores, a sua caixa de correio foi duas vezes destruída e vandalizaram-lhe o carro. Desde então, Brech continuou corajosamente a falar, mas as suas cartas ao «New York Times» sobre o assunto não foram publicadas, apesar de ele ter sido considerado crível por diversas cadeias de televisão, que transmitiram entrevistas com ele na Inglaterra, na Alemanha e nos EUA. Uma experiência paralela foi a de Merryl D. Campbell, que escreveu uma carta à revista «Time» a descrever uma atrocidade em massa que tinha testemunhado no sul da Alemanha. A «Time» reduziu a sua carta a um par de frases: «Testemunhei tratamentos cruéis praticados na Alemanha pelos americanos contra prisioneiros alemães durante a II Guerra Mundial. Como sargento americano, vi um soldado americano matar um oficial alemão por este se negar a desfazer-se do relógio e da aliança de casamento». Submeteram esta versão a Campbell, que os autorizou a publicá-la, apercebendo-se mal da importância histórica da distorção que lhe estavam a impor. Infelizmente, Campbell não ficou com cópia da carta original mas escreveu a sua experiência para este livro, como segue: «Neste campo aberto havia 10.000 ou mais prisioneiros alemães que se acotovelavam de pé. Chovia e caía granizo e um pouco de neve. Este grupo de prisioneiros esteve lá durante três ou mais dias sem comida, nem água, nem abrigo. Havia pouca consideração por aquela gente. Não havia civis alemães por ali perto. Quanto a comida e água, penso pessoalmente que lhes podia ter sido fornecida. A maior parte dos guardas era duma grande brutalidade. Como eu não estava encarregado desse campo, pouco podia fazer. Na manhã em que os prisioneiros foram transferidos, a minha companhia tinha ordens para partir, seguindo para Garmish, visto que ia deixar a área. Olhei para trás quando estavam a retirar os prisioneiros; a lama era funda até perder de vista. Viam-se aparecer cabeças, braços e pernas dos mortos no meio dela. Aquilo revoltou-me e repugnou-me. Noutros campos em que estive, os prisioneiros eram muito mal tratados» (5 - Campbell ao autor, Março de 1990. A carta à «Time» foi em Outubro de 1989. A edição internacional da «Time» publicou um extenso artido de uma página sobre «Other Losses» que era justo e equilibrado, descontando um rematado erro. A edição americana reduziu grandemente o artigo e alterou o tom para que o livro parecesse menos fidedigno). Um oficial americano que pediu o anonimato por recear represálias, disse: «As condições que o Snr. tão bem descreveu eram exactamente as que existiam em Regensburg, Moosburg e outros campos em toda a Baviera e Áustria. A morte e o bárbaro tratamento dispensado pelos guardas polacos sob as ordens de oficiais americanos era um lugar-comum» (6 - Entrevistas com o autor, 1990). Outro oficial, o capitão Frederick Siegfriedt, foi nomeado em Dezembro de 1945 responsável pelos prisioneiros num Destacamento Geral de Prisioneiros de Guerra, insuficientemente guarnecido e próximo de Zimming, no leste da França, onde havia cerca de 17.000 prisioneiros, todos presumivelmente das SS. Segundo Siegfriedt, o anterior comandante tinha sido exonerado do cargo devido a problemas psiquiátricos. O oficial médico do destacamento, o capitão L., era um amigo de longa data de Siegfriedt, que diz: «O capitão L. tinha sido toda a vida uma pessoa extremamente trabalhadora e conscienciosa. Era evidente que se encontrava sujeito a uma extrema tensão ao tentar suportar as condições no CCE 27 sem receber colaboração, auxílio, nem compreensão; estava desamparado e nem sequer tinha ninguém com quem falar. Eu consegui contribuir para satisfazer esta última necessidade. Explicou-me que a maior parte dos homens tinha disenteria e que sofriam de malnutrição. Disse-me que alguns homens dos cárceres chegavam a expelir fezes com sangue 17 vezes por dia. Levou-me a uma das antigas casernas francesas que serviam de hospital. Tinha 800 homens deitados por todo o lado, tanto nos frios pavimentos de cimento como em camas. Uma pessoa ficava absolutamente consternada ao ver aquilo... Quase sem excepção, os outros oficiais americanos tinham sido reclassificados devido a alcoolismo ou problemas psiquiátricos... O funcionamento do CCE 27 parecia significativo de todo o sistema. Quando o responsável dum recinto recebia um grupo de prisioneiros aos quais não sabia que fazer, ou que não podia tratar de outra maneira, expedia-os sem aviso prévio para outro recinto... Não faço ideia de quantos morreram ou onde eram sepultados. Tenho a certeza de que os americanos não os enterravam, e que não tínhamos «bulldozers». Só posso presumir que eram enterrados por um pequeno grupo de prisioneiros de guerra alemães. Eu podia espreitar pela janela do meu gabinete e saber se os corpos que eram transportados estavam vivos ou mortos, consoante ia ou não um quinto homem atrás, com os pertences pessoais do homem. O número atingia entre 5 e 25 por dia. A messe dos oficiais americanos ficava numa das casas francesas de dois andares. Tinha uma lotação de 42 pessoas e o encarregado era o chefe de mesa do paquete alemão de luxo «Europa». Embora habitualmente não houvesse mais de 6 ou 8 oficiais a comer ao mesmo tempo, havia sempre pelo menos o mesmo número de criados fardados. Ao tirar um cigarro do bolso para levá-lo aos lábios, imediatamente aparecia um criado a dar lume. As instalações eram decoradas completamente, isto é, pintadas de novo com murais para cada ocasião especial, ou seja, Natal, Ano Novo, dia de S. Valentim, dia de S. Patrício... Ao almoço havia música de câmara com 4 a 6 músicos, e ao jantar um coro de 15 a 20 constituído por estrelas das óperas de Munique e Berlim. Em suma, o pessoal americano dava muito mais importância a uma vida de luxo que ao funcionamento dos campos de prisioneiros» (7 - Carta do capitão Siegfriedt ao autor, Junho de 1990. Os números relativos a mortes estimados por Siegfriedt, de 5 a 25 por dia, representam uma taxa de mortalidade que vai de 53,5 a 10,7% por ano, ou seja, uma média de 32%, aproximadamente a taxa registada nos campos do Reno pelo relatório de Junho de 1945 do Corpo Médico do exército dos EUA). Siegfriedt tentou melhorar as condições dos prisioneiros subornando com cigarros guardas franceses locais de campos que tinham veículos em excesso, de forma a poder usar os seus camiões para surripiar feno nas proximidades «para tirar do chão os prisioneiros de guerra». Quando o tempo aquecia, continua, «os cárceres ficavam cheios de lama até dar pelos tornozelos. No entanto, isto eram medidas paliativas para grandes problemas que ninguém parecia em condições de enfrentar e com os quais, aliás, ninguém parecia importar-se». O capitão Sigfriedt conclui deste modo a sua carta: «Obviamente, nós, o exército americano, não estávamos preparados para lidar com tantos prisioneiros, mesmo quando eu entrei em cena, em Dezembro de 1945». O capitão Ben H. Jackson referiu que ao aproximar-se dum dos campos ao longo do Reno, «sentia o seu cheiro a uma milha de distância. Era bárbaro!» (8 - Conversa com o autor, 1989). O tenente Arthur W. von Fange disse que em Março de 1945 tinha visto cerca de 12 vagões fechados, cheios de homens, estaciondos num desvio próximo de Remagen. Ouviu gritos vindos do interior que, gradualmente, se foram extinguindo. «Imagino que nem três dias duraram», disse (9 - Conversa com o autor, Maio de 1990). Outra desculpa americana relativamente às condições prevalecentes nos campos é que a Alemanha se encontrava num tal caos no final da guerra, que esse sofrimento era inevitável. Por «caos» subentende-se, entre outras coisas, que o sistema de transportes tinha sido todo desmantelado (pelos americanos) e a maior parte da produção industrial fora encerrada (também pelos americanos). De facto, em 1944, a produção industrial da Alemanha situava-se a um nível 40% superior ao que tivera no próspero ano de 1938. Essa produção manteve um nível elevado mesmo durante o princípio do Inverno de 1945, excedendo provavelmente em cerca de 5% os valores de 1938 (10 - Michael Balfour, «Four-Power Control in Germany and Austria 1945-1946», Londres, Oxford University Press, 1956; e Gustav Stolper, «German Realities», Nova Iorque, Reynal and Hitchcock, 1948). Segundo o coronel Walter Dunn, que esteve à frente da rede ferroviária na rectaguarda do 3º Exército de Patton, quando os Aliados entraram no Reich o sistema de transporte ferroviário estava «em grande forma. Estava muito melhor do que esperávamos». Podia, em qualquer altura, movimentar o que quer que fosse e para onde quisesse. «Se alguém morreu à fome, não foi em consequência de falta de transportes» (11 - Conversa com o autor, 1990). Principalmente devido à política aliada de desmantelamento e reparações, a produção industrial baixou efectivamente cerca de 85% no Outono de 1945. Segundo um dos participantes numa reunião no comando de Eisenhower em Inglaterra, tudo isto foi motivado pela furtiva concretização do Plano Morgenthau. O proponente inicial de tratamento duro subjacente a este plano foi o general Eisenhower. Fred Smith, adjunto do Secretário do Tesouro, escreveu: «O Plano Morgenthau nasceu no sul da Inglaterra em 7 de Agosto de 1944, aproximadamente às 12.35 horas, numa tenda. Na realidade, foi o general Dwight D. Eisenhower que desencadeou o projecto... O assunto surgiu inicialmente ao almoço, na tenda que servia de messe ao general Eisenhower. Estávamos presentes o secretário Morgenthau, adjunto do Secretário Harry Dexter White, e eu. Withe falou da Alemanha, que era já certo que seria derrotada... Disse: «O que eu penso é que deveríamos dar a toda a economia da Alemanha uma oportunidade de assentar antes de tomarmos qualquer medida a esse respeito». Nessa altura Eisenhower assumiu um ar carrancudo e fez a afirmação que realmente despoletou o plano de privações para os alemães (Smith observa aqui que «esta matéria é tirada de apontamentos tomados imediatamente a seguir à reunião»). Disse ele: «Não estou interessado na economia alemã e, pessoalmente, não gostaria de a segurar, se isso tornr as coisas mais fáceis para os alemães». Disse que achava que os alemães mereciam castigo: «Os cabecilhas e as tropas das SS devem inquestionavelmente ser condenados à morte, mas o castigo não deve ficar por aí». Ele achava que o povo era culpado de apoiar o regime e isso fazia dele partícipe de todo o projecto alemão; pessoalmente , gostaria de «ver as coisas tornarem-se-lhes difíceis e bem difíceis por uns tempos». Fez notar que a conversa de perdoar facilmente à Alemanha depois de ter tratado dos chefes, vinha daqueles que temiam a Rússia e queriam fortalecer a Alemanha como baluarte potencial contra quaisquer desejos que a Rússia pudesse algum dia ter... O general declarou que não via interesse em tratar um paranóico com brandura e que «toda a população da Alemanha é um paranóico sintético». As pessoas foram ensinadas toda a vida a serem paranóicas nas acções e pensamentos, e temos que as obrigar a deixarem-se disso. A única maneira de o fazer é tratá-las com dureza a valer. Não vejo interesse nenhum em segurar a economia deles ou a tomar quaisquer medidas para os ajudar» (págs. 237-243).

Prisioneiros que tinham sido libertados em boas condições por Clarcke quando este era o comandante em Itália, foram novamente presos por oficiais sob o comando de Eisenhower e enviados para trabalho escravo na França. Todos os 1.000 homens da remessa de prisioneiros da Itália para a Baviera, nos quais se incluía Werner Waldemar, um cabo duma unidade da Cruz Vermelha, foram informados em Itália que iam ser libertados quando chegassem ao campo da Baviera. Todos eles receberam documentos de libertação. Todos eles estavam de boa saúde. Porém, só 8% - os mais velhos, os mais novos e os aleijados - foram efectivamente libertados. 92% dos prisioneiros foram metidos em comboios e enviados para trabalhos forçados na França (1 - Experiência de Werner Waldemar, de Toronto. Entrevista de Dezembro de 1990). Mais uma vez a Convenção de Genebra foi violada, visto que proibia especificamente os trabalhos forçados. É provável que isso tenha sido feito porque os oficiais de Eisenhower já não conseguiam encontrar nos seus próprios campos prisioneiros com suficiente aptidão física para corresponder aos requisitos mínimos do trabalho escravo em França (págs. 233-234)

Em finais de Outubro de 1946, o Comité Internacional da Cruz Vermelha relatou que «a situação actual é mais que alarmante. Mais de metade dos prisioneiros de guerra alemães a trabalhar estão insuficientemente agasalhados e não serão capazes de suportar os rigores dum inverno sem correrem os mais graves riscos de doença. Nessas condições há que contar com um elevado número de mortes no decurso do Inverno» (Relatório geral do CICV sobre os prisioneiros de guerra alemães, Paris, 31.10.1946. Em RG 332 DF 383-6, NARS, Washington). Igual tipo de relato foi repetido em 1947, com os mesmos lúgubres alertas (Memorando do coronel Whitted do exército dos EUA, de reunião do Comité Principal de Länderrat sobre Prisioneiros de Guerra, Stuttgart, 28.11.1947, citando o relatório do CICV de Meyer, do CICV. No Bundesarchiv, Coblenz, Alemanha Ocidental. Este documento, fotocopiado, como muitos outros do Bundesarchiv fornecidos pelo governo - ou o exército - dos EUA, dá notícia de acerbas críticas aos campos franceses. O autor não encontrou entre os documentos enviados pelos EUA para a Alemanha nada que contivesse críticas aos campos dos EUA, embora essas críticas sejam abundantes nos arquivos do exército francês de Vincennes). Os relatos de condições satisfatórias provinham habitualmente de oficiais do exército francês aos quais os altos escalões acabavam de pedir para responderem a acusações por parte de alguma organização exterior, como a Cruz Vermelha ou o exército americano. Apesar de tudo isto, o exército americano entregou pelo menos mais 101.000 prisioneiros no princípio de 1946. Os britânicos entregaram também outros 30.000 em Janeiro de 1946 (Série Y «Internationale», 1945-49, P0000149, Quai d'Orsay, Paris). Que os americanos sabiam que estavam a entregar esses homens à desgraça é manifesto nas queixas que o exército fez ao longo do período sobre o incumprimento por parte dos franceses dos seus compromissos anteriores no sentido de melhorarem as condições. «Devido à persistente inércia das autoridades francesas em corrigirem as deficiências para as quais lhes foi repetidamente chamada a atenção, mais se recomenda» que o exército procure conseguir que o Departamento do Estado corrija as deficiências a fim de satisfazer os requisitos da Convenção de Genebra , e repatrie também com brevidade os que acabam de ser transferidos (Ver nota 1, general John T. Lewis ao general comandante das forças dos EUA, Teatro de Operações Europeu). O general John T. Lewis, que escreveu isto, deve ter feito estas recomendações somente para cobrir os seus flancos a descoberto, porque não havia possibilidades dos franceses aceitarem críticas dos americanos por desrespeito da Convenção de Genebra. Não havia possibilidades de repatriarem com brevidade homens que tinham frequentemente dito que seriam recebidos para trabalhar, e não para serem devolvidos à pátria. Lewis estava evidentemente a procurar melhorar a imagem do exército americano: estava somente a repetir recomendações que tinham já fracassado. O primeiro débil indício do futuro envolvimento da América na guerra do Vietname surge nestes campos. Os franceses faziam deliberadamente os prisioneiros passar fome a fim de forçá-los a «oferecerem-se» para prestar serviço na Legião Estrangeira francesa. Muitos dos legionários que combateram no Vietname eram alemães entregues pelos americanos aos franceses em 1945 e 1946 («Em 1946, aproximadamente 605 dos 20.000 homens da Legião eram alemães». Arthur L. Smith Jr., «Warrior without Honor: Germany's War Veterans». Do capítulo 2 no manuscrito inglês, a págs. 70. Publicado em alemão como «Heimkehr aus dem Zweiter Weltkrieg», Stuttgart, Deutsche Verlags-Anstalt, 1985). Durante o ano de 1945 e grande parte de 1946, Pradervand debateu-se na rede da sempre mutante burocracia americana, tentando ajudar os prisioneiros dos franceses. A sua abordagem era ingénua. Recordava aos generais e diplomatas os seus princípios de justiça, decência e generosidade, fazia notar as obrigações que eles implicavam e depois oferecia-se para ajudar a cumpri-las, sempre com o sentido da premente necessidade dos próprios prisioneiros. Receosos de denunciar os princípios, ignorantes da realidade que teoricamente deviam administrar, os diplomatas esquivavam-se, inventando novas dificuldades. Instigado por Pradervand, o presidente do Comité Internacional, Max Huber, escreveu em Janeiro ao Secretário de Estado James F. Byrnes a fim de «registar com satisfação» a afirmação de Byrnes de que a política do governo americano relativamente aos prisioneiros de guerra «está em total conformidade com o espírito da Convenção de Genebra, e que a transferência só é permitida pelas autoridades dos Estados Unidos quando há garantia suficiente de que os termos da Convenção são adequadamente observados pela outra potência» (Huber ao Departamento de Estado, 9.01.1946. Em RG 59 Caixa 3971, NARS, Washington). Pradervand arquitectou um engenhoso plano que esboçou numa carta para Eldred D. Kuppinger, dos Projectos Especiais do Departamento de Estado (Todas as cartas citadas entre Pradervand, Kuppinger, Byrnes et al estão nos arquivos do Departamento de Estado, NARS, Washington. No Processo 740, sob as datas referidas). Principiou como habitualmente por conceder aos americanos aquilo a que se pode chamar «o benefício da não dúvida», dizendo: «Como sem dúvida tem conhecimento, a situação dos prisioneiros de guerra alemães presentemente sob custódia francesa tornou-se muito crítica». O Comité Internacional da Cruz Vermelha, através de Pradervand, tentava auxiliar os prisioneiros, em parte servindo-se de dinheiro que lhe era dado pelos próprios prisioneiros, para comprar comida. Era provavelmente o dinheiro mais dificilmente ganho na história do mundo. Um prisioneiro contou que tinha que fazer economias durante 6 meses para comprar um tubo de dentífrico. O problema de Pradervand eram as restrições de divisas. Poderia Kuppinger ajudar a encontrar uma maneira de as tornear? Pradervand sugeriu uma maneira, prometendo também não tratar qualquer acolhimento dispensado desta feita como um precedente para outro apelo. Kuppinger encaminhou o assunto para Byrnes, que depois escreveu ao novo Secretário da Guerra, Robert Patterson, sugerindo que «seria nesta altura oportuno as autoridades militares americanas encetarem discussões com as autoridades militares francesas a fim de melhorar, se necessário, as condições dos prisioneiros de guerra já transferidos...«, etc. Seguiram-se outras discussões enquanto os prisioneiros morriam, até 13 de Junho de 1946, data em que Kuppinger, com uma prodigiosa contorção, se escusou a Pradervand a pretexto de que «as autoridades americanas não estão em posição de entregar os artigos desejados pelo Comité contra o pagamento em francos franceses». A seguir vinha o porém: «julga-se que os desejos do Comité neste contexto foram substancialmente satisfeitos pela inclusão na Secção Nove» duma cláusula que podia permitir ou não aos prisioneiros comprar - em competição com o mercado negro civil - comida que já lhes tinha sido atribuída. A pouca comida francesa ou americana racionada para os campos era esgotada por furto no caminho até aos prisioneiros, aparecendo depois no mercado negro (Raoul Laporterie ao general De Gaulle, Junho de 1946. No arquivo particular de Raoul Laporterie, Grenade sur l'Adour, Landes, França). Raoul Laporterie, presidente da câmara de Bascons, a sueste de Bordéus, que tinha dado trabalho a dois prisioneiros de guerra alemães na sua cadeia de lojas de miudezas, escreveu uma contundente carta ao general De Gaulle sobre a situação nas Landes, a sueste de Bordéus, onde havia muitos campos de prisioneiros. Sem atender às represálias que provavelmente sobreviriam, e sobrevieram, Laporterie escreveu: «O exército francês espanta e desaponta os agricultores, que vêm que as requisições que lhes são cobradas não aliviam a dolorosa situação nas cidades. A explicação disto é o facto da administração militar, que levanta para as suas chamadas necessidades uma grande parte das requisições, exagerar grandemente a quantidade de abastecimentos necessários e, parece, ao que tudo indica, que todos os excedentes do exército acabam por ir parar ao mercado negro» (págs. 151-163).

Os franceses tiraram pouco partido dos seus esfomeados. Em França, em Janeiro de 1946, pouco mais de meio milhão de homens estava nominalmente a trabalhar para os exércitos ou para a economia civil. A maior parte deles, subalimentados, mal vestidos e debilitados, trabalhava com uma eficiência muitíssimo inferior à normal. Outros 124.000 estavam tão doentes que não podiam trabalhar («Notes Documentaires et Études», nº 270, 26.03.1946, pág.7. No Quai d'Orsay, Paris. No final de 1945 havia ainda cerca de 1 milhão de prisioneiros em poder dos norte-americanos na Europa, acrescidos de outros 400.000 nos Estados Unidos ou em trânsito para a Europa. Destes, cerca de 400.000 estavam efectivamente a trabalhar no exército dos Estados Unidos na Europa como operários, condutores, estivadores, carpinteiros e técnicos, libertando o pessoal norte-americano para regressar à pátria. A maior parte dos 400.000 estavam a trabalhar na terra, em florestas ou em minas. Se incluirmos o meio milhão de prisioneiros-trabalhadores alemães em poder dos britânicos, havia cerca de 1.900.000 alemães a reparar parte dos prejuízos causados pela guerra, ou a substituir alguns dos bens roubados pelos alemães quando ocupavam o poder em França.). Quando, no Verão de 1945, 600 homens moribundos se apearam do comboio em Buglose, próximo de Bordéus, diante da população escandalizada da aldeia, 87 homens estavam em tão más condições que a caminhada de 2 quilómetros até ao campo os matou. No campo, o resto dos homens com os seus andrajos indecentes olhava fixamente através das janelas partidas e sujas para os pinhais molhados, pensando talvez na bonita história que os guardas franceses lhes tinham contado em Rennes: «Vocês vão para o sul fazer as vindimas». Era fácil imaginarem-se no meio das soalheiras vinhas a atirar uvas maduras para dentro da boca. Quando as uvas ficaram mduras e ninguém foi apanhá-las, aperceberam-se que o seu único objectivo ali era morrerem. E muitos morreram. Em Labouheyre, um campo de trabalho próximo, 25% dos homens morreram em Janeiro de inanição, disenteria ou doenças (Contado ao autor pelo prisioneiro Hans Goertz, de Bona, em Março de 1986.). A disenteria foi tão séria que os franceses se foram abaixo com ela. O trabalho em Labouheyre chamava-se trabalho florestal, mas era uma medonha farsa da imagem convencional de corpulentos lenhadores a abaterem árvores. Muitos dos guardas tinham vergonha do estado dos prisioneiros que tinham que levar até aos bosques para trabalhar (Entrevistas do autor em 1986 com vários guardas prisionais: M. Cazaux, Raphael Conqueré, Labat e Marc, em Labouheyre, Buglose a áreas circunvizinhas). A maior parte dos prisioneiros tinham pouca ou nenhuma experiência, de forma que já corriam riscos. Famintos, com botas de má qualidade ou sem botas nenhumas, desconhecedores da técnica, magoavam-se muitas vezes. Houve muitos que morreram nessas equipas de trabalho. Os guardas, em grande parte homens decentes recrutados nas aldeias e herdades das redondezas, não pensavam em vingança, embora muitos deles tivessem recentemente estado prisioneiros na Alemanha. Não torturavam nem maltratavam os homens, antes os deixavam sozinhos o mais que podiam. Alguns dos guardas traziam um pouco de comida de casa para alimentarem os alemães esfomeados. Dois dos alemães disseram que teriam morrido sem o litro de leite que todos os dias lhes era trazido por um guarda que vivia numa herdade vizinha (Entrevista com Raphael Conqueré, de Buglose, 1986) (págs. 163-164).

...Mais tarde, porém, quando a fraqueza realmente veio e o mais pequeno movimento nos fazia desmaiar, podíamos calcular quantas horas estávamos sem sentidos. A malnutrição atingiu tal ponto, que o mais pequeno gesto feito demasiado depressa nos fazia desmaiar. Da primeira vez que isso me aconteceu, estávamos sentados ao sol sem nada para fazer, absolutamente nada. Lembro-me de dizer para comigo mesmo enquanto estávamos todos ali sentados na terra ao sol: muito bem, ainda faltam seis horas para a sopa e, visto que não há nada para fazer, nem livros nem nada, disse eu, muito bem, se eu fizer este pequeno movimento rápido com o braço fico desmaiado três horas e, se voltar a fazê-lo, são mais três horas, portanto seis horas ao todo. Vou estar desmaiado seis horas que não contam no meu período de cativeiro. A comida era tão escassa que as pessoas estavam habitualmente doentes e, quando adoecíamos, levavam-nos para o hospital. Quando as pessoas eram levadas para o hospital, nunca as víamos voltar. Dos 100.000 prisioneiros de Rennes, houve decerto uma percentagem que morreu que devia atingir um número considerável. Mas nunca consegui encontrar nenhum cemitério. Nunca víamos a Cruz Vermelha; ninguém veio inspeccionar-nos a não ser dois anos mais tarde, para nos trazer cobertores. Foi a primeira vez que vieram, em 1947. Estávamos a comer a erva entre os edifícios. Os franceses não eram os únicos responsáveis pelo que acontecia nos campos da França porque recebiam um número enorme de alemães que estavam já incapacitados devido a mau tratamento na Alemanha. Quando se reunem centenas de milhares de pessoas numa área e não se pensa em como se lhes vai dar de comer, é um caso muito sério. Fomos finalmente enviados para um comando de trabalho numa aldeia. Éramos vinte, dos quais um era supostamente o cozinheiro, mas de cada vez que o resto do grupo voltava, o cozinheiro já tinha comido tudo (...) Quando chegámos a Rennes, os alemães decidiram entre eles que, visto a carência de comida ser tão grave, dariam rações duplas aos menores de 18 anos e, dos 3.000 que estavam no nosso cárcere, havia cerca de 150 que tinham 15, 16 ou 17 anos (...) Disse para comigo mesmo que nunca me alistaria na Legião Estrangeira; isto é o fim, mesmo que morra aqui. Depois de ter sobrevivido à guerra, de estar em Berlim durante os bombardeamentos e de combater os americanos na Alemanha quase sem armas, estava tão feliz por ter sobrevivido que nem sequer encarava o cativeiro como um castigo (Entrevista com Heinz T. conduzida por Mavis Gallant e pelo autor) (págs. 167-169).

O prisioneiro nº 1503477, Werner Steckelings, tinha fortes razões para detestar a França e os franceses para o resto da vida que, em 1945, não prometia ser longa (de entrevistas com Werner Steckelings em Straelen, Alemanha Ocidental, 1986 e 1988, pelo autor). Transferido do grande campo americano de Heilbronn, onde passara fome num buraco no solo, chegou em Agosto a Rivesaltes, no sul da França. A água era escassa. Uma vez, o condutor francês do camião da água abriu o tanque à entrada do portão, rindo dos gritos dos prisioneiros sedentos enquanto a água esgichava para o solo. Todos os dias morriam 4 ou 5 homens nas respectivas casernas, de cerca de 80 homens. Por vezes, chegava a ajudar a arrastar 20 corpos até à entrada do campo. Em Novembro foi transferido para Aubagne, nas Bouches du Rhône. Quando o camião parou numa cidade, Steckelings reparou numa côdea de pão no passeio. Freneticamente, fez sinal a um francês que ia a passar, que lha estendeu por entre as ripas, dizendo: «Monsieur, je connais la vie». O novo campo de Aubagne tinha a alcunha de «O Órgão da Morte», porque as casernas gemiam com o vento. Rapavam a cabeça a Steckelings «só porque os franceses nos detestavam. Era puro ódio». Estava careca, pesava cerca de 36 quilos e tinha 19 anos de idade (...) Salvaram-lhe a vida ao enviarem-no para norte, com cerca duma dúzia doutros prisioneiros para trabalhar numa fábrica de adubos. Ali, foi auxiliado por uma família francesa que tomou conta dele dando-lhe roupa, comida e amizade. A família convidou-o para o casamento da filha. Trabalhou naquela fábrica durante 3 anos até ser posto em liberdade. A sua atitude em relação à França mudou completamente devido às suas experiências com a família de Sorgues. «Foram muito bons para mim. Embora os franceses dos campos fossem muito cruéis para nós, pus isso de parte, porque muitos franceses foram bons para nós quando saímos. Numa família se vê o que é uma nação». Steckelings visitou muitas vezes aquela gente desde então, levando sempre presentes consigo e trazendo sempre presentes no regresso (antes de conceder uma entrevista ao autor, Steckelings disse: «Vou contar-lhe coisas terríveis e algumas coisas boas. Tem que me prometer publicar tanto as boas como as más»). Muitos prisioneiros passaram da morte à vida assim que os portões dos campos se abriram para os deixar entrar em casas das aldeias ou das herdades da França. É razoável supor que a maioria dos prisioneiros que sobreviveram aos campos franceses tenham sido salvos pela generosidade de civis franceses, principalmente agricultores e aldeãos. Em Novembro de 1945, cerca de 900.000 prisioneiros tinham sido recebidos pelos franceses, entre capturados e recebidos por transferência dos britânicos e americanos. Destes, 225.953 já não estavam a ser contabilizados em Novembro, passados apenas alguns meses de cativeiro. Em Março de 1946 apareceu uma nova categoria nas estatísticas francesas, «Perdus pour Raisons Diverses», abrangendo 167.000 pessoas. Que destino indicava este termo? Há uma série de destinos possíveis. Um, é terem sido libertados sem serem contados, no caos que se seguiu à entrega dos campos pelos americanos. Trata-se de algo altamente improvável, porque os franceses sempre fizeram tenção de utilizar esses homens para trabalhar, de modo que haviam de querer mantê-los em seu poder. Além disso, para serem libertados, tinham que ser transportados de regresso à Alemanha, de modo que era preciso tratar do transporte, o que significa que tinham de ser contados. Outro destino possível é que os homens em falta tivessem fugido. Os franceses comunicaram uma série de fugas de comboios, camiões, etc., mas a maioria dos prisioneiros foram-lhes entregues em França muito doentes, indocumentados e andrajosos. Não falavam francês, não tinham dinheiro, não sabiam onde estavam e a população local mostrou-se inicialmente muito hostil (...) O mais provável é que o número de fugitivos dos campos franceses, tal como dos americanos, seja estatisticamente negligenciável. Outra possível fonte de erro é que eles fossem incorrectamente contados (...) mas a facilidade da contagem dum número de homens estáticos nos campos torna provável que os franceses fizessem efectivamente a contagem correcta, a partir do momento em que os prisioneiros tinham parado de viajar (...) O último destino possível é a morte. Em Thorée des Pins a população decresceu, dos cerca de 100.000 observdos por Pradervand no final do Verão, para 15.600 em 10 de Novembro, conforme comunicação do comandante regional (Relatório de inspecção do tenente-coronel Sarda de Caumont, 10.11.1945, Ministério da Guerra, Vincennes). O comandante, Zalay, disse em Agosto a Pradervand que pelo menos 2.000 dos homens estavam tão doentes que já não havia esperança para eles. Uma lista referente a uma única secção do campo, feita por um prisioneiro alemão, confirma, mencionando os respectivos nomes, mais de 400 mortos no período de Agosto a Outubro (A lista encontra-se no Arquivo Municipal de Thorée les Pins. Não é fornecida a proporção do campo abrangida pela lista, mas ela não pode cobrir todo o campo pois não mostra um único dia em Agosto ou Setembro em que tenham morrido mais de 12 pessoas, ao passo que Pradervand referiu que, no dia em que lá esteve, morreram 20). O guarda de campo Robert Langlais, de Thorée, que foi um dos coveiros daquele campo durante 6 meses, ajudou a enterrar uma média de cerca de 15 corpos por dia de Agosto até Outubro (Entrevista com o autor, Thorée les Pins, 1986) (págs.170-172).

Embora os britânicos tivessem dito que se recusariam a aceitar quaisquer DEFs (Disarmed Ennemy Forces) dos americanos, acabaram por acolher centenas de milhares de homens doentes e famintos dos campos de POWs (Prisoners of War) americanos. Entre eles encontrava-se o cabo Helmut Liebich que, no campo de Rheinberg, tremia de desinteria e tifo (todas as experiências do cabo Liebich são extraídas duma entrevista com o autor em Rheinberg, em Novembro de 1987). Liebich, que tinha estado a trabalhar num grupo anti-aéreo experimental em Peenemunde, no Báltico, fora capturado pelos americanos a 17 de Abril próximo de Gotha, na Alemanha central. No campo de DEFs de Gotha não havia tendas, mas apenas as costumadas vedações de arame à roda dum campo que não tardou a ficar convertido num lodaçal. No primeiro dia receberam uma pequena ração de comida que, depois, foi cortada ao meio. A fim de a obterem, eram obrigados a passar pelas varas. Agachados, corriam entre fiadas de guardas que os agrediam à paulada enquanto eles se precipitavam em direcção à comida. A 27 de Abril foram transferidos para o campo americano de Heidesheim, mais a oeste, onde não houve comida alguma durante dias e muito pouca depois. Ao ar livre, famintos e cheios de sede, os homens começaram a morrer. Numa noite chuvosa, Liebich viu as paredes das covas na terra, cavadas em terreno mole e arenoso, aluírem sobre homens que estavam fracos demais para se libertarem. Tentou tirá-los de lá escavando a terra, mas eram demasiados. Sufocaram antes que os outros pudessem chegar até eles. Liebich sentou-se a chorar. «Mal podia acreditar que os homens fossem capazes de ser tão cruéis uns para os outros». Viu cerca de 10 a 30 corpos por dia serem arrastados da sua secção, o Campo B, que a princípio albergava aproximadamente 5.200 homens. Viu um prisioneiro espancar outro até à morte para se apossar do seu pequeno pedaço de pão. No princípio de Maio declarou-se o tifo em Heidesheim. No dia 13, Liebich foi transferido para outro campo de prisioneiros de guerra americano em Bingen-Budesheim, perto de Bad-Kreuznach, onde lhe disseram que os prisioneiros totalizavam entre 200.000 e 400.000, todos eles sem abrigo, comida, água, medicamentos ou espaço suficiente. Não tardou a adoecer de desinteria. Disseram-lhe também que estava com tifo. Delirando de febre, foi-lhe no entanto ordenado que ajudasse a distribuir os prisioneiros de acordo com a respectiva naturalidade. Reparou que todos os homens que tinham vivvido a leste do rio Elba estavam a ser enviados para comboios de camiões destinados a França. No final do turno, Liebich disse aos guardas que era da Westfália, que ficava na zona britânica. Nessa altura pôs de parte o diário porque estava emasiado fraco para escrever. Foi novamente movimentado, semiconsciente, numa carruagem de tecto aberto com cerca de 60 prisioneiros mais pelo Reno abaixo, fazendo um desvio pela Holanda, onde alguns holandeses se punham nas pontes para atirar pedras às cabeças dos prisioneiros (...) Passadas três noites, os seus companheiros de prisão ajudaram-no a entrar, cambaleando, no enorme campo americano de Rheinberg, uma vez mais sem abrigo nem comida. Quando finalmente chegou alguma comida, estava estragada. Os homens diziam que em Rheinberg passavam «35 dias de inanição e 15 dias sem comida». A taxa de mortalidade em campos como o de Rheinberg nessa época, Maio de 1945, era aproximadamente de 30% (Ver Apêndice 1. Segundo um sobrevivente, era muito superior a 30%). Nunca vira em nenhum dos campos abrigo algum para os prisioneiros. (...) Os homens que redigiam diários escreviam somente informações que pensavam não ofenderem os guardas, porque tinham ouvido dizer que os prisioneiros seriam castigados se tomassem apontamentos do que estava a passar-se (Entrevista com Herr Liebich conduzida pelo autor e pela sua investigdora-assistente, Novembro de 1987, em Rheinberg, Alemanha Ocidental). Num dia de Junho, entre as alucinações da febre, Liebich viu aparecer os «Tommies» (os britânicos). «Fomos contados e recontados, creio que cinco ou seis vezes na primeira semana. Fui enviado para o hospital de Lintfort». Nessa altura, Liebich, que tem 1,76 m de altura, pesava 44 quilos (...) Segundo histórias ainda hoje contadas por ex-prisioneiros de Rheinberg, o último acto dos americanos em Rheinberg, antes dos britânicos tomarem conta do campo, em meados de Junho, foi proceder à terraplanagem duma parte da área do campo quando havia ainda homens vivos nos seus buracos no chão (entrevista do autor com Heinz Janssen, arquivista municipal de Rheinberg, juntamente com o encarregado do Arquivo Municipal, Herr W. Hucklekemke, e a Adjunta Anja Kiechle, Novembro de 1987). Nada disto chegou a saber-se, a não ser através das narrativas dos prisioneiros, que levaram 44 anos a chegar ao prelo. Nenhum dos oficiais britânicos o revelou à imprensa. Nem um só relato das condições de Rheinberg foi tornado público, embora um delegado do Comité Internacional da Cruz Vermelha o tenha visitado em Maio (carta de Françoise Perret do CICV ao autor, 12.06.1987. O CICV recusou-se a permitir ao autor que visse esse relatório. Os arquivos do Departamento de Estado não possuem cópia do relatório. Ao abrigo da Convenção de Genebra, esses relatórios eram sempre enviados à Potência Protectora) (págs. 180-182)

Os livros do estudioso americano Alfred De Zayas venderam centenas de milhares de exemplares na Alemanha, porque contavam verdades que os alemães ainda não tinham visto em letra de imprensa. Esses livros, «Nemesis at Potsdam» e «The Wehrmacht War Crimes Bureau» (1) descrevem deportações, roubos, assassínios e atrocidades conducentes a milhões de mortes, cometidos pelos Aliados contra milhões de alemães, principalmente mulheres e crianças, em tempo de paz. Rejeitados umas 80 vezes nos Estados Unidos ao longo de 10 anos, mas finalmente publicados nos EUA, no Canadá e na Inglaterra, estes livros foram ignorados pela totalidade dos principais meios de crítica literária e académicos de língua inglesa, que tinham, contudo, espaço ou tempo abundante para expor de novo, centenas de vezes, os crimes dos alemães que já tinham sido capturados e punidos. Na medida em que a Alemanha era do Ocidente, a imprensa alemã não era livre; na medida em que os alemães eram livres, não eram do Ocidente (pág. 226).

Em Agosto de 1945, Jean-Pierre Pradervand do Comité Internacional da Cruz Vermelha tinha descoberto, horrorizado, que os campos franceses estavam cheios de homens doentes e famintos, cobertos de andrajos, que morriam como tordos. Sabia que a maior parte deles eram transferências recentes de campos dos EUA. Pensando que poderiam não dar-lhe crédito sem provas seguras, começou a fotografar os prisioneiros. Estes prisioneiros estavam tão esfarrapados, que os delegados de Pradervand lhes deram a roupa que traziam vestida e regressaram em roupa interior (Pradervand ao autor, em conversa, Suiça, 4.10.1989). Enquanto isto acontecia, o exército dos EUA tinha nos seus armazéns da Alemanha 13 milhões de embalagens alimentares da Cruz Vermelha para prisioneiros de guerra. Dispunha também de vestuário e equipamento pessoal para 1.294.000 pessoas, mais os 5.579.000 artigos de higiene e 920.000 metros de tecido para fardas. Havia ainda mais de 19.000 toneladas de equipamento e artigos médicos (Inventário de material de guerra inimigo utilizável. Relatório do Governdor militar, Agosto de 1945, Abilene), tudo equipamento alemão capturado. Em Paris, dezenas de pessoas preparavam-se para dar à estampa grandes artigos. A publicação destes factos destruiria a reputação de Eisenhower. A 14 de Setembro, estalou o primeiro relâmpago, lá longe, em Washington. O Comité Internacional da Cruz Vermelha em Genebra repetiu por mensagem em claro (não cifrada) ao Departamento de Estado as acusações dos franceses segundo as quais os americanos estavam a matar os prisioneiros à fome, após o que os impingiam aos franceses (Ver págs. 131-132). O Comité Internacional da Cruz Vermelha estava «ansioso» por que os EUA alimentassem os seus prisioneiros. Algo tinha de ser feito, e rapidamente. Tudo isto é certo; a conjectura sobre o que aconteceu no princípio de Setembro figura na seguinte frase: Smith e Eisenhower apercebem-se do perigo e aconselham-se mutuamente quanto à maneira como poderiam camuflar os mortos. Nenhum morto pode ser acrescentado aos totais de futuras libertações, porque já foi decidido suspender, por enquanto, as libertações. Tão-pouco se podem inserir retroactivamente os prisioneiros mortos na coluna de libertações passadas porque também esses quantitativos foram já enviados a Washington. Os quantitativos de transferências foram igualmente remetidos. Além disso, podiam ser verificados pela potência receptora. O total de «Em Poder» é também conhecido em Washington, de forma que não pode também ser reduzido de forma arbitrária. O que é preciso, do pé para a mão, é outra categoria, vaga, para encobrir os mortos. Em Maio e princípios de Agosto, as «Outras Perdas» estavam já a ser utilizadas para encobrir os mortos nos relatórios internos dos exércitos. Mas toda a gente no comando do exército sabe, como o coronel Lauben, que elas significam mortes; por conseguinte, tem que ser dada uma nova definição para ajudar a explicá-lo, ou proporcionar uma capa mais plausível para os oficiais leais que possam ser interrogados. Dão-se instruções a um dactilógrafo no sentido de inserir uma nova definição de «Outras Perdas» incluindo os Volksturm nos registos do 12º Grupo de Exércitos onde figuram as transacções de DEFs (Disarmed Ennemy Forces) até 6 de Junho. Ele tira a cópia a químico dos registos do exército existentes e limita-se a dactilografar a definição. Pradervand é convidado a ir a Frankfurt, onde o tranquilizam. As suas fotografias desaparecem no gabinete de Eisenhower para nunca mais se verem até ao momento de reaparecerem como testemunho das atrocidades nos campos franceses de prisioneiros de guerra. Depois, somem-se para sempre. Deixa de haver Relatórios Semanais de POW/DEF e do Preboste-geral do Teatro de Operações, com os seus pormenores reveladores. A imprensa mundial publica a nota oficiosa a ilibar o exército americano. Os prisioneiros continuam a morrer (págs. 295-296)

EISENHOWER DISSE A VERDADE? - Primeiro, no relatório de Agosto publicdo a 20 de Setembro, não refere mortes, embora o Preboste-geral do Teatro de Operações já tivesse mencionado mortes de mais de 10.000 prisioneiros de guerra. Dado o muito maior quantitativo de DEFs (Disarmed Ennemy Forces), deveria haver pelo menos mais 15.000 mortes nesse grupo. Mas Eisenhower, o homem que escreveu que «foi uma pena não termos conseguido matar mais», examina agora a cena e não vê mortos. Consegue ver 1.694 prisioneiros vivos e a trabalhar no enclave de Bremen, consegue ver 7.632 hospitalizados na Alemanha, mas não vê mortos. Disse em Paris em Março de 1945 que os EUA estavam a tratar os seus prisioneiros em conformidade com a Convenção de Genebra. Isto não era verdade (Ver pág. 61 supra). Num discurso perante o Congresso dos Estados Unidos em Janeiro de 1946 declarou que o exército americano sob o seu comando tinha «repatriado os DPs (Displaced Person) com compreensão e elevada consideração pela natureza humanitária do problema». Isto não era verdade: o exército tinha feito frequente emprego da violência ao devolver os cidadãos russos à Rússia (Mark R. Elliot, «Pawns of Yalta», University of Illinois Press, págs. 93 e 107). Os seus oficiais superiores deturparam duas vezes o número de prisioneiros a fim das rações serem reduzidas, dando aso a que os generais Littlejohn e Lee se queixassem por escrito da falta de rigor da comunicação do número de prisioneiros (Ver págs. 85 e 263-264 supra). Seguindo o conselho do general Hughes, não assinou quaisquer ordens de redução das rações dos prisioneiros, ao mesmo tempo que dizia a Winston Churchill que tinha reduzido as rações. Não existe registo desta conversa nos arquivos da Biblioteca Eisenhower de Abilene, pelo que o facto nunca seria conhecido se o pessoal de Churchill não tivesse registado a conversa num memorando posteriormente transcrito ao Departamento de Estado (Ver pág. 78 supra. Quando informei Ambrose desta afirmação de Eisenhower tal como relatada nas actas do pessoal de Churchill, o seu comentário foi: «Isso é bastante condenatório»). A ordem não escrita existente no exército de Eisenhower para que os prisioneiros recebessem rações de fome tinha tal força que, quando em Outubro de 1945 recebeu ordem verbal de aumentar algumas rações para efeitos de propaganda, o general Lee pediu para lhe mandarem confirmação dessa ordem por escrito. Ainda não foi encontrada essa ordem, mas as rações foram rapidamente aumentadas, segundo os próprios prisioneiros. Que razão tinha Hughes para recomendar a Eisenhower que não escrevesse tais ordens? Para não deixar registos. E porquê não deixar registos? Porque era possível que isso voltasse a lume para os seus superiores ou a opinião pública o acossarem. No seu relatório de Agosto, Eisenhower comunicou ao JCS (Joint Chiefs of Staff, Conselho dos Chefes de Estado-Maior dos EUA) que tinha sido fornecido abrigo aos prisioneiros. Isso não é verdade: o abrigo tinha sido proibido por ordem de 1 de Maio de 1945 da Secção de Engenheiros da Secção Avançada do Exército e em Abril de 1945 pelo general J. C. H. Lee (Ver notas 15 e 25, Capítulo 3). Durante todo esse Verão morreram prisioneiros por falta de abrigo; durante todo esse Verão o exército tinha em armazém 58.000 tendas alemãs capturadas que, tal como as embalagens alimentares da Cruz Vermelha e muitos outros artigos necessários, não foram distribuídas (Ver pág. 65 supra. Muitos prisioneiros sobreviventes disseram que continuaram sem abrigo todo o Verão, isto é, muito depois de Eisenhower ter feito esta afirmação. Os números relativos a tendas são do Inventário de Material de Guerra Inimigo Utilizável, no relatório de Agosto de 1945 do Governador militar, Abilene). O seu comando ocultou à Cruz Vermelha a continuação da existência de campos americanos de prisioneiros a seguir à guerra, de acordo com Jean-Pierre Pradervand (em conversa com o autor, Suiça, 4.10.1989). Através do general Bedell Smith, o seu Chefe de Estado-Maior, Eisenhower disse ao governo francês, aos seus próprios superiores, ao Departamento de Estado e à imprensa que as centenas de milhares de prisioneiros transferidas para os franceses em Setembro de 1945 estavam em boas condições, dispondo de duas semanas de rações, capotes e cobertores. Nada disso era verdade (ver Capítulo 4). Quando mais tarde, acusado de desempenhar um papel primordial no infame Plano Morgenthau, juntamente com Harry Dexter White, Einsenhower negou a sua participação. Isso não era verdade (Fred Smith, «The Rise and Fall of the Morgenthau Plan», United Nations World, Março de 1947). Comunicou por duas vezes ao JCS que tinham sido transferidos 132.262 prisioneiros da Alemanha para a Áustria. Isso não era verdade. Com este cadastro, não parece ser uma pessoa em que se possa confiar relativamente a acusações de mortes em massa ocorridas sob o seu comando. Dados os outros testemunhos já conhecidos sobre as libertações de Volksturm, é impossível fiarmo-nos na afirmação de Eisenhower constante no relatório de Agosto (págs. 297-298)

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