sábado, julho 23, 2005
CONTRA A DEMOCRACIA
Nas minhas intenções, na minha disposição, nos meus desejos, este nosso encontro de hoje é um acontecimento extra-programa. Receio que o que se faz por hábito redunde em monotonia e enfado — como certas visitas de anos ou certos cumprimentos de pêsames...
Receio que ao alvoroçado entusiasmo do princípio, suceda o desinteresse da continuação. Difíceis e raros são os amores que perduram, vivos e frescos, através dos anos, como nas primeiras horas dos primeiros olhares, ou nos primeiros minutos dos primeiros beijos... Tudo cansa, tudo fenece.
Nesta disposição de espírito, porque vim? Em primeiro lugar, para não ser desagradável a quem me pediu que viesse, e não desconsolar ou desiludir quem me assegurou que o entusiasmo era o mesmo, e inalterável, e o mesmo o sentimento de comunhão e compreensão.
Em segundo lugar, porque...
A gente nunca sabe o que é o primeiro minuto marcado no relógio do futuro. E se a mocidade tem probabilidades (e quantas vezes, ilusórias!) de uma estrada longa a percorrer, a velhice, prematura ou retardada, vai tendo de instante a instante mais reduzida margem para os seus cálculos ou para os seus projectos.
Ora se os que me escutam são, de um modo geral, moços radiantes e irradiantes, a encarar horizontes longínquos e previsões esfumadas pelas distância, que direi eu de mim?
Se, graças aos privilégios que uma Providência incompreensivelmente generosa me concede, não estou ainda tolhido, nem trôpego nos meus passos, não é menos verdade que de há muito que estou à espera do sinal da partida definitiva.
Como dizia o outro, «os milagres he justo que se cream, he bom que se mereçam, mas não he razão que se esperem».
E assim, ao ser convidado para esta noite, reflectindo, influiu na minha decisão a hipótese de ser este o último encontro. E eu tenho coisas a dizer, que me penalizaria não deixar ditas.
É que se aproxima a hora do grande combate — o combate de Deus contra o Demónio, isto é, o combate dos homens que falam em nome de Deus, com os homens que falam em nome do demónio.
Deus é eterno, não pode sucumbir; mas podem sucumbir os homens de Deus, isto é, pode Deus morrer para os homens que representam o Demónio, como já anda muito desfalecido para os homens que O representam a Ele.
Será esse combate, combate de múltiplos aspectos, de múltiplas acções, em que os campos de batalha serão incontáveis. Combate de ideias, de sentimentos e de actos.
Combate exaustivo, definitivo, em que jogaremos tudo e tudo arriscaremos, para salvarmos tudo. Combate em que não haverá piedade, nem descanso — porque quem se apiedar ou descansar será vencido. Combate que será como a mais intensa e mais extensa trovoada do Céu, com os seus estampidos de ensurdecer, e seus raios de endoidecer...
Para este combate preparam as armas os que têm armas, preparam as almas e as vontades os que têm vontades e almas.
Para esse combate preparam-se os Povos e preparam-se os Indivíduos. Tudo se apresta para o grande choque, donde queremos que saia a luminosidade transparente do Céu, mas donde pode sair, ai de nós!, o cataclismo apocalíptico do Inferno.
Desde o alvorecer da Renascença que o mundo vem caminhando, a direito, para este combate. Renascença, Reforma, Revolução Francesa, Liberalismo, Modernismo, Sillonismo, Bolchevismo, Catolicismo progressivo, eis os prólogos, os ensaios, os preparativos, as tentativas do grande Combate que nos espera. Milhares de afluentes concorrem para a constituição ou formação do grande Amazonas da Revolução. Em que vasto Atlântico desaguará o grande Rio?
É o segredo de Deus. Mas aos homens incapazes de o descortinar, talvez porque o não mereçam, cumpre não fugir à sua missão, nem desertar do seu dever de se esforçarem por esse grande Atlântico do Bem, o Reino de Deus.
O grande Combate espera-nos...
Quando deflagrará ele? Na minha vida? Daqui a vinte anos? Daqui a cinquenta ou cem anos? Não importa.
O grande combate será...
Pois que há-de vir, pois que é fatal que venha, preparemo-nos para ele. Arranquemos as máscaras; dissolvamos os embustes; desarticulemos os equívocos; esvaziemos as bolas de sabão; pulverizemos as nuvens — se queremos ganhar o combate. Levemos a verdade no coração, a sinceridade na alma, a franqueza nos lábios, a rectidão nos olhares, se queremos ganhar o combate. Não nos deixemos enredar em subterfúgios habilidosos, nem nos deixemos perder em combinações maquiavélicas, nem deixemos desvirtuar os nossos objectivos, sacrificando-os a espertezas interesseiras — se queremos ganhar o combate.
Encontraremos e cimentemos o Essencial que nos pode unir; e fechemos os olhos ao Secundário que nos divide — se queremos ganhar o combate.
Ora o Secundário que nos divide tem, na terra e entre os homens, um nome: Democracia.
O Essencial que pode unir-nos e a Inteligência esclarecida proclama, e as lições multiseculares da História confirmam; o Essencial que pode unir-nos e a Filosofia formula, e a Experiência garante, é constituído por três noções substanciais que eu, desde a maioridade do meu Espírito, caracterizada pela mais intensa independência e a mais manifesta autonomia, infatigavelmente afirmo: Deus, Pátria e Rei.
Deus — na pureza do Dogma católico — o único verdadeiro; Pátria, na plena manifestação da sua soberania indecomponível; Rei — como sempre foram os Reis legítimos: responsáveis perante Deus, sem os outros embaraços nas suas determinações que não sejam os da sua consciência e os da compreensão dos seus deveres.
Deus — não o Deus dos vários cultos, superstições, idolatrias, ou religiões, mas o Deus da Igreja Católica Apostólica Romana que tem sido, até agora, a única Religião verdadeira no mundo, e que para mim, será, até o último alento, a única religião verdadeira na vida.
Deus — o Deus do Catolicismo definido e rigoroso, e não o Deus do Cristianismo furta-cores, saco onde cabe tudo — desde o Rotarismo maçónico ao Liberalismo maritainesco, desde a heresia luterana ao teosofismo americano.
Deus — o Deus do Catolicismo que é o único em que creio, o único que adoro, e não o Deus dos conclaves internacionais, pau para toda a obra, leitmotiv de todos os discursos de todas as chafaricas leigas e racionalistas, moeda de troca no balcão de Estaline, ou no guichet de Truman.
Pátria — a Pátria dos nossos antepassados que se fez contra o castelhano ou contra o mouro, que teve os judeus concentrados nos seus ghettos, e abriu as portas do mundo aos outros povos.
Pátria — a Pátria dos portugueses, cuidadosa das suas fronteiras, ciosa da sua liberdade, e inflexivelmente fiel à sua soberania, e não a Pátria bastarda, diminuída na sua vontade, algemada na sua expansão, e cerceada no seu Direito.
Pátria — a Pátria de Ourique e de Aljubarrota, de Montes Claros e do Bussaco; a Pátria que dominou os mares e a Índia, que fez o Brasil, e deu a volta ao mundo, e, em pleno século XIX, perante a Europa atónita, trouxe à corte de Portugal, como escravo, o maior e mais temível régulo da África oriental - amigo de S. Majestade a Rainha Victória da Grã-Bretanha, e Imperatriz das Índias...
Pátria — a Pátria da luminosa dinastia dos soldados do Ultramar, que começa em Ceuta, na madrugada do século XV e vive ainda, palpitante de glória e de audácia, no século XIX representada pelos legítimos émulos dos Albuquerques, dos Joões de Castro, dos Duartes Pachecos, dos Salvadores Correia de Sá.
Pátria — a Pátria que cantou e lavrou, navegou e batalhou, de cara erguida, e só se humilhou, contrita e frágil, a pedir perdão a Deus.
É essa Pátria imortal e altiva, capaz de dizer sim e capaz de dizer não, a Pátria das minhas convicções e das minhas aspirações, e não a Pátria que me querem dar, enquadrada em Federações ocidentais, sacrificando a sua independência em benefício dos outros, diminuindo a sua Vontade de Poder, para servir os outros, algemada, encadeada, mutilada, decepada para vantagem e gozo dos outros.
Rei — aquele Rei que a Realeza legítima e pura — legítima e pura na sua origem, legítima e pura na sua orgânica, legítima e pura na sua finalidade -, compreende, forma e garante.
Não esse Rei serventuário dos caprichos das turbas, enfeudado aos interesses volúveis das facções, enredado nos concluios dos grupos, à mercê, como catavento dócil, das combinações e das ambições dos demagogos e aventureiros, — mas aquele Rei que possa dizer, como no verso de Horácio:
«Non ego uentosa plebis suffragia uenor».
Não a esse Rei, boneco de Entrudo, palhaço de feira, movido a cordel, como os títeres das barracas dos Robertos, que o Liberalismo inventou, espalhou e consagrou — mas aquele Rei que reina e governa, que não cede o leme da Nau, porque só ele é responsável, perante Deus e perante a História, dos destinos do seu Povo.
Não podia dispensar-me de lembrar e fixar esta base doutrinária, porque só ela explica e justifica aquilo que vou dizer. É absolutamente necessário partir-se dessa base prévia e tê-la presente, para se compreender a posição que vou marcar.
Sou intransigentemente, fanaticamente católico; sou intransigentemente, fanaticamente patriota; sou intransigentemente, fanaticamente monárquico.
A intransigência não exclui a compreensão dos princípios, dos pontos de vista diferentes: antes a supõe: é precisamente porque compreendo o erro, que sou intransigentemente pela verdade.
O fanatismo não exclui a consciência raciocinante e a objectividade analítica: antes as supõe: é precisamente porque, em profundidade e em largueza, vivo, discuto, ausculto e critico; é precisamente porque estudo a frio, sem paixão que perturbe, sem amor que deforme, sem interesse que perverta, ou sem receio que acobarde, que sou fanático da Ideia que sustento, do plano em que me coloco.
Porque intransigente, não abdico, não contemporizo, não cedo; porque fanático, não me conformo nem me convenço.
Católico — sou católico integral, na aceitação do Dogma, na sujeição ao Credo que é indiferente ao que foi ou poderá ser; patriota — sou patriota integral, exclusivista, só duma peça; monárquico — sou monárquico integral, não admitindo transacções, subterfúgios, plebiscitos.
Não sou, pois, católico progressivo, papagaio de Maritain, a proclamar que a Igreja viveu vinte séculos no erro e no desvairo, sem se aperceber de que outro era o caminho a seguir, na sua missão e no seu dever, e de que o Social deve ser anteposto a tudo, substituindo a Terra em que vivemos ao Céu a que aspiramos e para que nascemos.
Não sou, pois, patriota manchado de Internacionalismo, pacifista por definição, e perpetuamente agachado diante do Estrangeiro — seja a Inglaterra que nos despreza, a Espanha que nos amesquinha, e o Brasil que nos não pode ver.
Não sou, pois, monárquico que reconhece a República, que a confunde com a Pátria, que a julga capaz de bem servir a Pátria.
O Catolicismo progressivo é a formiga branca introduzida na Igreja. O patriotismo internacionalizado é a anemia da Nação; o Monarquismo conchavado com a República é a Realeza traída.
O Catolicismo, o Patriotismo, o Monarquismo são conceitos fechados, noções rígidas, que não toleram elasticidade, mais ou menos. Toda a fissura que se abra nesses conceitos ou nessas noções é ataque fundamental à sua natureza; todo o énthema que se introduza nessas noções ou nesses conceitos é instrumento de corrupção do seu sistema; toda a emenda, correcção ou acrescento que se proponha a tais noções ou conceitos é o seu descrédito.
Toda a relatividade é diminuição do Ser. Ora os conceitos que acabo de enunciar são absolutos como o sim ou o não.
Salazar, ficando a meio caminho, disse um dia: «não se discute Deus, não se discute a Pátria». Eu acrescento: «não se discute a Realeza — porque Portugal é obra de Deus, do Rei e do Povo»...
Os que por aí proclamam e ensinam à Juventude — Deus, Pátria e Família-, são tão bárbaros e sacrílegos como se dissessem Pátria, Rei e Família, ou Deus, Família e Rei, porque no plano português, não podemos, nem devemos desarticular a expressão tradicional, que tem significado preciso, e alcance definido.
O que vou dizer agora á fácil de compreender, porque é lógico, e está indiscutivelmente dentro das premissas formuladas, como o fruto na semente, como o acto na potência, como a consequência na origem. Já estou farto e refarto de ouvir falar em Comunismo, para lhe bater, para o considerar o inimigo da Civilização ocidental, o inimigo da Europa, o inimigo do Mundo. Condenou-o, especialmente, em Encíclica solene — a Divini Redemptoris-, Sua Santidade o Pontíficie Pio XI; condenou-o, mas condenou também quem o afrontava com todas as armas. Contra ele caminharam os exércitos germânicos às ordens de Hitler; contra ele se mobilizaram inteligências e almas; contra ele se formou, às ordens de Franco a Divisão Azul. E até em Portugal contra ele se constituiu a Legião Portuguesa, e foi, visando-o, que se organizou a Mocidade Portuguesa... Tudo passou.
Também eu entrei no coro — desafinando um pouco, porque o meu fito ia mais longe e mais fundo. E é isso que me dá autoridade, para, hoje, bradar aos que têm por hábito, bom ou mau, o ouvir-me: — Basta de atacar, como até aqui, o Comunismo!
Estamos a malhar em ferro frio; estamos a bater numa sombra; estamos a espadeirar uma toalha de água.
Se, de facto, somos inimigos do Comunismo, e das suas torpezas, das suas blasfémias, das suas indignidades, das suas misérias e das suas infâmias, façamos a guerra impiedosa e permanente ao que o produz, ao que é a sua fonte e a sua razão de ser. Numa palavra, combatamos a Democracia; ataquemos a Democracia.
Corre mundo e entrou em todos os meios a blague sinistra de que, por serem variadas as máscaras da Democracia, não se sabe já o que a Democracia seja. Polímorfa, é certo; a sua substância, porém, é inalterável. E esse seu polimorfismo é o recurso interessado daqueles que a Democracia envenenou. E é à custa desse polimorfismo que a Democracia medra, se infiltra, conquista, perverte, e leva ao Comunismo.
Democracia cristã; Democracia orgânica; Democracia positiva; Democracia social; Democracia temperada; Democracia liberal; Democracia isto; Democracia aquilo; Democracia aqueloutro, são máscaras do mesmo erro, pseudónimos do mesmo mal, disfarces do mesmo cancro: a Democracia.
O polimorfismo satânico que a Democracia apresenta é fenómeno moderno: desconheceu-o Aristóteles; desconheceu-o S. Tomás.
Para os dois, a Sociedade podia ser monárquica, se governa um; aristocrática, se governam alguns; democrática, se governam todos.
Mas o governo de todos é um mito, porque é o absurdo. A sociedade é uma realidade; o governo é outra. Não há sociedade sem governo — proclamou-o Augusto Comte. Pode governar um; podem governar alguns; não podem governar todos. A Democracia que é o governo de todos, é conceito essencialmente metafísico, abstracção pura.
A Democracia nunca se realizou. Sociedade que tentasse realizá-la suicidar-se-ia. Sociedade a governar-se a si própria nunca existiu, porque a mesma noção de sociedade implica organização e hierarquia, e portanto governantes que mandam, governados que obedecem. A Democracia é a negação da organização e da hierarquia: todos mandam, todos governam, todos são soberanos. Nunca se viu; nunca se poderá ver. O mal da Democracia está, antes de mais nada, no mito que a constitui, na mentira que representa, na mistificação idiota que personifica.
As massas são crédulas, ingénuas ou estúpidas. Os seus exploradores, os que vivem, enriquecem, engordam, trepam e se fazem à sua custa são os profiteurs da Democracia, tão repelentes e tão sujos como aqueles cadastrados que vivem à custa das desgraçadas que pertencem a quem as compra.
O Comunismo, última fase da vida evolutiva da Democracia, é menos indigno do que esta — porque é franco, é lógico, é desassombrado. Os defensores, os propagandistas, os filósofos, os agentes, os sacerdotes da Democracia, ou são comunistas que se desconhecem, ou comunistas que se disfarçam.
Combata-se o Comunismo como consequência da Democracia; mas combata-se a Democracia, como antecedente do Comunismo.
Defender a Democracia, e combater o Comunismo, é de imbecil. Opor a Democracia ao Comunismo, é de ignorante.
Se a Democracia, sociedade em que todos governam, não existe, que é que existe com o nome de Democracia? Existe a sociedade em que alguns se governam — mentindo, iludindo, sofismando, arrastando o Povo atrás da sua mentira, levando-o, cego e surdo, atrás de uma ilusão!
As massas não raciocinam: crêem. E quanto mais compactas e mais numerosas são, mais obtusa e irreflectida e infantil é a sua crença.
Não há almas colectivas, não há razões colectivas, não há inteligências colectivas. As massas têm instintos, não têm Razão; têm reflexos, não têm discernimento. Porque as seduz à Democracia? Porque as encanta o Comunismo? Precisamente, porque são bárbaros e absurdos.
Mas essas Democracias que por aí passeiam a sua vida, que são afinal? São burlas escandalosas e é à sua qualidade de burlas que devem o poder viver.
São sociedades de negócios, materialistas, e jogadoras da vermelhinha — em que, repito, alguns se governam... São aristocracias de videirinhos. Eles sabem, como todos nós sabemos, que a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade são entre os homens mistificações, nuns, superstições, noutros. E gritam, e trombeteiam às massas, nos comícios e nos Parlamentos, nas campanhas eleitorais e nas alfurjas, nas gazetas e nos conclaves internacionais: Liberdade! Igualdade! Fraternidade!
E as massas crêem... E até crêem na mais estupenda das calúnias com que se pretende desonrar o Catolicismo — a de que a Democracia é de natureza católica!
As sociedades políticas, nacionais, pequenos Estados ou grandes Impérios, são realidades históricas. Não podem existir nem subsistir sem governos. É outra realidade histórica. Donde emana a autoridade desses governos? Quem lhes conferiu o poder de governar?
Para os católicos, a resposta é só uma: «Não há Poder que não venha de Deus» - ou, no latim da Vulgata: «non est potestas nisi a Deo». Até o poder ilegítimo? Nunca o Apóstolo o disse, nem podia dizê-lo. Porque antes dele já S. Lucas ensinava: «devemos obedecer mais a Deus do que aos homens: Obedire opportet Deo magis, quam hominibus». Logo, há dois Poderes, há duas Autoridades: o poder ou a Autoridade de Deus; e o Poder ou a Autoridade dos homens. Se pode haver conflito entre os dois, é porque um deles não emana de Deus. Logo, nem todo o Poder vem de Deus. Só vem de Deus o Poder que reconhece Deus como a sua fonte de origem. A Democracia tem como dogma fundamental que o Poder está na própria sociedade, e desta emana. Logo, a Democracia não vem de Deus. (Ver o meu ensaio teológico-político A Igreja e os Regimes Políticos, Lisboa, 1942).
Se a Democracia não vem de Deus, o católico não pode obedecer voluntariamente à Democracia, nem ser seu apologista, defensor ou serventuário.
Os interesses, as conveniências, as circunstâncias locais levaram, através dos tempos, mas muito principalmente nos séculos XIX e XX, os teólogos a espantosas aberrações no campo da exegese do preceito, da norma pauliniana. Nem os Papas se furtaram a elas... Em consequência do que aí temos a estender as suas raízes o erro maritainesco, mais prejudicial do que o de Lamennais e o do Sillon.
O Apóstolo limitou-se a enunciar o princípio de que não há poder legítimo que não venha de Deus. Não queiramos ir mais longe do que o Apóstolo, e não torçamos a sua expressão, para satisfazermos as nossas conveniências, e a nossa simpatia pelo Comunismo.
Deixemos descansar no silêncio dos túmulos, os teólogos dos sécs. XVI e XVII que compuseram largas ou sábias dissertações ao sabor de interesses mundanos e vantagens políticas.
Lembremo-nos de que a perda da nossa independência, em 1580, tanto encontrou teólogos que, em nome da Teologia e da Moral, a defenderam, como teólogos que a combateram, em nome da mesma Moral e da mesma Teologia... Os primeiros serviam o Rei de Espanha e Espanha; os segundos serviam Portugal e o Rei de Portugal...
Quando os homens se substituem a Deus, e falam em seu nome, como se Deus os autorizasse a fazê-lo, ou lhes confidenciasse os seus propósitos, não há disparate que se não invente, nem absurdo que se não propague.
Para nós, católicos, não há poder que não venha de Deus. Poder legítimo, não se esqueça...
Para os incrédulos, de onde vem ele? Das próprias sociedades? Emanando delas, são elas que governam. Mas como é impossível que elas se governem a si próprias, é manifesta a necessidade de se recorrer ao artifício, quero dizer, à prestidigitação. Logo, a Democracia é a mentira.
Para se fugir a esta mentira e às suas consequências, há doutrinadores que, obedientes ao critério positivista, se abstêm de procurar a origem do Poder. Verificam o facto, a realidade da existência do Poder, e não passam daí. É a melhor solução, no campo incrédulo.
Para acabar: fora da solução católica, não há solução: ou se renuncia a saber de onde emana a Autoridade, ou se recorre ao Absurdo e ao Dolo.
Mas na Democracia, não há Autoridade ou Poder, porque eu já disse que a Democracia é um mito. E S. Paulo, no meio do I.º século, dirigia-se aos Romanos, e não previa a Revolução francesa, nem a sua filha dilecta, a Revolução bolchevista...
Quando ele professava que todo o poder legítimo vem de Deus não pensava nem podia pensar na Tábua dos Direitos do Homem e do Cidadão. E se pudesse pensar, incluiria a Democracia de que essa tábua é expressão, no catálogo dos Poderes ilegítimos — ou seja dos que não vêm de Deus.
Indignaram-se muito, outro dia, certos orientadores da Opinião, porque a O.N.U., ou U.N.O., proclamou o seu ateísmo, ao aprovar o texto do artigo 1.º da Declaração Internacional dos Direitos do Homem que diz assim: «Os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. São dotados de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros dentro de um espírito de fraternidade».
O texto é imbecil da primeira palavra à última. Mas o Brasil pretendeu que esse texto começasse por estas palavras: «Criados à imagem e à semelhança de Deus, os seres humanos... etc.», esclarecendo que a menção da Divindade se dirigia a todos que crêem em Deus, a todos os crentes na acepção mais ampla do termo, qualquer que seja a sua opinião». Numa palavra: o Deus da emenda brasileira era um Deus para todo o serviço. A Rússia, acompanhada pelos representantes eslavos, logicamente, coerentemente, honestamente, opôs-se à heresia democrática. Afirmar Deus, a instituição substancialmente representativa da Democracia que é a sua negação formal, era contrário à Razão. E o Brasil, e os que o apoiavam reconheceram o bem motivado das alegações russas e eslavas — e retiraram a sua proposta ou emenda, sacrificando miseravelmente, mas o mais democraticamente que é possível, Deus ao ateísmo da Rússia! E a U.N.O., ou O.N.U., a mais alta instituição democrática, a mais representativa instituição da Democracia, apagou da pedra a afirmação da Divindade, mesmo sob aquela forma esdrúxula e cobarde da emenda brasileira!
Por isso me ri da indignação de certos papanatas da Opinião portuguesa, como me louvo, com toda a sinceridade, de não fazermos parte dessa chafarica ridícula, como peço a Deus que nunca permita que passemos as suas portas e nos sentemos nas suas bancadas — para darmos os votos às democracias maçónicas e judaicas.
A Democracia é, pois, o grande mal do século. Denunciá-la e combatê-la é o nosso dever. Dever sagrado, porque a Democracia está à espera de uma nova Enciclica Divini Redemptoris que a condene, com mais rigor ainda do que aquele que se usou para com o Comunismo.
O mundo inteiro aguarda ansiosamente que surja, no Vaticano, um novo Pio IX que erga, em suas mãos abençoadas, um novo Syllabus...
Porque a maré democrática bate o planeta em toda extensão; e este, se não lhe acudimos a tempo, afogar-se-á irremediavelmente.
II
A Opinião pública responsável dum Estado é de duas espécies: a opinião oficial, isto é, a dos seus governantes e dos seus agentes; a opinião dos espíritos esclarecidos.
As expansões da primeira têm que ser condicionadas pelas conveniências políticas, pelos melindres diplomáticos. Os governantes, ou os seus agentes, não dizem tudo o que pensam e sentem — a não ser que estejam dispostos a afrontar o pior.
As expansões de segunda opinião são livres, e devem sê-lo; e muitas vezes traduzem o que a primeira opinião não pode expôr.
Graças a Deus, faço parte da segunda opinião — a opinião dos homens independentes, e livres de quaisquer compromissos.
Estamos todos a respirar uma atmosfera nauseabunda de Democracia. Estamos todos atascados em Democracia.
E queremos salvar-nos! E queremos combater o Comunismo!
Falam-nos em Democracia, os Estados Unidos da América e as Repúblicas sul-americanas. Fala-nos de Democracia, a Inglaterra. Fala-nos de Democracia, a França. Falam-nos de Democracia, a Bélgica, a Holanda, a Suíça, a Dinamarca, os Estados escandinavos. Falam-nos de Democracia, a Itália, a Grécia, o Luxemburgo, a Turquia, o Egipto, a Etiópia. Falam-nos de Democracia, a Rússia, a Roménia, a Bulgária, a Checoslováquia, a Rússia, a Roménia, a Bulgária, a Checoslováquia, a Jugoslávia, a Polónia. Fala-nos de Democracia, Sua Santidade. Fala-nos de Democracia, a Espanha de Franco. E fala-se de Democracia entre nós — e não é só o general Norton de Matos...
Parece que toda a gente tem vergonha de não ser Democrata, e de não pertencer à Democracia!
É certo que cada um pinta a sua Democracia da côr que mais lhe convém ou mais lhe agrada — desde a Rússia que se diz a mais pura e a primeira das Democracias, à Santa Sé que nos deu da Democracia um retrato futurista. Mas todas elas, com a sua essência mitológica, têm um denominador comum que é a escroquerie da Soberania popular, e um destino fatal que é o Comunismo.
Quando em 1945, a Alemanha hitleriana, anti-democrática e anti-comunista, foi esmagada pelas Democracias, o mundo embandeirou, ébrio de ventura, doido de alegria; encheram-se as ruas e as praças de democratas; iluminaram-se os edifícios; dançou-se; ceou-se Democracia — foi o delírio. O mundo inteiro empanturrou-se de Liberdade e Democracia...
Os grandes homens das Democracias — Roosevelt, Estaline, Churchill e Truman foram colocados nas aras dos deuses. E as massas, elefantíacas ou dromedárias, guiadas, tangidas pelos seus espertos cornacas, espalharam-se pelas praças, pelas ruas, pelas avenidas, por toda a parte, a aclamar Estaline, Churchill, Roosevelt e Truman...
As Democracias estavam senhoras do mundo. E o mundo que não encontrara a Ventura em dezoito séculos de Catolicismo, via-se, agora, a braços com a Ventura, mercê da vitória das Democracias.
E ressuscitou-se o pandemonium de Genebra, agora crismado de U.N.O. ou O.N.U., e muito pior, em matéria de dislates, do que a sua antecessora...
A primeira manifestação encantadora dessa O.N.U. ou U.N.O. foi a de consagrar o sistema de dividir os Estados do mundo em duas classes: a classe dos três Grandes, a tanger: Rússia, Estados Unidos e a Inglaterra; a classe dos Estados vassalos, os tangidos — todos os outros. Os três Grandes dirigem o baile; os Estados vassalos dançam sob o chicote florido.
Mas ainda os fumos da Vitória pairavam sobre o mundo, como gazes asfixiantes, e já os três Grandes se não entendiam, fora da missão de despachar para a forca, em Nuremberga, homens que tinham praticado o crime estupendo de amar e servir a sua Pátria — porque nessa missão sinistra todos os três comungavam no mesmo sentimento canibalesco...
A Ursa moscovita erguera-se, raivosa, contra o Leopardo britânico e a Hiena americana. A Ursa é democrática; o Leopardo é democrático; democrática é a Hiena. São, todos três, os expoentes indiscutíveis da Democracia, os paradigmas da Democracia, os papiros da Democracia.
A Ursa vivia para lá da Europa, no seu fojo nevado, sem se atrever a levantar a pata para a Europa, porque a defender esta, havia, vigilante, a Águia germânica. Mas o Leopardo e a Hiena fizeram sociedade com a Ursa para abaterem a Águia. E a Águia foi abatida. E o Leopardo e a Hiena entregaram a Europa à Ursa. Já esta se passeia nas ruas de Berlim, preparando-se para dar o salto sobre o que falta, para o lado de cá. E a Hiena americana discute consigo própria se deve vir a Ursa até aos Pirinéus, ou se deve contê-la no Reno!
Outro dia, o sr. Churchill fez um discurso que me divertiu fartamente — como, aliás, quase todos os seus discursos que são duma mediocridade só comparável à inteligência dos pasmados que os admiram. Em seu discurso, o sr. Churchill acusa a Ursa de uns tantos crimes — desde a pressão que exerce sobre os seus satélites na Europa, até à fomentação dos distúrbios na Malásia e na Indonésia. Simplesmente tudo aquilo de que o sr. Churchill acusa a Rússia, é obra do mesmo sr. Churchill e do seu irmão Roosevelt.
Mais criminosos do que a Ursa, mais merecedores da exautoração mundial do que ela, são os srs. Churchill e Roosevelt que atraiçoaram a Civilização ocidental, e desfizeram para sempre a Ordem social europeia, quando entregaram os destinos da Europa à mesma Ursa. Certas revelações que estão a correr mundo, feitas pelo sr. W. Bullitt, levam-nos à conclusão trágica de que a Europa foi traída por um tonto. O sr. Bullitt é mais expressivo do que eu, porque o acusa com brutalidade de dizer sistematicamente sim a tudo quanto o «malfeitor caucasiano» pedia. Repare-se bem: para o sr. Bullitt, Estaline é apenas «o malfeitor caucasiano»; o seu parceiro Roosevelt é outra coisa pior...
Eu ainda vou pelo «malfeitor»...
Devemos ser justos; e eu tenho que ir até ao fim.
Quando a vitória das Democracias atroava os ares, apareceram não só os seus agentes directos, mas os seus auxiliares discretos. Entre estes, não posso deixar de colocar a nossa vizinha, a Espanha.
A sua situação não deve comparar-se com a nossa; as suas responsabilidades não devem confrontar-se com as nossas. Nós temos uma Aliança que nos prende, nos condiciona, nos obriga e, de certo modo, nos guia. A nossa vida internacional é pautada por essa Aliança. A Espanha tem vinte e cinco milhões de habitantes — mais de metade da população da França, mais de três vezes a nossa população. Não tem aliança militar ou política que a tolha; não tem Império ultramarino que a preocupe. São livres os seus passos, são desembaraçados os seus gestos. A sua vitória contra o Comunismo deve-a ao sangue dos seus filhos, ao sacrifício do seu Povo, ao esforço dos seus soldados. Mas deve-a também ao auxílio estranho: ao auxílio que nós lhe demos, guardando a sua fronteira ocidental; e ao auxílio que lhe deram a Alemanha hitleriana e a Itália fascista. Eu sei que os Povos não tomam atitudes por sentimentos de gratidão, embora as tomem, às vezes, por sentimentos de represália. Mas a Espanha sentira na sua carne, e experimentara na sua alma, o que são as Democracias. Isso devia levá-la a contribuir até o extremo para a derrota do Comunismo, para a derrota das Democracias. Defendia-se do perigo daquela, e dos malefícios destas. E no entanto, depois de ter mandado uma Divisão de voluntários, a Divisão Azul, para a frente germano-russa, e depois de ter solenemente prometido um milhão de homens para deter, na fronteira da Europa, o avanço da Rússia soviética, não só não enviou um homem do seu Exército regular, mas retira da Rússia a simples Divisão Azul, sob pressão das Democracias. É isto combater o Comunismo?
Reduz, sob pressão das Democracias, o fornecimento de volfrâmio à Alemanha a uma quantidade simbólica. É isto combater o Comunismo?
Mobiliza as suas tropas, quando desconfiia de que a Alemanha projecta descer até Gibraltar, dando um golpe, talvez decisivo, segundo depoimentos insuspeitos, na evolução dos acontecimentos. (E. J. Hughes, L`Espagne de Franco, pág. 324; François Miraudet, L`Espagne de Franco, pág. 141).
É isto combater o Comunismo?
«En manos de la voluntad española se encontraba, pues, en aquellas horas la posibilidad del exito o del fracaso de la mayor batalla anfibia que registra la Historia», diz José Maria de Areilza (Embajadores sobre España, pág. 103).
E que garantiu a Espanha anti-comunista? O êxito das Democracias!
Gaba-se a Espanha pela pena do famoso Gregório Marañon, do que a sua neutralidade foi ou representou, «para los Aliados en su estrategia y en su politica, es decir, en su victória».
O que o citado Areilza confirma: «Por haber sido nosotros, entonces, neutrales, pudieron luego ser vencedores los Aliados». (pág. 28).
É isto combater o Comunismo?
Observar-me-ão talvez que a Espanha não podia, não estava em condições de entrar na guerra. Mas então para que prometia o milhão de soldados a empregar, quando fosse necessário deter o colosso russo, na fronteira oriental da Europa?
Poder-me-ão dizer que «a España no podia intervenir dignamente en una contienda ajena a sus intereses y aspiraciones». (Areilza, pág. 28).
Contenda alheia a seus interesses? Mas então era-lhe indiferente a vitória das Democracias e do Comunismo? Contenda alheia às suas aspirações? E Gibraltar? E Marrocos?
Se a sua neutralidade, ou a sua política abstencionista, lhe foi imposta pelas circunstâncias da sua vida económica ou militar, não lhe impunha menos a dignidade do Espírito um silêncio discreto sobre a vitória das Democracias. O que escandalizou e escandaliza é o seu desvanecimento diante dessa vitória das Democracias suas inimigas, e a sua alegação dos serviços que lhes prestou e consequentemente ao maldito Comunismo.
Se a Espanha, ao contrariar os desígnios da Alemanha, ao embaraçar os seus projectos, ao esquivar-se a ajudá-la, e, portanto, ao favorecer e servir a causa das Democracias, procedeu conscientemente, estou convencido de que obedeceu a uma força, não direi misteriosa, mas certamente oculta: entrou na conjura anti-alemã, democratófila, bolchevistófila, cuja amplitude abrangia o Papado, a Sinagoga, a Maçonaria, a Democracia. Porque todas estas forças se combinaram e entenderam para que fosse derrotada, escravizada e dispersa a Germãnia anti-democrática que podia ter, e teve, erros, que podia ter, e teve, pecados, que podia ter desvios, — mas desvios, pecados e erros de que nenhum povo está isento. Tanto se acusa a Alemanha de se considerar Povo eleito, destinado a governar o mundo! E afinal Povo eleito se considera a Democracia, destinada a dirigir o mundo — pela inocência, pela pureza, pela santidade!
Enganou-se a Espanha, ou enganaram-na?
É possível. Como se está a ver, pelas revelações de Bullitt, Estaline, como se diz em boa linguagem portuguesa, comeu descaradamente o grande Churchill... Também a Espanha podia ter sido enganada.
Mas nesta hipótese, e porque em política os enganos se pagam caro, eu queria ver a Espanha mais modesta na alegação dos serviços que diz e proclama ter prestado às Democracias, e mais humilde, quando se declara inimiga do Comunismo...
Porque tudo nela é contradição e enigma. Sofre as calamidades e as angústias, as misérias e os calvários duma guerra civil — contra o Comunismo. Nessa guerra civil, tem como seus inimigos as Democracias. Na guerra planetária, tomam a mesma posição lógica e natural, fazendo frente única, as Democracias e o Comunismo. Que papel desempenha a Espanha? Torna-se auxiliar do Comunismo e das Democracias! Destas, directamente; indirectamente, do Comunismo.
Esperava-se, apesar disso, a queda da Espanha nacionalista, logo a seguir à vitória das Democracias. Esperei-o eu.
Porque está ela ainda de pé — embora bastante abalada? Porque a sofreguidão e a precipitação dos Imperialismos russo e americano transformando-os de companheiros em inimigos, desviam as duas Democracias do objectivo primitivo — a liquidação drástica do caso espanhol.
Mas ainda houve tempo bastante para todas as Democracias vitoriosas manifestarem a sua animosidade ingrata em relação a Espanha, fechando-lhe a porta da O.N.U. ou U.N.O., retirando de Madrid os seus Embaixadores, e considerando-a indesejável e pestífera.
Até a Hispanidad se rompeu...
Outro dia, em Paris, no mesmo dia, e à mesma hora, se festejou o dia da raça — na sede do governo republicano e democrático espanhol no exílio, e na sede da Embaixada da Espanha legal.
A Hispanidad dividiu-se. Os representantes diplomáticos do México, de Cuba, do Panamá, de Guatemala e do Haiti compareceram em massa na festa dada pelo Governo republicano e democrático; os representantes da Argentina, do Brasil, do Chile, da Bolívia, do Peru, da Colômbia, de Nicarágua e de S. Domingos correram à Embaixada. Os da Venezuela começaram por dar, eles próprios, a sua festa — e depois foram apresentar os seus cumprimentos ao governo republicano e democrático no exílio...
Ora se a Espanha havia de vir a colher estes frutos amargos, de nada lhe serviu pôr-se incondicionalmente ao lado das Democracias, concorrer para a sua vitória, e ser cúmplice na desgraça, na escravidão e na miséria da Alemanha...
Não há ninguém de inteligência limpa que a irresponsabilize da vitória comunista.
Demorei-me a falar da Espanha, porque a sua atitude é um caso típico, no quadro da política contraditória, inconsequente, absurda e supremamente perigosa que está a caracterizar o mundo, criando o mito venenoso da distinção entre a Democracia e o Comunismo. A Democracia, em frente do Comunismo, é fortaleza de areia ou cortina de fumo, não vale nada, porque traz o Comunismo nas próprias entranhas. A Democracia não é, ideologicamente, de natureza diversa do Comunismo. O que se está a observar é o preparativo duma guerra não entre a Democracia e o Comunismo, mas entre Democracias e Estados comunistas.
Assim como houve guerras entre Monarquias católicas, por motivos imperialistas, ou de expansão de domínio, também é possível que as duas grandes Democracias, se não chegarem a acordo, na posse da Europa, se enfrentem em campos de batalha — cada uma delas com os seus satélites. Não por motivos ideológicos, visto uma e outra serem Democracias — ramos da mesma árvore, árvores da mesma semente, sementes da mesma origem, mas por motivos puramente materialistas, imperialistas, de domínio.
Se o mundo chega para as duas, a Europa é, para as duas, pequena em demasia.
Os malefícios daquela política contraditória, e absurda, está o mundo inteiro a sofrê-los, e muito especialmente a Europa, esta nossa crucificada Europa, do lado de cá da «eiserne Vorhang» de que nos falava von Krosigk. (Porque a expressão «cortina de ferro» é alemã de origem, e o sr. Churchill nada mais fez do que roubá-la muito britânicamente aos alemães...)
Distinguindo a Democracia do Comunismo — para favorecer, proteger e defender aquela, combatendo este, nós estamos a servir o Comunismo; e estamos como lorpas ou estúpidos, a alimentar, a sustentar, a engordar a fera que nos há-de tragar...
É uma espécie de neo-suicídio.
É à sombra dessa política depravada que a América quer arrastar-nos a entrar na guerra contra a Rússia - não por esta ser detentora da mais alta expressão política da Democracia, mas por ela ser a sua concorrente na expansão imperialista que as inspira e determina. Que nos chumbem aos pés a grilheta da foice e do martelo ou a grilheta estrelada é-nos indiferente — porque ambas são grilhetas.
E nós não somos portugueses para servir Washington ou Moscovo. Somos portugueses, para servir Portugal. E Portugal serve-se não fazendo fretes a Washington ou lambendo as botas do Comunismo, mas sim denunciando o veneno democrático-comunista, e repudiando tudo quanto traga a marca de Democracia. Portugal serve-se, fomentando-lhe a consciência da sua personalidade, e desmascarando o embuste que aquela política contém. Portugal serve se desfazendo-lhe o complexo de inferioridade perante o estrangeiro que o tolhe, e libertando-o das fraquezas, cobardias e indecisões que caracterizam a sua vida política por influência da Democracia.
É por isso que andamos a arrastar, há vinte anos, o peso morto da República, e não tivemos ainda a coragem de limpar da pele o símbolo anti-português que o Cinco de Outubro nela tatuou.
Ai! o grande erro, o imperdoável erro do 28 de Maio foi o de não ter sabido libertar a Nação da República, o de não ter compreendido que entre a Nação e a República há um abismo insuperável, porque a República é a Democracia, e a Nação é a Ordem, a Autoridade, a Tradição e a Hierarquia. Quem fala em nome da República não é o Estado Novo: é o sr. Norton de Matos, Grão-Mestre da Maçonaria e candidato grotesco à Presidência da República. O Estado Novo só fala em nome de um equívoco...
Tudo isto que traz o país desorientado e inquieto é obra dessa política que desfralda a bandeira da Democracia e ao mesmo tempo, se declara hostil ao Comunismo.
Vejo envolvidos nessa política absurda e contraditória, os dois povos peninsulares e a Igreja Católica - nas suas camadas progressivas.
Como português, interessa-me singularmente o que se passa em Portugal. Como católico, preocupa-me a orientação política de certos elementos da Hierarquia e certas vozes consagradas.
Tendo em vista o que se passou na Europa, nestes últimos vinte anos, mas muito particularmente desde 1939 a 1945, verifico que o avanço do Comunismo, a sua entronização, a sua força, o seu prestígio, a sua audácia, são, em grande parte, obra da Política contraditória e absurda a que me tenho referido — a tal política que distingue a Democracia do Comunismo...
Política que é a da Igreja progressiva que tem, em Portugal, representantes autorizados, e política que, em Portugal, tem partidários, mesmo entre os elementos da Situação.
Quando a Alemanha, em 1939, firmou com a Rússia soviética o pacto de não agressão, eu escrevi que isso para nós não tinha importância, porque nada nos prendia ao Reich. Mas quando a Inglaterra firma com a Rússia soviética o tratado de amizade de 1941, gritei o alerta do perigo iminente, porque a nossa Aliança podia arrastar-nos a uma colaboração repugnante, e impor-nos, como impôs, uma solidariedade moral com o Comunismo, através dos nossos deveres para com a Inglaterra. Pois se esta obrigou a Espanha a retirar a sua Divisão Azul da frente germano-russa, a que nos não obrigaria ela, em relação à Rússia, se as necessidades da guerra assim o exigissem?
E não se diga que assim como apoiámos a Alemanha na sua luta contra o Comunismo, devemos apoiar os Estados Unidos na sua atitude em face da Rússia. Não sofismemos. Em primeiro lugar, os Estados Unidos não hostilizam o Comunismo — mas a concorrência russa no campo económico, financeiro e comercial; sujeitam-nos à Democracia, e só em nome da Democracia nos falam...
Em Portugal, há duas frentes: a frente revolucionária, comunista, comunizante ou comunizável — sólida, firme, unida, que sabe o que quer, e a frente oposta, ou que se diz oposta, flutuante, imprecisa, com brechas abertas por toda a parte, viciada na sua origem, sem finalidade positiva, sem objectivo definido, à mercê dum pé de vento...
Esta frente está corrompida pela acção da Democracia — a Democracia exterior, e a Democracia interior. O espectáculo que os julgamentos do Tribunal Militar de Stª. Clara deste ano nos deram, e em que encontrámos, cingidos no mesmo abraço, solidários na mesma obra, procurando o mesmo fim, monárquicos, republicanos, comunistas, e situacionistas, revelou-nos um estado político mórbido que é obra da Democracia, e de que temos que nos afastar. A primeira frente é precisa e definida; a segunda frente ninguém sabe onde ela começa e onde ela acaba, tantas e tantas são as infiltrações parasitárias que a devoram.
Pois bem. É chegada a hora do grande combate, da grande tentativa de salvação, em que temos de jogar tudo — desde a saúde, as comodidades, os interesses, até à vida. Temos que constituir uma frente idêntica, na sua orgânica, à frente em que não entre o mais leve prestígio de Democracia — orgânica ou inorgânica, positiva ou metafísica, católica ou ateia, monárquica ou republicana, judaica ou rotária. À Democracia pura dos comunistas, e à Democracia impura, por timidez ou tacanhez ou cobardia ou interesse dos outros, oponhamos absolutamente, fanaticamente, intransigentemente, a não-Democracia. A Imprensa é toda democrática? É. As Emissoras da Rádio são todas democráticas, incluindo a Emissora Nacional? São. Nós não temos Imprensa diária nem temos Emissoras. Somos muito poucos. Nem todos os que me escutam serão como eu - inimigos totais, integrais da Democracia. Paciência. Cá chegarão. Mas é preciso começar.
E o primeiro campo a trabalhar é o da Mocidade Portuguesa!
Urge, hoje como nunca, arrancar a Mocidade Portuguesa do terreno escorregadio, viscoso, lamacento em que a deixaram cair. A Mocidade Portuguesa, hoje, é uma instituição puramente desportiva: saem dela, creio eu, magníficos atletas, dextros guarda-redes, esplêndidos patinadores, delicados esgrimistas, ousados cavaleiros, infatigáveis remadores, impávidos futebolistas, assombrosos ginastas, e razoáveis frequentadores de cantinas. São campistas exímios, ciclistas inolvidáveis, velívagos sem par, nadadores incansáveis. Numa palavra, creio que são todos Prémios Nobel do Desporto. Almas? Espíritos? Inteligências? Não sei. Mas o que sei é que são destituídos de qualquer ideologia sã, verdadeiramente nacional, autenticamente portuguesa. Também a Democracia os arrepanhou, os tocou com o seu ferrete diabólico. A Pátria está a perder a Mocidade Portuguesa — porque a abandona às seduções materialistas do Desporto, e à abstinência deplorável duma formação cultural estruturalmente portuguesa. Os homens de amanhã, os nossos governantes de amanhã serão mestres no Desporto, mas absolutamente inoperantes na vida social, política e governativa do País. Serão, quando muito, improvisadores — sem formação prévia, aquela formação que só é eficiente, quando tem raízes, alicerces adquiridos à medida que os espíritos se desenvolvem.
Notemos, senhores, que Salazar não saiu dos desafios de futebol, nem das corridas pedrestes, do campismo, ou do footing. A par da sua competência de técnico financeiro ou de Economista, trouxe para o Governo da Nação o que ela ainda, em um século de Liberalismo, não conhecera nem experimentara: uma Filosofia política de profundas raízes históricas tradicionais que as circunstâncias peculiares do País não deixaram ainda que dessem tudo o que contêm.
Nunca a Mocidade Portuguesa, encaminhada como está hoje, será capaz de produzir ou servir uma Filosofia política idêntica ou paralela àquela que inspira o pensamento de Salazar.
Temos que salvar a Mocidade Portuguesa. Se a salvarmos, sejam quais forem os destinos desta gloriosa mas desventurada Pátria, nunca poderemos ser acusados de cúmplices do seu infortúnio.
Se a não salvarmos, se persistirmos nesta apagada e vil tristeza em que temos vindo, seremos um dia arrastados ao Tribunal da História, e julgados como Réus de traição à Pátria e aos nossos deveres de portugueses.
Comecemos e sem demora. E que o primeiro passo da nossa intervenção seja o de educarmos o espírito da Mocidade no sentido claro e inequívoco de uma hostilidade manifesta às influências da Democracia. Comecemos por... onde começaram as Democracias. Essas apoderaram-se dos espíritos, e injectaram-lhes em doses maciças, os estupefacientes democráticos e revolucionários.
Tomemos, nós, à nossa conta, a Mocidade Portuguesa, em todos os seus graus, e, sem polémicas ou discussões, ensinemo-la cientificamente, objectivamente, a rejeitar os sofismas e os absurdos democráticos, como a ensinámos a denunciar os sofismas ou os absurdos filosóficos ou pretensamente científicos.
Defendê-la dos prejuízos democráticos é tão legítimo, tão sério, e impõe-se-nos tanto, como defendê-la dos prejuízos materialistas ou anti-patrióticos.
Ensinemos-lhe o anti-democratismo, como lhe ensinámos o ABC, os teoremas matemáticos, as leis da Física, as fórmulas químicas, as noções da Anatomia ou o amor dos Pais.
Criemos na Mocidade Portuguesa tendências fundamentalmente portuguesas, rodeemo-la duma atmosfera tipicamente anti-democrática. Façamos dela uma força activa, consciente, voluntariosa, posta ao serviço de Deus, da Pátria, e do Rei. Façamos dela a projecção rectilínea do Portugal histórico, dos oito séculos do Portugal português.
Gritemos, sem cessar, aos seus dirigentes, que não queremos que os nossos filhos e os nossos netos se queimem nas aras do Desporto, com sacrifício do que devem ao Passado da nossa Pátria. Despertemos, na Mocidade Portuguesa, ideais espirituais, o culto transcendente da Pátria autónoma e livre.
O inimigo espreita-a, e não sei mesmo até que ponto já penetrou nela. Acudamos-lhe, enquanto é tempo. Defendamo-la, enquanto é tempo, salvemo-la, enquanto é tempo.
Alfredo Pimenta
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Receio que ao alvoroçado entusiasmo do princípio, suceda o desinteresse da continuação. Difíceis e raros são os amores que perduram, vivos e frescos, através dos anos, como nas primeiras horas dos primeiros olhares, ou nos primeiros minutos dos primeiros beijos... Tudo cansa, tudo fenece.
Nesta disposição de espírito, porque vim? Em primeiro lugar, para não ser desagradável a quem me pediu que viesse, e não desconsolar ou desiludir quem me assegurou que o entusiasmo era o mesmo, e inalterável, e o mesmo o sentimento de comunhão e compreensão.
Em segundo lugar, porque...
A gente nunca sabe o que é o primeiro minuto marcado no relógio do futuro. E se a mocidade tem probabilidades (e quantas vezes, ilusórias!) de uma estrada longa a percorrer, a velhice, prematura ou retardada, vai tendo de instante a instante mais reduzida margem para os seus cálculos ou para os seus projectos.
Ora se os que me escutam são, de um modo geral, moços radiantes e irradiantes, a encarar horizontes longínquos e previsões esfumadas pelas distância, que direi eu de mim?
Se, graças aos privilégios que uma Providência incompreensivelmente generosa me concede, não estou ainda tolhido, nem trôpego nos meus passos, não é menos verdade que de há muito que estou à espera do sinal da partida definitiva.
Como dizia o outro, «os milagres he justo que se cream, he bom que se mereçam, mas não he razão que se esperem».
E assim, ao ser convidado para esta noite, reflectindo, influiu na minha decisão a hipótese de ser este o último encontro. E eu tenho coisas a dizer, que me penalizaria não deixar ditas.
É que se aproxima a hora do grande combate — o combate de Deus contra o Demónio, isto é, o combate dos homens que falam em nome de Deus, com os homens que falam em nome do demónio.
Deus é eterno, não pode sucumbir; mas podem sucumbir os homens de Deus, isto é, pode Deus morrer para os homens que representam o Demónio, como já anda muito desfalecido para os homens que O representam a Ele.
Será esse combate, combate de múltiplos aspectos, de múltiplas acções, em que os campos de batalha serão incontáveis. Combate de ideias, de sentimentos e de actos.
Combate exaustivo, definitivo, em que jogaremos tudo e tudo arriscaremos, para salvarmos tudo. Combate em que não haverá piedade, nem descanso — porque quem se apiedar ou descansar será vencido. Combate que será como a mais intensa e mais extensa trovoada do Céu, com os seus estampidos de ensurdecer, e seus raios de endoidecer...
Para este combate preparam as armas os que têm armas, preparam as almas e as vontades os que têm vontades e almas.
Para esse combate preparam-se os Povos e preparam-se os Indivíduos. Tudo se apresta para o grande choque, donde queremos que saia a luminosidade transparente do Céu, mas donde pode sair, ai de nós!, o cataclismo apocalíptico do Inferno.
Desde o alvorecer da Renascença que o mundo vem caminhando, a direito, para este combate. Renascença, Reforma, Revolução Francesa, Liberalismo, Modernismo, Sillonismo, Bolchevismo, Catolicismo progressivo, eis os prólogos, os ensaios, os preparativos, as tentativas do grande Combate que nos espera. Milhares de afluentes concorrem para a constituição ou formação do grande Amazonas da Revolução. Em que vasto Atlântico desaguará o grande Rio?
É o segredo de Deus. Mas aos homens incapazes de o descortinar, talvez porque o não mereçam, cumpre não fugir à sua missão, nem desertar do seu dever de se esforçarem por esse grande Atlântico do Bem, o Reino de Deus.
O grande Combate espera-nos...
Quando deflagrará ele? Na minha vida? Daqui a vinte anos? Daqui a cinquenta ou cem anos? Não importa.
O grande combate será...
Pois que há-de vir, pois que é fatal que venha, preparemo-nos para ele. Arranquemos as máscaras; dissolvamos os embustes; desarticulemos os equívocos; esvaziemos as bolas de sabão; pulverizemos as nuvens — se queremos ganhar o combate. Levemos a verdade no coração, a sinceridade na alma, a franqueza nos lábios, a rectidão nos olhares, se queremos ganhar o combate. Não nos deixemos enredar em subterfúgios habilidosos, nem nos deixemos perder em combinações maquiavélicas, nem deixemos desvirtuar os nossos objectivos, sacrificando-os a espertezas interesseiras — se queremos ganhar o combate.
Encontraremos e cimentemos o Essencial que nos pode unir; e fechemos os olhos ao Secundário que nos divide — se queremos ganhar o combate.
Ora o Secundário que nos divide tem, na terra e entre os homens, um nome: Democracia.
O Essencial que pode unir-nos e a Inteligência esclarecida proclama, e as lições multiseculares da História confirmam; o Essencial que pode unir-nos e a Filosofia formula, e a Experiência garante, é constituído por três noções substanciais que eu, desde a maioridade do meu Espírito, caracterizada pela mais intensa independência e a mais manifesta autonomia, infatigavelmente afirmo: Deus, Pátria e Rei.
Deus — na pureza do Dogma católico — o único verdadeiro; Pátria, na plena manifestação da sua soberania indecomponível; Rei — como sempre foram os Reis legítimos: responsáveis perante Deus, sem os outros embaraços nas suas determinações que não sejam os da sua consciência e os da compreensão dos seus deveres.
Deus — não o Deus dos vários cultos, superstições, idolatrias, ou religiões, mas o Deus da Igreja Católica Apostólica Romana que tem sido, até agora, a única Religião verdadeira no mundo, e que para mim, será, até o último alento, a única religião verdadeira na vida.
Deus — o Deus do Catolicismo definido e rigoroso, e não o Deus do Cristianismo furta-cores, saco onde cabe tudo — desde o Rotarismo maçónico ao Liberalismo maritainesco, desde a heresia luterana ao teosofismo americano.
Deus — o Deus do Catolicismo que é o único em que creio, o único que adoro, e não o Deus dos conclaves internacionais, pau para toda a obra, leitmotiv de todos os discursos de todas as chafaricas leigas e racionalistas, moeda de troca no balcão de Estaline, ou no guichet de Truman.
Pátria — a Pátria dos nossos antepassados que se fez contra o castelhano ou contra o mouro, que teve os judeus concentrados nos seus ghettos, e abriu as portas do mundo aos outros povos.
Pátria — a Pátria dos portugueses, cuidadosa das suas fronteiras, ciosa da sua liberdade, e inflexivelmente fiel à sua soberania, e não a Pátria bastarda, diminuída na sua vontade, algemada na sua expansão, e cerceada no seu Direito.
Pátria — a Pátria de Ourique e de Aljubarrota, de Montes Claros e do Bussaco; a Pátria que dominou os mares e a Índia, que fez o Brasil, e deu a volta ao mundo, e, em pleno século XIX, perante a Europa atónita, trouxe à corte de Portugal, como escravo, o maior e mais temível régulo da África oriental - amigo de S. Majestade a Rainha Victória da Grã-Bretanha, e Imperatriz das Índias...
Pátria — a Pátria da luminosa dinastia dos soldados do Ultramar, que começa em Ceuta, na madrugada do século XV e vive ainda, palpitante de glória e de audácia, no século XIX representada pelos legítimos émulos dos Albuquerques, dos Joões de Castro, dos Duartes Pachecos, dos Salvadores Correia de Sá.
Pátria — a Pátria que cantou e lavrou, navegou e batalhou, de cara erguida, e só se humilhou, contrita e frágil, a pedir perdão a Deus.
É essa Pátria imortal e altiva, capaz de dizer sim e capaz de dizer não, a Pátria das minhas convicções e das minhas aspirações, e não a Pátria que me querem dar, enquadrada em Federações ocidentais, sacrificando a sua independência em benefício dos outros, diminuindo a sua Vontade de Poder, para servir os outros, algemada, encadeada, mutilada, decepada para vantagem e gozo dos outros.
Rei — aquele Rei que a Realeza legítima e pura — legítima e pura na sua origem, legítima e pura na sua orgânica, legítima e pura na sua finalidade -, compreende, forma e garante.
Não esse Rei serventuário dos caprichos das turbas, enfeudado aos interesses volúveis das facções, enredado nos concluios dos grupos, à mercê, como catavento dócil, das combinações e das ambições dos demagogos e aventureiros, — mas aquele Rei que possa dizer, como no verso de Horácio:
«Non ego uentosa plebis suffragia uenor».
Não a esse Rei, boneco de Entrudo, palhaço de feira, movido a cordel, como os títeres das barracas dos Robertos, que o Liberalismo inventou, espalhou e consagrou — mas aquele Rei que reina e governa, que não cede o leme da Nau, porque só ele é responsável, perante Deus e perante a História, dos destinos do seu Povo.
Não podia dispensar-me de lembrar e fixar esta base doutrinária, porque só ela explica e justifica aquilo que vou dizer. É absolutamente necessário partir-se dessa base prévia e tê-la presente, para se compreender a posição que vou marcar.
Sou intransigentemente, fanaticamente católico; sou intransigentemente, fanaticamente patriota; sou intransigentemente, fanaticamente monárquico.
A intransigência não exclui a compreensão dos princípios, dos pontos de vista diferentes: antes a supõe: é precisamente porque compreendo o erro, que sou intransigentemente pela verdade.
O fanatismo não exclui a consciência raciocinante e a objectividade analítica: antes as supõe: é precisamente porque, em profundidade e em largueza, vivo, discuto, ausculto e critico; é precisamente porque estudo a frio, sem paixão que perturbe, sem amor que deforme, sem interesse que perverta, ou sem receio que acobarde, que sou fanático da Ideia que sustento, do plano em que me coloco.
Porque intransigente, não abdico, não contemporizo, não cedo; porque fanático, não me conformo nem me convenço.
Católico — sou católico integral, na aceitação do Dogma, na sujeição ao Credo que é indiferente ao que foi ou poderá ser; patriota — sou patriota integral, exclusivista, só duma peça; monárquico — sou monárquico integral, não admitindo transacções, subterfúgios, plebiscitos.
Não sou, pois, católico progressivo, papagaio de Maritain, a proclamar que a Igreja viveu vinte séculos no erro e no desvairo, sem se aperceber de que outro era o caminho a seguir, na sua missão e no seu dever, e de que o Social deve ser anteposto a tudo, substituindo a Terra em que vivemos ao Céu a que aspiramos e para que nascemos.
Não sou, pois, patriota manchado de Internacionalismo, pacifista por definição, e perpetuamente agachado diante do Estrangeiro — seja a Inglaterra que nos despreza, a Espanha que nos amesquinha, e o Brasil que nos não pode ver.
Não sou, pois, monárquico que reconhece a República, que a confunde com a Pátria, que a julga capaz de bem servir a Pátria.
O Catolicismo progressivo é a formiga branca introduzida na Igreja. O patriotismo internacionalizado é a anemia da Nação; o Monarquismo conchavado com a República é a Realeza traída.
O Catolicismo, o Patriotismo, o Monarquismo são conceitos fechados, noções rígidas, que não toleram elasticidade, mais ou menos. Toda a fissura que se abra nesses conceitos ou nessas noções é ataque fundamental à sua natureza; todo o énthema que se introduza nessas noções ou nesses conceitos é instrumento de corrupção do seu sistema; toda a emenda, correcção ou acrescento que se proponha a tais noções ou conceitos é o seu descrédito.
Toda a relatividade é diminuição do Ser. Ora os conceitos que acabo de enunciar são absolutos como o sim ou o não.
Salazar, ficando a meio caminho, disse um dia: «não se discute Deus, não se discute a Pátria». Eu acrescento: «não se discute a Realeza — porque Portugal é obra de Deus, do Rei e do Povo»...
Os que por aí proclamam e ensinam à Juventude — Deus, Pátria e Família-, são tão bárbaros e sacrílegos como se dissessem Pátria, Rei e Família, ou Deus, Família e Rei, porque no plano português, não podemos, nem devemos desarticular a expressão tradicional, que tem significado preciso, e alcance definido.
O que vou dizer agora á fácil de compreender, porque é lógico, e está indiscutivelmente dentro das premissas formuladas, como o fruto na semente, como o acto na potência, como a consequência na origem. Já estou farto e refarto de ouvir falar em Comunismo, para lhe bater, para o considerar o inimigo da Civilização ocidental, o inimigo da Europa, o inimigo do Mundo. Condenou-o, especialmente, em Encíclica solene — a Divini Redemptoris-, Sua Santidade o Pontíficie Pio XI; condenou-o, mas condenou também quem o afrontava com todas as armas. Contra ele caminharam os exércitos germânicos às ordens de Hitler; contra ele se mobilizaram inteligências e almas; contra ele se formou, às ordens de Franco a Divisão Azul. E até em Portugal contra ele se constituiu a Legião Portuguesa, e foi, visando-o, que se organizou a Mocidade Portuguesa... Tudo passou.
Também eu entrei no coro — desafinando um pouco, porque o meu fito ia mais longe e mais fundo. E é isso que me dá autoridade, para, hoje, bradar aos que têm por hábito, bom ou mau, o ouvir-me: — Basta de atacar, como até aqui, o Comunismo!
Estamos a malhar em ferro frio; estamos a bater numa sombra; estamos a espadeirar uma toalha de água.
Se, de facto, somos inimigos do Comunismo, e das suas torpezas, das suas blasfémias, das suas indignidades, das suas misérias e das suas infâmias, façamos a guerra impiedosa e permanente ao que o produz, ao que é a sua fonte e a sua razão de ser. Numa palavra, combatamos a Democracia; ataquemos a Democracia.
Corre mundo e entrou em todos os meios a blague sinistra de que, por serem variadas as máscaras da Democracia, não se sabe já o que a Democracia seja. Polímorfa, é certo; a sua substância, porém, é inalterável. E esse seu polimorfismo é o recurso interessado daqueles que a Democracia envenenou. E é à custa desse polimorfismo que a Democracia medra, se infiltra, conquista, perverte, e leva ao Comunismo.
Democracia cristã; Democracia orgânica; Democracia positiva; Democracia social; Democracia temperada; Democracia liberal; Democracia isto; Democracia aquilo; Democracia aqueloutro, são máscaras do mesmo erro, pseudónimos do mesmo mal, disfarces do mesmo cancro: a Democracia.
O polimorfismo satânico que a Democracia apresenta é fenómeno moderno: desconheceu-o Aristóteles; desconheceu-o S. Tomás.
Para os dois, a Sociedade podia ser monárquica, se governa um; aristocrática, se governam alguns; democrática, se governam todos.
Mas o governo de todos é um mito, porque é o absurdo. A sociedade é uma realidade; o governo é outra. Não há sociedade sem governo — proclamou-o Augusto Comte. Pode governar um; podem governar alguns; não podem governar todos. A Democracia que é o governo de todos, é conceito essencialmente metafísico, abstracção pura.
A Democracia nunca se realizou. Sociedade que tentasse realizá-la suicidar-se-ia. Sociedade a governar-se a si própria nunca existiu, porque a mesma noção de sociedade implica organização e hierarquia, e portanto governantes que mandam, governados que obedecem. A Democracia é a negação da organização e da hierarquia: todos mandam, todos governam, todos são soberanos. Nunca se viu; nunca se poderá ver. O mal da Democracia está, antes de mais nada, no mito que a constitui, na mentira que representa, na mistificação idiota que personifica.
As massas são crédulas, ingénuas ou estúpidas. Os seus exploradores, os que vivem, enriquecem, engordam, trepam e se fazem à sua custa são os profiteurs da Democracia, tão repelentes e tão sujos como aqueles cadastrados que vivem à custa das desgraçadas que pertencem a quem as compra.
O Comunismo, última fase da vida evolutiva da Democracia, é menos indigno do que esta — porque é franco, é lógico, é desassombrado. Os defensores, os propagandistas, os filósofos, os agentes, os sacerdotes da Democracia, ou são comunistas que se desconhecem, ou comunistas que se disfarçam.
Combata-se o Comunismo como consequência da Democracia; mas combata-se a Democracia, como antecedente do Comunismo.
Defender a Democracia, e combater o Comunismo, é de imbecil. Opor a Democracia ao Comunismo, é de ignorante.
Se a Democracia, sociedade em que todos governam, não existe, que é que existe com o nome de Democracia? Existe a sociedade em que alguns se governam — mentindo, iludindo, sofismando, arrastando o Povo atrás da sua mentira, levando-o, cego e surdo, atrás de uma ilusão!
As massas não raciocinam: crêem. E quanto mais compactas e mais numerosas são, mais obtusa e irreflectida e infantil é a sua crença.
Não há almas colectivas, não há razões colectivas, não há inteligências colectivas. As massas têm instintos, não têm Razão; têm reflexos, não têm discernimento. Porque as seduz à Democracia? Porque as encanta o Comunismo? Precisamente, porque são bárbaros e absurdos.
Mas essas Democracias que por aí passeiam a sua vida, que são afinal? São burlas escandalosas e é à sua qualidade de burlas que devem o poder viver.
São sociedades de negócios, materialistas, e jogadoras da vermelhinha — em que, repito, alguns se governam... São aristocracias de videirinhos. Eles sabem, como todos nós sabemos, que a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade são entre os homens mistificações, nuns, superstições, noutros. E gritam, e trombeteiam às massas, nos comícios e nos Parlamentos, nas campanhas eleitorais e nas alfurjas, nas gazetas e nos conclaves internacionais: Liberdade! Igualdade! Fraternidade!
E as massas crêem... E até crêem na mais estupenda das calúnias com que se pretende desonrar o Catolicismo — a de que a Democracia é de natureza católica!
As sociedades políticas, nacionais, pequenos Estados ou grandes Impérios, são realidades históricas. Não podem existir nem subsistir sem governos. É outra realidade histórica. Donde emana a autoridade desses governos? Quem lhes conferiu o poder de governar?
Para os católicos, a resposta é só uma: «Não há Poder que não venha de Deus» - ou, no latim da Vulgata: «non est potestas nisi a Deo». Até o poder ilegítimo? Nunca o Apóstolo o disse, nem podia dizê-lo. Porque antes dele já S. Lucas ensinava: «devemos obedecer mais a Deus do que aos homens: Obedire opportet Deo magis, quam hominibus». Logo, há dois Poderes, há duas Autoridades: o poder ou a Autoridade de Deus; e o Poder ou a Autoridade dos homens. Se pode haver conflito entre os dois, é porque um deles não emana de Deus. Logo, nem todo o Poder vem de Deus. Só vem de Deus o Poder que reconhece Deus como a sua fonte de origem. A Democracia tem como dogma fundamental que o Poder está na própria sociedade, e desta emana. Logo, a Democracia não vem de Deus. (Ver o meu ensaio teológico-político A Igreja e os Regimes Políticos, Lisboa, 1942).
Se a Democracia não vem de Deus, o católico não pode obedecer voluntariamente à Democracia, nem ser seu apologista, defensor ou serventuário.
Os interesses, as conveniências, as circunstâncias locais levaram, através dos tempos, mas muito principalmente nos séculos XIX e XX, os teólogos a espantosas aberrações no campo da exegese do preceito, da norma pauliniana. Nem os Papas se furtaram a elas... Em consequência do que aí temos a estender as suas raízes o erro maritainesco, mais prejudicial do que o de Lamennais e o do Sillon.
O Apóstolo limitou-se a enunciar o princípio de que não há poder legítimo que não venha de Deus. Não queiramos ir mais longe do que o Apóstolo, e não torçamos a sua expressão, para satisfazermos as nossas conveniências, e a nossa simpatia pelo Comunismo.
Deixemos descansar no silêncio dos túmulos, os teólogos dos sécs. XVI e XVII que compuseram largas ou sábias dissertações ao sabor de interesses mundanos e vantagens políticas.
Lembremo-nos de que a perda da nossa independência, em 1580, tanto encontrou teólogos que, em nome da Teologia e da Moral, a defenderam, como teólogos que a combateram, em nome da mesma Moral e da mesma Teologia... Os primeiros serviam o Rei de Espanha e Espanha; os segundos serviam Portugal e o Rei de Portugal...
Quando os homens se substituem a Deus, e falam em seu nome, como se Deus os autorizasse a fazê-lo, ou lhes confidenciasse os seus propósitos, não há disparate que se não invente, nem absurdo que se não propague.
Para nós, católicos, não há poder que não venha de Deus. Poder legítimo, não se esqueça...
Para os incrédulos, de onde vem ele? Das próprias sociedades? Emanando delas, são elas que governam. Mas como é impossível que elas se governem a si próprias, é manifesta a necessidade de se recorrer ao artifício, quero dizer, à prestidigitação. Logo, a Democracia é a mentira.
Para se fugir a esta mentira e às suas consequências, há doutrinadores que, obedientes ao critério positivista, se abstêm de procurar a origem do Poder. Verificam o facto, a realidade da existência do Poder, e não passam daí. É a melhor solução, no campo incrédulo.
Para acabar: fora da solução católica, não há solução: ou se renuncia a saber de onde emana a Autoridade, ou se recorre ao Absurdo e ao Dolo.
Mas na Democracia, não há Autoridade ou Poder, porque eu já disse que a Democracia é um mito. E S. Paulo, no meio do I.º século, dirigia-se aos Romanos, e não previa a Revolução francesa, nem a sua filha dilecta, a Revolução bolchevista...
Quando ele professava que todo o poder legítimo vem de Deus não pensava nem podia pensar na Tábua dos Direitos do Homem e do Cidadão. E se pudesse pensar, incluiria a Democracia de que essa tábua é expressão, no catálogo dos Poderes ilegítimos — ou seja dos que não vêm de Deus.
Indignaram-se muito, outro dia, certos orientadores da Opinião, porque a O.N.U., ou U.N.O., proclamou o seu ateísmo, ao aprovar o texto do artigo 1.º da Declaração Internacional dos Direitos do Homem que diz assim: «Os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. São dotados de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros dentro de um espírito de fraternidade».
O texto é imbecil da primeira palavra à última. Mas o Brasil pretendeu que esse texto começasse por estas palavras: «Criados à imagem e à semelhança de Deus, os seres humanos... etc.», esclarecendo que a menção da Divindade se dirigia a todos que crêem em Deus, a todos os crentes na acepção mais ampla do termo, qualquer que seja a sua opinião». Numa palavra: o Deus da emenda brasileira era um Deus para todo o serviço. A Rússia, acompanhada pelos representantes eslavos, logicamente, coerentemente, honestamente, opôs-se à heresia democrática. Afirmar Deus, a instituição substancialmente representativa da Democracia que é a sua negação formal, era contrário à Razão. E o Brasil, e os que o apoiavam reconheceram o bem motivado das alegações russas e eslavas — e retiraram a sua proposta ou emenda, sacrificando miseravelmente, mas o mais democraticamente que é possível, Deus ao ateísmo da Rússia! E a U.N.O., ou O.N.U., a mais alta instituição democrática, a mais representativa instituição da Democracia, apagou da pedra a afirmação da Divindade, mesmo sob aquela forma esdrúxula e cobarde da emenda brasileira!
Por isso me ri da indignação de certos papanatas da Opinião portuguesa, como me louvo, com toda a sinceridade, de não fazermos parte dessa chafarica ridícula, como peço a Deus que nunca permita que passemos as suas portas e nos sentemos nas suas bancadas — para darmos os votos às democracias maçónicas e judaicas.
A Democracia é, pois, o grande mal do século. Denunciá-la e combatê-la é o nosso dever. Dever sagrado, porque a Democracia está à espera de uma nova Enciclica Divini Redemptoris que a condene, com mais rigor ainda do que aquele que se usou para com o Comunismo.
O mundo inteiro aguarda ansiosamente que surja, no Vaticano, um novo Pio IX que erga, em suas mãos abençoadas, um novo Syllabus...
Porque a maré democrática bate o planeta em toda extensão; e este, se não lhe acudimos a tempo, afogar-se-á irremediavelmente.
II
A Opinião pública responsável dum Estado é de duas espécies: a opinião oficial, isto é, a dos seus governantes e dos seus agentes; a opinião dos espíritos esclarecidos.
As expansões da primeira têm que ser condicionadas pelas conveniências políticas, pelos melindres diplomáticos. Os governantes, ou os seus agentes, não dizem tudo o que pensam e sentem — a não ser que estejam dispostos a afrontar o pior.
As expansões de segunda opinião são livres, e devem sê-lo; e muitas vezes traduzem o que a primeira opinião não pode expôr.
Graças a Deus, faço parte da segunda opinião — a opinião dos homens independentes, e livres de quaisquer compromissos.
Estamos todos a respirar uma atmosfera nauseabunda de Democracia. Estamos todos atascados em Democracia.
E queremos salvar-nos! E queremos combater o Comunismo!
Falam-nos em Democracia, os Estados Unidos da América e as Repúblicas sul-americanas. Fala-nos de Democracia, a Inglaterra. Fala-nos de Democracia, a França. Falam-nos de Democracia, a Bélgica, a Holanda, a Suíça, a Dinamarca, os Estados escandinavos. Falam-nos de Democracia, a Itália, a Grécia, o Luxemburgo, a Turquia, o Egipto, a Etiópia. Falam-nos de Democracia, a Rússia, a Roménia, a Bulgária, a Checoslováquia, a Rússia, a Roménia, a Bulgária, a Checoslováquia, a Jugoslávia, a Polónia. Fala-nos de Democracia, Sua Santidade. Fala-nos de Democracia, a Espanha de Franco. E fala-se de Democracia entre nós — e não é só o general Norton de Matos...
Parece que toda a gente tem vergonha de não ser Democrata, e de não pertencer à Democracia!
É certo que cada um pinta a sua Democracia da côr que mais lhe convém ou mais lhe agrada — desde a Rússia que se diz a mais pura e a primeira das Democracias, à Santa Sé que nos deu da Democracia um retrato futurista. Mas todas elas, com a sua essência mitológica, têm um denominador comum que é a escroquerie da Soberania popular, e um destino fatal que é o Comunismo.
Quando em 1945, a Alemanha hitleriana, anti-democrática e anti-comunista, foi esmagada pelas Democracias, o mundo embandeirou, ébrio de ventura, doido de alegria; encheram-se as ruas e as praças de democratas; iluminaram-se os edifícios; dançou-se; ceou-se Democracia — foi o delírio. O mundo inteiro empanturrou-se de Liberdade e Democracia...
Os grandes homens das Democracias — Roosevelt, Estaline, Churchill e Truman foram colocados nas aras dos deuses. E as massas, elefantíacas ou dromedárias, guiadas, tangidas pelos seus espertos cornacas, espalharam-se pelas praças, pelas ruas, pelas avenidas, por toda a parte, a aclamar Estaline, Churchill, Roosevelt e Truman...
As Democracias estavam senhoras do mundo. E o mundo que não encontrara a Ventura em dezoito séculos de Catolicismo, via-se, agora, a braços com a Ventura, mercê da vitória das Democracias.
E ressuscitou-se o pandemonium de Genebra, agora crismado de U.N.O. ou O.N.U., e muito pior, em matéria de dislates, do que a sua antecessora...
A primeira manifestação encantadora dessa O.N.U. ou U.N.O. foi a de consagrar o sistema de dividir os Estados do mundo em duas classes: a classe dos três Grandes, a tanger: Rússia, Estados Unidos e a Inglaterra; a classe dos Estados vassalos, os tangidos — todos os outros. Os três Grandes dirigem o baile; os Estados vassalos dançam sob o chicote florido.
Mas ainda os fumos da Vitória pairavam sobre o mundo, como gazes asfixiantes, e já os três Grandes se não entendiam, fora da missão de despachar para a forca, em Nuremberga, homens que tinham praticado o crime estupendo de amar e servir a sua Pátria — porque nessa missão sinistra todos os três comungavam no mesmo sentimento canibalesco...
A Ursa moscovita erguera-se, raivosa, contra o Leopardo britânico e a Hiena americana. A Ursa é democrática; o Leopardo é democrático; democrática é a Hiena. São, todos três, os expoentes indiscutíveis da Democracia, os paradigmas da Democracia, os papiros da Democracia.
A Ursa vivia para lá da Europa, no seu fojo nevado, sem se atrever a levantar a pata para a Europa, porque a defender esta, havia, vigilante, a Águia germânica. Mas o Leopardo e a Hiena fizeram sociedade com a Ursa para abaterem a Águia. E a Águia foi abatida. E o Leopardo e a Hiena entregaram a Europa à Ursa. Já esta se passeia nas ruas de Berlim, preparando-se para dar o salto sobre o que falta, para o lado de cá. E a Hiena americana discute consigo própria se deve vir a Ursa até aos Pirinéus, ou se deve contê-la no Reno!
Outro dia, o sr. Churchill fez um discurso que me divertiu fartamente — como, aliás, quase todos os seus discursos que são duma mediocridade só comparável à inteligência dos pasmados que os admiram. Em seu discurso, o sr. Churchill acusa a Ursa de uns tantos crimes — desde a pressão que exerce sobre os seus satélites na Europa, até à fomentação dos distúrbios na Malásia e na Indonésia. Simplesmente tudo aquilo de que o sr. Churchill acusa a Rússia, é obra do mesmo sr. Churchill e do seu irmão Roosevelt.
Mais criminosos do que a Ursa, mais merecedores da exautoração mundial do que ela, são os srs. Churchill e Roosevelt que atraiçoaram a Civilização ocidental, e desfizeram para sempre a Ordem social europeia, quando entregaram os destinos da Europa à mesma Ursa. Certas revelações que estão a correr mundo, feitas pelo sr. W. Bullitt, levam-nos à conclusão trágica de que a Europa foi traída por um tonto. O sr. Bullitt é mais expressivo do que eu, porque o acusa com brutalidade de dizer sistematicamente sim a tudo quanto o «malfeitor caucasiano» pedia. Repare-se bem: para o sr. Bullitt, Estaline é apenas «o malfeitor caucasiano»; o seu parceiro Roosevelt é outra coisa pior...
Eu ainda vou pelo «malfeitor»...
Devemos ser justos; e eu tenho que ir até ao fim.
Quando a vitória das Democracias atroava os ares, apareceram não só os seus agentes directos, mas os seus auxiliares discretos. Entre estes, não posso deixar de colocar a nossa vizinha, a Espanha.
A sua situação não deve comparar-se com a nossa; as suas responsabilidades não devem confrontar-se com as nossas. Nós temos uma Aliança que nos prende, nos condiciona, nos obriga e, de certo modo, nos guia. A nossa vida internacional é pautada por essa Aliança. A Espanha tem vinte e cinco milhões de habitantes — mais de metade da população da França, mais de três vezes a nossa população. Não tem aliança militar ou política que a tolha; não tem Império ultramarino que a preocupe. São livres os seus passos, são desembaraçados os seus gestos. A sua vitória contra o Comunismo deve-a ao sangue dos seus filhos, ao sacrifício do seu Povo, ao esforço dos seus soldados. Mas deve-a também ao auxílio estranho: ao auxílio que nós lhe demos, guardando a sua fronteira ocidental; e ao auxílio que lhe deram a Alemanha hitleriana e a Itália fascista. Eu sei que os Povos não tomam atitudes por sentimentos de gratidão, embora as tomem, às vezes, por sentimentos de represália. Mas a Espanha sentira na sua carne, e experimentara na sua alma, o que são as Democracias. Isso devia levá-la a contribuir até o extremo para a derrota do Comunismo, para a derrota das Democracias. Defendia-se do perigo daquela, e dos malefícios destas. E no entanto, depois de ter mandado uma Divisão de voluntários, a Divisão Azul, para a frente germano-russa, e depois de ter solenemente prometido um milhão de homens para deter, na fronteira da Europa, o avanço da Rússia soviética, não só não enviou um homem do seu Exército regular, mas retira da Rússia a simples Divisão Azul, sob pressão das Democracias. É isto combater o Comunismo?
Reduz, sob pressão das Democracias, o fornecimento de volfrâmio à Alemanha a uma quantidade simbólica. É isto combater o Comunismo?
Mobiliza as suas tropas, quando desconfiia de que a Alemanha projecta descer até Gibraltar, dando um golpe, talvez decisivo, segundo depoimentos insuspeitos, na evolução dos acontecimentos. (E. J. Hughes, L`Espagne de Franco, pág. 324; François Miraudet, L`Espagne de Franco, pág. 141).
É isto combater o Comunismo?
«En manos de la voluntad española se encontraba, pues, en aquellas horas la posibilidad del exito o del fracaso de la mayor batalla anfibia que registra la Historia», diz José Maria de Areilza (Embajadores sobre España, pág. 103).
E que garantiu a Espanha anti-comunista? O êxito das Democracias!
Gaba-se a Espanha pela pena do famoso Gregório Marañon, do que a sua neutralidade foi ou representou, «para los Aliados en su estrategia y en su politica, es decir, en su victória».
O que o citado Areilza confirma: «Por haber sido nosotros, entonces, neutrales, pudieron luego ser vencedores los Aliados». (pág. 28).
É isto combater o Comunismo?
Observar-me-ão talvez que a Espanha não podia, não estava em condições de entrar na guerra. Mas então para que prometia o milhão de soldados a empregar, quando fosse necessário deter o colosso russo, na fronteira oriental da Europa?
Poder-me-ão dizer que «a España no podia intervenir dignamente en una contienda ajena a sus intereses y aspiraciones». (Areilza, pág. 28).
Contenda alheia a seus interesses? Mas então era-lhe indiferente a vitória das Democracias e do Comunismo? Contenda alheia às suas aspirações? E Gibraltar? E Marrocos?
Se a sua neutralidade, ou a sua política abstencionista, lhe foi imposta pelas circunstâncias da sua vida económica ou militar, não lhe impunha menos a dignidade do Espírito um silêncio discreto sobre a vitória das Democracias. O que escandalizou e escandaliza é o seu desvanecimento diante dessa vitória das Democracias suas inimigas, e a sua alegação dos serviços que lhes prestou e consequentemente ao maldito Comunismo.
Se a Espanha, ao contrariar os desígnios da Alemanha, ao embaraçar os seus projectos, ao esquivar-se a ajudá-la, e, portanto, ao favorecer e servir a causa das Democracias, procedeu conscientemente, estou convencido de que obedeceu a uma força, não direi misteriosa, mas certamente oculta: entrou na conjura anti-alemã, democratófila, bolchevistófila, cuja amplitude abrangia o Papado, a Sinagoga, a Maçonaria, a Democracia. Porque todas estas forças se combinaram e entenderam para que fosse derrotada, escravizada e dispersa a Germãnia anti-democrática que podia ter, e teve, erros, que podia ter, e teve, pecados, que podia ter desvios, — mas desvios, pecados e erros de que nenhum povo está isento. Tanto se acusa a Alemanha de se considerar Povo eleito, destinado a governar o mundo! E afinal Povo eleito se considera a Democracia, destinada a dirigir o mundo — pela inocência, pela pureza, pela santidade!
Enganou-se a Espanha, ou enganaram-na?
É possível. Como se está a ver, pelas revelações de Bullitt, Estaline, como se diz em boa linguagem portuguesa, comeu descaradamente o grande Churchill... Também a Espanha podia ter sido enganada.
Mas nesta hipótese, e porque em política os enganos se pagam caro, eu queria ver a Espanha mais modesta na alegação dos serviços que diz e proclama ter prestado às Democracias, e mais humilde, quando se declara inimiga do Comunismo...
Porque tudo nela é contradição e enigma. Sofre as calamidades e as angústias, as misérias e os calvários duma guerra civil — contra o Comunismo. Nessa guerra civil, tem como seus inimigos as Democracias. Na guerra planetária, tomam a mesma posição lógica e natural, fazendo frente única, as Democracias e o Comunismo. Que papel desempenha a Espanha? Torna-se auxiliar do Comunismo e das Democracias! Destas, directamente; indirectamente, do Comunismo.
Esperava-se, apesar disso, a queda da Espanha nacionalista, logo a seguir à vitória das Democracias. Esperei-o eu.
Porque está ela ainda de pé — embora bastante abalada? Porque a sofreguidão e a precipitação dos Imperialismos russo e americano transformando-os de companheiros em inimigos, desviam as duas Democracias do objectivo primitivo — a liquidação drástica do caso espanhol.
Mas ainda houve tempo bastante para todas as Democracias vitoriosas manifestarem a sua animosidade ingrata em relação a Espanha, fechando-lhe a porta da O.N.U. ou U.N.O., retirando de Madrid os seus Embaixadores, e considerando-a indesejável e pestífera.
Até a Hispanidad se rompeu...
Outro dia, em Paris, no mesmo dia, e à mesma hora, se festejou o dia da raça — na sede do governo republicano e democrático espanhol no exílio, e na sede da Embaixada da Espanha legal.
A Hispanidad dividiu-se. Os representantes diplomáticos do México, de Cuba, do Panamá, de Guatemala e do Haiti compareceram em massa na festa dada pelo Governo republicano e democrático; os representantes da Argentina, do Brasil, do Chile, da Bolívia, do Peru, da Colômbia, de Nicarágua e de S. Domingos correram à Embaixada. Os da Venezuela começaram por dar, eles próprios, a sua festa — e depois foram apresentar os seus cumprimentos ao governo republicano e democrático no exílio...
Ora se a Espanha havia de vir a colher estes frutos amargos, de nada lhe serviu pôr-se incondicionalmente ao lado das Democracias, concorrer para a sua vitória, e ser cúmplice na desgraça, na escravidão e na miséria da Alemanha...
Não há ninguém de inteligência limpa que a irresponsabilize da vitória comunista.
Demorei-me a falar da Espanha, porque a sua atitude é um caso típico, no quadro da política contraditória, inconsequente, absurda e supremamente perigosa que está a caracterizar o mundo, criando o mito venenoso da distinção entre a Democracia e o Comunismo. A Democracia, em frente do Comunismo, é fortaleza de areia ou cortina de fumo, não vale nada, porque traz o Comunismo nas próprias entranhas. A Democracia não é, ideologicamente, de natureza diversa do Comunismo. O que se está a observar é o preparativo duma guerra não entre a Democracia e o Comunismo, mas entre Democracias e Estados comunistas.
Assim como houve guerras entre Monarquias católicas, por motivos imperialistas, ou de expansão de domínio, também é possível que as duas grandes Democracias, se não chegarem a acordo, na posse da Europa, se enfrentem em campos de batalha — cada uma delas com os seus satélites. Não por motivos ideológicos, visto uma e outra serem Democracias — ramos da mesma árvore, árvores da mesma semente, sementes da mesma origem, mas por motivos puramente materialistas, imperialistas, de domínio.
Se o mundo chega para as duas, a Europa é, para as duas, pequena em demasia.
Os malefícios daquela política contraditória, e absurda, está o mundo inteiro a sofrê-los, e muito especialmente a Europa, esta nossa crucificada Europa, do lado de cá da «eiserne Vorhang» de que nos falava von Krosigk. (Porque a expressão «cortina de ferro» é alemã de origem, e o sr. Churchill nada mais fez do que roubá-la muito britânicamente aos alemães...)
Distinguindo a Democracia do Comunismo — para favorecer, proteger e defender aquela, combatendo este, nós estamos a servir o Comunismo; e estamos como lorpas ou estúpidos, a alimentar, a sustentar, a engordar a fera que nos há-de tragar...
É uma espécie de neo-suicídio.
É à sombra dessa política depravada que a América quer arrastar-nos a entrar na guerra contra a Rússia - não por esta ser detentora da mais alta expressão política da Democracia, mas por ela ser a sua concorrente na expansão imperialista que as inspira e determina. Que nos chumbem aos pés a grilheta da foice e do martelo ou a grilheta estrelada é-nos indiferente — porque ambas são grilhetas.
E nós não somos portugueses para servir Washington ou Moscovo. Somos portugueses, para servir Portugal. E Portugal serve-se não fazendo fretes a Washington ou lambendo as botas do Comunismo, mas sim denunciando o veneno democrático-comunista, e repudiando tudo quanto traga a marca de Democracia. Portugal serve-se, fomentando-lhe a consciência da sua personalidade, e desmascarando o embuste que aquela política contém. Portugal serve se desfazendo-lhe o complexo de inferioridade perante o estrangeiro que o tolhe, e libertando-o das fraquezas, cobardias e indecisões que caracterizam a sua vida política por influência da Democracia.
É por isso que andamos a arrastar, há vinte anos, o peso morto da República, e não tivemos ainda a coragem de limpar da pele o símbolo anti-português que o Cinco de Outubro nela tatuou.
Ai! o grande erro, o imperdoável erro do 28 de Maio foi o de não ter sabido libertar a Nação da República, o de não ter compreendido que entre a Nação e a República há um abismo insuperável, porque a República é a Democracia, e a Nação é a Ordem, a Autoridade, a Tradição e a Hierarquia. Quem fala em nome da República não é o Estado Novo: é o sr. Norton de Matos, Grão-Mestre da Maçonaria e candidato grotesco à Presidência da República. O Estado Novo só fala em nome de um equívoco...
Tudo isto que traz o país desorientado e inquieto é obra dessa política que desfralda a bandeira da Democracia e ao mesmo tempo, se declara hostil ao Comunismo.
Vejo envolvidos nessa política absurda e contraditória, os dois povos peninsulares e a Igreja Católica - nas suas camadas progressivas.
Como português, interessa-me singularmente o que se passa em Portugal. Como católico, preocupa-me a orientação política de certos elementos da Hierarquia e certas vozes consagradas.
Tendo em vista o que se passou na Europa, nestes últimos vinte anos, mas muito particularmente desde 1939 a 1945, verifico que o avanço do Comunismo, a sua entronização, a sua força, o seu prestígio, a sua audácia, são, em grande parte, obra da Política contraditória e absurda a que me tenho referido — a tal política que distingue a Democracia do Comunismo...
Política que é a da Igreja progressiva que tem, em Portugal, representantes autorizados, e política que, em Portugal, tem partidários, mesmo entre os elementos da Situação.
Quando a Alemanha, em 1939, firmou com a Rússia soviética o pacto de não agressão, eu escrevi que isso para nós não tinha importância, porque nada nos prendia ao Reich. Mas quando a Inglaterra firma com a Rússia soviética o tratado de amizade de 1941, gritei o alerta do perigo iminente, porque a nossa Aliança podia arrastar-nos a uma colaboração repugnante, e impor-nos, como impôs, uma solidariedade moral com o Comunismo, através dos nossos deveres para com a Inglaterra. Pois se esta obrigou a Espanha a retirar a sua Divisão Azul da frente germano-russa, a que nos não obrigaria ela, em relação à Rússia, se as necessidades da guerra assim o exigissem?
E não se diga que assim como apoiámos a Alemanha na sua luta contra o Comunismo, devemos apoiar os Estados Unidos na sua atitude em face da Rússia. Não sofismemos. Em primeiro lugar, os Estados Unidos não hostilizam o Comunismo — mas a concorrência russa no campo económico, financeiro e comercial; sujeitam-nos à Democracia, e só em nome da Democracia nos falam...
Em Portugal, há duas frentes: a frente revolucionária, comunista, comunizante ou comunizável — sólida, firme, unida, que sabe o que quer, e a frente oposta, ou que se diz oposta, flutuante, imprecisa, com brechas abertas por toda a parte, viciada na sua origem, sem finalidade positiva, sem objectivo definido, à mercê dum pé de vento...
Esta frente está corrompida pela acção da Democracia — a Democracia exterior, e a Democracia interior. O espectáculo que os julgamentos do Tribunal Militar de Stª. Clara deste ano nos deram, e em que encontrámos, cingidos no mesmo abraço, solidários na mesma obra, procurando o mesmo fim, monárquicos, republicanos, comunistas, e situacionistas, revelou-nos um estado político mórbido que é obra da Democracia, e de que temos que nos afastar. A primeira frente é precisa e definida; a segunda frente ninguém sabe onde ela começa e onde ela acaba, tantas e tantas são as infiltrações parasitárias que a devoram.
Pois bem. É chegada a hora do grande combate, da grande tentativa de salvação, em que temos de jogar tudo — desde a saúde, as comodidades, os interesses, até à vida. Temos que constituir uma frente idêntica, na sua orgânica, à frente em que não entre o mais leve prestígio de Democracia — orgânica ou inorgânica, positiva ou metafísica, católica ou ateia, monárquica ou republicana, judaica ou rotária. À Democracia pura dos comunistas, e à Democracia impura, por timidez ou tacanhez ou cobardia ou interesse dos outros, oponhamos absolutamente, fanaticamente, intransigentemente, a não-Democracia. A Imprensa é toda democrática? É. As Emissoras da Rádio são todas democráticas, incluindo a Emissora Nacional? São. Nós não temos Imprensa diária nem temos Emissoras. Somos muito poucos. Nem todos os que me escutam serão como eu - inimigos totais, integrais da Democracia. Paciência. Cá chegarão. Mas é preciso começar.
E o primeiro campo a trabalhar é o da Mocidade Portuguesa!
Urge, hoje como nunca, arrancar a Mocidade Portuguesa do terreno escorregadio, viscoso, lamacento em que a deixaram cair. A Mocidade Portuguesa, hoje, é uma instituição puramente desportiva: saem dela, creio eu, magníficos atletas, dextros guarda-redes, esplêndidos patinadores, delicados esgrimistas, ousados cavaleiros, infatigáveis remadores, impávidos futebolistas, assombrosos ginastas, e razoáveis frequentadores de cantinas. São campistas exímios, ciclistas inolvidáveis, velívagos sem par, nadadores incansáveis. Numa palavra, creio que são todos Prémios Nobel do Desporto. Almas? Espíritos? Inteligências? Não sei. Mas o que sei é que são destituídos de qualquer ideologia sã, verdadeiramente nacional, autenticamente portuguesa. Também a Democracia os arrepanhou, os tocou com o seu ferrete diabólico. A Pátria está a perder a Mocidade Portuguesa — porque a abandona às seduções materialistas do Desporto, e à abstinência deplorável duma formação cultural estruturalmente portuguesa. Os homens de amanhã, os nossos governantes de amanhã serão mestres no Desporto, mas absolutamente inoperantes na vida social, política e governativa do País. Serão, quando muito, improvisadores — sem formação prévia, aquela formação que só é eficiente, quando tem raízes, alicerces adquiridos à medida que os espíritos se desenvolvem.
Notemos, senhores, que Salazar não saiu dos desafios de futebol, nem das corridas pedrestes, do campismo, ou do footing. A par da sua competência de técnico financeiro ou de Economista, trouxe para o Governo da Nação o que ela ainda, em um século de Liberalismo, não conhecera nem experimentara: uma Filosofia política de profundas raízes históricas tradicionais que as circunstâncias peculiares do País não deixaram ainda que dessem tudo o que contêm.
Nunca a Mocidade Portuguesa, encaminhada como está hoje, será capaz de produzir ou servir uma Filosofia política idêntica ou paralela àquela que inspira o pensamento de Salazar.
Temos que salvar a Mocidade Portuguesa. Se a salvarmos, sejam quais forem os destinos desta gloriosa mas desventurada Pátria, nunca poderemos ser acusados de cúmplices do seu infortúnio.
Se a não salvarmos, se persistirmos nesta apagada e vil tristeza em que temos vindo, seremos um dia arrastados ao Tribunal da História, e julgados como Réus de traição à Pátria e aos nossos deveres de portugueses.
Comecemos e sem demora. E que o primeiro passo da nossa intervenção seja o de educarmos o espírito da Mocidade no sentido claro e inequívoco de uma hostilidade manifesta às influências da Democracia. Comecemos por... onde começaram as Democracias. Essas apoderaram-se dos espíritos, e injectaram-lhes em doses maciças, os estupefacientes democráticos e revolucionários.
Tomemos, nós, à nossa conta, a Mocidade Portuguesa, em todos os seus graus, e, sem polémicas ou discussões, ensinemo-la cientificamente, objectivamente, a rejeitar os sofismas e os absurdos democráticos, como a ensinámos a denunciar os sofismas ou os absurdos filosóficos ou pretensamente científicos.
Defendê-la dos prejuízos democráticos é tão legítimo, tão sério, e impõe-se-nos tanto, como defendê-la dos prejuízos materialistas ou anti-patrióticos.
Ensinemos-lhe o anti-democratismo, como lhe ensinámos o ABC, os teoremas matemáticos, as leis da Física, as fórmulas químicas, as noções da Anatomia ou o amor dos Pais.
Criemos na Mocidade Portuguesa tendências fundamentalmente portuguesas, rodeemo-la duma atmosfera tipicamente anti-democrática. Façamos dela uma força activa, consciente, voluntariosa, posta ao serviço de Deus, da Pátria, e do Rei. Façamos dela a projecção rectilínea do Portugal histórico, dos oito séculos do Portugal português.
Gritemos, sem cessar, aos seus dirigentes, que não queremos que os nossos filhos e os nossos netos se queimem nas aras do Desporto, com sacrifício do que devem ao Passado da nossa Pátria. Despertemos, na Mocidade Portuguesa, ideais espirituais, o culto transcendente da Pátria autónoma e livre.
O inimigo espreita-a, e não sei mesmo até que ponto já penetrou nela. Acudamos-lhe, enquanto é tempo. Defendamo-la, enquanto é tempo, salvemo-la, enquanto é tempo.
Alfredo Pimenta
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