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segunda-feira, julho 23, 2007

Crónica de um naufrágio 

Análise de Manuel Brás no jornal da Nova Democracia (o Democracia Liberal):

Porque falha a direita?

Porque a direita político-partidária, criada pela esquerda, à sua imagem, não tem entidade própria, nem um pensamento estruturado assente numa visão do homem, do mundo e da vida.
Essa “direita” pensa o que pensa a esquerda, só existe por razões de utilidade e bom é que desapareça.
Existe, sim, a Direita com “pés e cabeça”, ideológica e sociológica, que é necessário trazer para o combate político. E diga-se, em abono da justiça e da verdade, a Nova Democracia agarrou-a em 2006 e definiu-se ideologicamente.
É verdade que isso não teve reflexos nas eleições para a Câmara de Lisboa, o que não terá sido pela ideologia em si, mas porque as pessoas não viram as diferenças e consideraram que é tudo igual.
O que tem esta Direita de diferente? Como se podem evidenciar diferenças?
Nas causas por que se combate e na forma como se combate.
Para quem tiver coragem e disposição, os eixos fundamentais do combate são estes:
1. O realismo da condição humana. Aceitamos o ser humano concreto, o homem comum, em toda a sua realidade, com as suas qualidades, diferenças e limitações, como anterior ao Estado. Exactamente ao contrário do socialismo e do estatalismo, não pretendemos inventar o “homem novo”, nem o “bom selvagem”, desenhados pelo Estado, que, no fundo não são mais que utopias. O Homem já está desenhado.
2. O combate às utopias e ao estatalismo na sociedade. A sociedade civil, com as suas estruturas históricas como a família, a iniciativa privada, as associações profissionais e culturais, os municípios, a Nação, são anteriores ao Estado. Também aqui o que nos opõe à esquerda é só o contrário: não é a sociedade civil nem a Nação que são desenhadas em função do Estado, mas o Estado que é desenhado em função destas. A sociedade civil, com as suas estruturas multisseculares, já está desenhada. Combatemos por um Estado mínimo que, ao contrário do social(ista), não pretende substituir a família, nem as demais estruturas sociais intermédias.
Combatemos por uma sociedade que funciona livremente, que recusa a omnipresença estatal. Combatemos a atomização a que o Estado nas últimas décadas, com as suas políticas subreptícias anti-família, em várias frentes, submeteu a sociedade portuguesa: uma sociedade atomizada, com laços cada vez mais débeis e precários entre os seus elementos, é uma sociedade facilmente dominável e alienável.
Em suma, não pretendemos que o Estado faça favores ou dirija as famílias e a sociedade civil, mas sim que as deixe funcionar em paz.
A sociedade civil não precisa que o Estado regulamente tudo e todos, não precisa que o Estado defina o que se pode pensar e não pensar, o que se pode criticar e não criticar, o que se pode comer e não comer, onde se pode fumar e não fumar – tabaco,
evidentemente –; não precisa que o Estado eduque. Nas últimas décadas o Estado atomizou e secou a sociedade civil, à custa de muito défice.
Basta que o Estado não impeça, com o seu habitual zelo controleiro, as iniciativas da sociedade civil e se transforme num Estado subsidiário.
3. Combate civilizacional pelo futuro do Ocidente
Ao contrário do que a propaganda de esquerda alvitra, a prioridade do Ocidente não são as variações climáticas nem o “Tratado-Constituição” para a Europa. No primeiro caso porque o clima nunca é fixo – ou aquece ou arrefece; no segundo, porque simplesmente não serve para nada a não ser criar um “super-estado” policial à base de regulamentos e legislações absurdas, num espírito de violação das mais elementares liberdades, sacrificadas às utopias igualitárias e multiculturalistas.
Os grandes desafios para a Europa são, isso sim, o seu declínio demográfico – existirá
algum plano oculto para a extinção dos povos europeus? –, habilmente conduzido há décadas, as ameaças do terrorismo e os fluxos migratórios descontrolados.
Porém, o maior desafio de todos é a crise de identidade europeia: a Europa é o que os seus fundamentos culturais e históricos determinam, e não aquilo que os políticos de um momento gostariam que fosse. Fazem falta líderes políticos que não tenham medo de fazer a Europa reencontrar-se consigo própria.
Será à volta destas linhas mestras que a Direita se deverá unir, ver o que tem em comum e aquilo por que está disposta a travar um combate doutrinário, político e civilizacional.
Há, efectivamente, muito por onde combater, muitas convicções para difundir, antes de nova batalha eleitoral. As pessoas só votam em coisas novas quando estão convictas do que está em jogo. Mas, antes, é inevitável a batalha das ideias.
Se a Direita quiser levar a sério essa batalha e marcar a diferença, terá incompreensões, perseguições, insultos, – a esquerda é assim – tudo sinal de que está no bom caminho.
Haja coragem e determinação.
Não temos nada a perder.

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